A condição urbana

A CONDIÇÃO URBANA
A cidade na era da globalização
Olivier Mongin

Tradução: Letícia Martins de Andrade
344 pp., 16 x 23 cm
ISBN: 978-85-7448-174-6
R$ 49,00

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A obra

Com a globalização, ei-nos projetados para o “pós-cidade”, para o “pós-urbano”. Na Europa, estávamos habituados a ver a cidade como um espaço circunscrito no qual se desenvolve uma vida cultural, social, política, tornando possível uma integração cívica dos indivíduos... Somos agora confrontados de um lado com metrópoles gigantescas e sem limites, e de outro com o surgimento de entidades globais, em rede, cortadas de seu ambiente. A reconfiguração que ora ocorre suscita inquietação: iremos assistir ao declínio irremediável dos valores urbanos que acompanharam a história ocidental? Prevalecerão inelutavelmente a fragmentação e o estiramento caótico? Estaremos condenados a lamentar a polis grega, a cidade do Renascimento, a Paris das Luzes, as grandes cidades industriais do século XIX?
Relembrando os elementos distintivos que compõem a experiência da urbe, Olivier Mongin assenta os fundamentos de uma reflexão atual sobre a condição urbana. Vivemos numa época na qual a informação se troca de forma imaterial, mais de acordo com os fluxos do que com os lugares: como, nessas condições, refundar e reformular espaços urbanos de acordo com nosso tempo?

Trechos

“Falar da experiência urbana, isso equivale a evocar a figura do arquiteto e, portanto, a preocupar-se, como este último, em criar um conjunto com pedaços, em construir uma unidade com fragmentos. Mas e igualmente evocar a figura do urbanista, que, também ele, deve se esforçar por fazer permanecerem juntos elementos heterogêneos. Ora, hoje esse esforço e ainda mais louvável à medida que se assiste a desmembramentos territoriais e a segregações espaciais. Por outro
lado, o fato de não ser um especialista autorizado não deve ser um defeito quando se fala do urbano, desse domínio no qual a participação democrática faz muita falta em beneficio de ações que se escondem quase sempre atrás da tecnicidade dos saberes e da complexidade das decisões. Mais que nunca, e preciso reatar com um espírito urbano e cidadão, aquele que acredita que o uno e o múltiplo ainda podem seguir em acordo e que a fronteira entre um fora e um dentro elabora a priori a humanização dos espaços e dos lugares. É possível desmentir os que se queixam de que os não especialistas (os que não ensinam nem praticam a geografia, a arquitetura ou o urbanismo) não se interessam pelo urbano?” (p. 25)

“A cidade entendida como experiência urbana e polifônica. Ela é primeiramente uma experiência física, a marcha do corpo dentro de um espaço onde prevalece a relação circular entre um centro e uma periferia. A experiência urbana e, depois, um espaço público onde corpos se expõem e onde se pode inventar uma vida política pelo viés da deliberação, das liberdades e da reivindicação igualitária. Mas a cidade é também um objeto que se observa, a maquete que o arquiteto, o engenheiro e o urbanista têm diante dos olhos, uma construção, até mesmo um maquinário, submetida de imediato aos fluxos da técnica e ao desejo de controle do Estado.” (p. 29-30)

“Formadora, a cidade-corpo adora se apresentar, é sabido, como uma cidade-livro, como uma cidade-linguagem, em suma, como uma língua. Entre o corpo da cidade e os corpos que a percorrem, a cidade é uma folha, jamais totalmente branca, escreve Jean-Christophe Bailly. ‘Uma cidade é uma língua, um sotaque’, escreve Jean-Christophe Bailly. ‘Como se lançam palavras no ar com a voz, desdobram-se passos no espaço ao caminhar, e alguma coisa se define e se enuncia. As palavras tomam lugar no seio de uma frase ininterrupta que desaparece na distância ou regressa. Gramática gerativa das pernas.’” (p. 62)

“(...) a propósito de Paris: “uma cidade grande é como um charco, com suas cores, seus reflexos, seus frescores e seu lodo, seu borbulhamento, seus malefícios, sua vida latente. Uma cidade é uma mulher, com seus desejos e suas repulsas, seus ímpetos e suas renúncias, seus pudores — sobretudo seus pudores. Para penetrar o coração de uma cidade, para compreender-lhe os segredos sutis, é preciso agir com a infinita ternura e também uma paciência às vezes desesperadora. É preciso roçá‑la sem ser dissimulado, acariciá‑la sem pensamentos ocultos, isso durante séculos.” (p. 65-6)

“Dado que o tipo‑ideal da cidade isola traços correspondentes a níveis distintos de experiência e ressalta tensões que podem se soldar por experiências negativas (retraimento dentro do privado, ausência de mobilidade corporal, desvio do espaço público pelo mercado, ausência de participação política), o urbanismo deve, ele mesmo, ser interrogado em função do que ele torna possível, ou não, quanto a experiência urbana. Se não existe um bom urbanismo universal, aquele da cidade utópica, suscetível de desenhar a “boa cidade”, então um urbanismo que toma partido dos lugares contra os fluxos quase não tem mais sentido. (...) a apreensão de uma experiência urbana multidimensional leva a uma segunda interrogação: em que medida o urbanismo consegue refrear a prevalência dos fluxos sobre os lugares, consegue impedir a reviravolta da dialética privado‑público em benefício exclusivo do privado, e ir contra a substituição de uma dinâmica da separação por uma dinâmica da conflitualidade? Mas também: em que medida ele contribuiu, ou não, para formatar as regras do urbano?” (p. 108)


“(...) os fluxos prevalecem, a privatização ganha terreno sobre a vida pública, as lógicas de separação e de secessão são preferidas a conflitualidade democrática. Dessas mutações, não é preciso concluir que os territórios desapareceram, mas que eles dão lugar a novas configurações, a novas tópicas privilegiando escalas, níveis, redes e velocidades, segundo modalidades inéditas.” (p. 231)