COOL MEMORIES III
Jean Baudrillard

Tradução de Rosângela V. Tibúrcio
168 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-018-5
R$ 30,40

 Compre aqui com nossos parceiros
 Livraria Cultura
 Submarino
 Saraiva
 Siciliano
 Fnac
 

 

Na continuação da série Cool Memories, que já se convencionou tratar como sua autobiografia, o renomado sociólogo francês expõe, numa prosa crua, entrecortada e iconoclasta, sua visão do que resta a ver no mundo. Telegramas de um mundo onde tantas coisas se decompõem, e onde outras recobram um inesperado vigor.

"Consegui apagar todas as marcas, todas as possíveis conseqüências deste livro? Consegui que nada se possa fazer com ele, anulei qualquer veleidade de atribuir-lhe um sentido? Cheguei a esta continuidade do Nada? Nesse caso, fui bem-sucedido, fiz do livro o que o sistema fez da realidade - isto é, que não se sabe mais o que fazer com ela, muito menos como livrar-se dela." Jean Baudrillard (p. 153)

 

Sobre o livro

Baudrillard nos surpreendeu algumas vezes com sua impertinente lucidez, e esses fragmentos incorporam material inusitado também. Partindo da posição do intelectual engajado clássico, hoje se considera mais escritor do que sociólogo; personifica mais o viajante e franco-atirador apreciador de um texto atuante e bem-cuidado do que o analista da sociedade de consumo. Vai longe o Baudrillard de O sistema dos objetos e Esquecer Foucault, bem-vindo o Baudrillard poeta do mundo. Em Cool Memories I e II ele já nos tinha dado o prazer de seus aforismos sagazes e cortantes, testemunhos de um mundo envolvido numa certa desconstrução poética, um agudo pessimismo velado, um ceticismo impiedoso acompanhado de uma nem sempre suave ironia. No presente volume, o globe-trotter Baudrillard sai da nevasca de Montreal para aterrissar nos corpos de Copacabana, discorre sobre a nulidade da Bienal de Veneza, lamenta nossa incapacidade de controlar o tempo e principalmente ataca as imbecilidades reinantes no cotidiano, mas também no mundo político e cultural.

Mas é nos belos trechos onde aborda o ato de escrever que Baudrillard se expõe a um irresistível semi-harakiri público: "haveria muito a dizer sobre a prostituição das palavras, o esgotamento textual da língua...". E mais: "na escrita, é como no resto: é preciso atirar mais rapidamente que a própria sombra... ato reflexo que terminou antes de ter começado". Ou ainda: "a arte foi a transfiguração poética do real. A filosofia foi a transfiguração poética do conceito. O que é preciso transfigurar poeticamente daqui em diante é o desaparecimento disso tudo". Mas podemos também pegar Baudrillard no contrapé — um deslize? — pois parece acreditar em alguma coisa, sim: "Onde estão os cantos de Hölderlin...? (...) Os Deuses foram expulsos. Seu espectro vaga nos desertos da pós-modernidade." Cava-se a descrença, encontra-se Hölderlin! Um bom (re)começo para quem dizia recentemente ao editor, numa velha mesa de botequim em Higienópolis, São Paulo: "Tudo isso, todas essas páginas escritas, isso não tem a mínima importância."

 

Trechos

"Ao contrário daqueles que esperam tudo da indigestão das idéias e dos discursos - haveria muito a dizer sobre o abuso das idéias, a prostituição das palavras, o esgotamento textual da língua -, em vez disso, você será julgado pela brevidade de suas intuições e discursos." (p. 17)

"Ela suga as palavras - parece em estado permanente de felação das palavras que pronuncia." (p. 64)

"Na escrita, é como no resto: é preciso atirar mais rápido que a própria sombra. É uma espécie de ato reflexo que termi-nou antes de ter começado. E que não deixa rastro (quando bem-sucedido). Porque de algum modo é o objeto que faz o trabalho. Porque as coisas encontram por si mesmas sua articulação. Mas a contrapartida dessa espécie de escrita automática, de encadeamento sem esforço, que realiza o que era o óbvio - a contrapartida é uma passagem cada vez mais difícil ao ato. Não é verdade que a experiência de escrever ou de falar facilite seu exercício. Ela o torna cada vez mais angustiante." (pp. 71-72)

"Copacabana. Milhares de corpos em toda parte. Na rea-lidade, um único corpo, imensa massa de carne ramificada, todos os sexos confundidos. Um único pólipo humano expandido, impudico, um único organismo onde todos têm a mesma cumplicidade dos espermatozóides no fluxo seminal. De algum modo, a indiferenciação da cidade e da praia leva a cena primitiva diretamente à praça pública. O ato sexual é permanente, mas não no sentido do erotismo nórdico: ele está na promiscuidade epidérmica, na confusão dos corpos, dos lábios, das bundas, das ancas - um único ser fractal disseminado sob a membrana do sol." (p. 84)

"Infelizmente, a idiotice típica de nossa época não se diferencia mais da inteligência. Confunde-se com ela. Não é mais inculta; ao contrário, é superinformada, possui a mesma vivacidade reflexa da inteligência artificial. É o grau Xerox da estupidez que se confunde com o grau Xerox da inteligência." (p. 109)

"Sem dúvida, o estágio final do pensamento é a desordem, a divagação, o fragmento, a extravagância. E, se é assim, de que serve ordenar um livro? Por que alimentar essa vontade, esse projeto que julgamos não passar de servidão a si mesmo? Entretanto, é preciso escrevê-lo, porque ao contrário do discurso oral, que é feito para compactuar com a ordem das coisas, a escrita, destinada a ser entendida, é o lugar de sua fragmentação, de sua antigravitação - onde elas são devolvidas, pela força da linguagem, a uma extrema singularidade." (p. 130)

 

Cool Memories II na imprensa

"Nos meus escritos teóricos eu também já tinha sido muito duro, mas ninguém percebia porque era muito intelectualizado. A vantagem quando você diz 'agora é o resto de minha vida' é que você decide contar tudo. Bom, tudo a gente não diz nunca, mas você toma menos cuidado, vai mais longe. É a regra do jogo nesse tipo de trabalho, um livro assim tem que dar umas cutucadas, e às vezes a gente acaba sendo cruel." (o autor, na Folha de S. Paulo, 25/7/1987).

"Algo como o regresso da filosofia à posição fetal do big crunch filosófico." (Jornal do Brasil, 16/10/1996)

"Baurillard vê o caos brasileiro como privilégio." (O Globo, 16/10/1996)

"E Cool Memories II é angustiante em qualquer dia da semana. Domingo à noite, então, é um pouco 'over'(...)" (Matthew Shirts, O Estado de S. Paulo, 23/10/1996)