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A CONDIÇÃO URBANA Tradução: Letícia Martins de Andrade |
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A obra
Com a globalização, ei-nos
projetados para o “pós-cidade”, para o “pós-urbano”. Na Europa,
estávamos habituados a ver a cidade como um espaço circunscrito no qual
se desenvolve uma vida cultural, social, política, tornando possível
uma integração cívica dos indivíduos... Somos agora confrontados de um
lado com metrópoles gigantescas e sem limites, e de outro com o
surgimento de entidades globais, em rede, cortadas de seu ambiente. A
reconfiguração que ora ocorre suscita inquietação: iremos assistir ao
declínio irremediável dos valores urbanos que acompanharam a história
ocidental? Prevalecerão inelutavelmente a fragmentação e o estiramento
caótico? Estaremos condenados a lamentar a polis grega, a cidade do Renascimento, a Paris das Luzes, as grandes cidades industriais do século XIX?
Relembrando
os elementos distintivos que compõem a experiência da urbe, Olivier
Mongin assenta os fundamentos de uma reflexão atual sobre a condição
urbana. Vivemos numa época na qual a informação se troca de forma
imaterial, mais de acordo com os fluxos do que com os lugares: como,
nessas condições, refundar e reformular espaços urbanos de acordo com
nosso tempo?
Trechos
“Falar
da experiência urbana, isso equivale a evocar a figura do arquiteto e,
portanto, a preocupar-se, como este último, em criar um conjunto com
pedaços, em construir uma unidade com fragmentos. Mas e igualmente
evocar a figura do urbanista, que, também ele, deve se esforçar por
fazer permanecerem juntos elementos heterogêneos. Ora, hoje esse
esforço e ainda mais louvável à medida que se assiste a desmembramentos
territoriais e a segregações espaciais. Por outro
lado, o fato de
não ser um especialista autorizado não deve ser um defeito quando se
fala do urbano, desse domínio no qual a participação democrática faz
muita falta em beneficio de ações que se escondem quase sempre atrás da
tecnicidade dos saberes e da complexidade das decisões. Mais que nunca,
e preciso reatar com um espírito urbano e cidadão, aquele que acredita
que o uno e o múltiplo ainda podem seguir em acordo e que a fronteira
entre um fora e um dentro elabora a priori
a humanização dos espaços e dos lugares. É possível desmentir os que se
queixam de que os não especialistas (os que não ensinam nem praticam a
geografia, a arquitetura ou o urbanismo) não se interessam pelo
urbano?” (p. 25)
“A cidade entendida como experiência urbana e
polifônica. Ela é primeiramente uma experiência física, a marcha do
corpo dentro de um espaço onde prevalece a relação circular entre um
centro e uma periferia. A experiência urbana e, depois, um espaço
público onde corpos se expõem e onde se pode inventar uma vida política
pelo viés da deliberação, das liberdades e da reivindicação
igualitária. Mas a cidade é também um objeto que se observa, a maquete
que o arquiteto, o engenheiro e o urbanista têm diante dos olhos, uma
construção, até mesmo um maquinário, submetida de imediato aos fluxos
da técnica e ao desejo de controle do Estado.” (p. 29-30)
“Formadora,
a cidade-corpo adora se apresentar, é sabido, como uma cidade-livro,
como uma cidade-linguagem, em suma, como uma língua. Entre o corpo da
cidade e os corpos que a percorrem, a cidade é uma folha, jamais
totalmente branca, escreve Jean-Christophe Bailly. ‘Uma cidade é uma
língua, um sotaque’, escreve Jean-Christophe Bailly. ‘Como se lançam
palavras no ar com a voz, desdobram-se passos no espaço ao caminhar, e
alguma coisa se define e se enuncia. As palavras tomam lugar no seio de
uma frase ininterrupta que desaparece na distância ou regressa.
Gramática gerativa das pernas.’” (p. 62)
“(...) a propósito de
Paris: “uma cidade grande é como um charco, com suas cores, seus
reflexos, seus frescores e seu lodo, seu borbulhamento, seus
malefícios, sua vida latente. Uma cidade é uma mulher, com seus desejos
e suas repulsas, seus ímpetos e suas renúncias, seus pudores —
sobretudo seus pudores. Para penetrar o coração de uma cidade, para
compreender-lhe os segredos sutis, é preciso agir com a infinita
ternura e também uma paciência às vezes desesperadora. É preciso
roçá‑la sem ser dissimulado, acariciá‑la sem pensamentos ocultos, isso
durante séculos.” (p. 65-6)
“Dado que o tipo‑ideal da cidade
isola traços correspondentes a níveis distintos de experiência e
ressalta tensões que podem se soldar por experiências negativas
(retraimento dentro do privado, ausência de mobilidade corporal, desvio
do espaço público pelo mercado, ausência de participação política), o
urbanismo deve, ele mesmo, ser interrogado em função do que ele torna
possível, ou não, quanto a experiência urbana. Se não existe um bom
urbanismo universal, aquele da cidade utópica, suscetível de desenhar a
“boa cidade”, então um urbanismo que toma partido dos lugares contra os
fluxos quase não tem mais sentido. (...) a apreensão de uma experiência
urbana multidimensional leva a uma segunda interrogação: em que medida
o urbanismo consegue refrear a prevalência dos fluxos sobre os lugares,
consegue impedir a reviravolta da dialética privado‑público em
benefício exclusivo do privado, e ir contra a substituição de uma
dinâmica da separação por uma dinâmica da conflitualidade? Mas também:
em que medida ele contribuiu, ou não, para formatar as regras do
urbano?” (p. 108)
“(...) os fluxos prevalecem, a
privatização ganha terreno sobre a vida pública, as lógicas de
separação e de secessão são preferidas a conflitualidade democrática.
Dessas mutações, não é preciso concluir que os territórios
desapareceram, mas que eles dão lugar a novas configurações, a novas
tópicas privilegiando escalas, níveis, redes e velocidades, segundo
modalidades inéditas.” (p. 231)