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COOL MEMORIES IV Tradução de Luciano Loprete |
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O último volume das crônicas que já se convencionou tratar como a autobiografia do importante sociólogo e ensaísta francês, autor de Senhas e O sistema dos objetos, traz suas reflexões em pílulas ácidas e contundentes.
Aforismos, reflexões, fragmentos do pensamento. Filosofia de salão, de bar e de academia. Não importa onde esteja, o que veja, quem encontre, Jean Baudrillard tem sempre algo a dizer – sobretudo, tem sempre algo a pensar. No período de quatro anos que compõe Cool Memories IV, o sociólogo e ensaísta francês, autor de importantes obras como O sistema dos objetos e Ilusão vital, faz um novo périplo pelo mundo, mostrando que um simples olhar mais acurado descobre realidades impensadas, motivações para assistir à (e agir na) transformação do mundo. No mínimo trata-se de um não à passividade, ainda que ele próprio não acredite. Para Baudrillard, “o pensamento nada mais é que uma coincidência feliz”.
Seu percurso de 1996 a 2000 passa pelo Brasil e pela Noruega; sai da cidade mais meridional do planeta, Ushuaia, para aterrissar na “megalópola” Nova Iorque (“outro fim de mundo [...], um epicentro catastrófico [que] não tem mais nada a fazer senão ser o centro do mundo”); divaga sobre Pompéia e São Petersburgo. Se não atravessa o mundo todo, abarca todo tipo de assunto: Clinton e seu mais-que-célebre charuto, Clint Eastwood e suas pontes de Madison, a besteira estatística e os médicos sem fronteiras, egoísmo e sexo, feminismo e religião.
Mas de certa forma o que amarra tudo são as duas preocupações que mais polêmica vêm causando nos últimos anos: a globalização e a comunicação de massa. “Vírus informáticos? Não: a informação é que é um vírus.” Talvez seja o que acarretou a polêmica que tem vivido consigo mesmo a propósito do texto como mídia, razão pela qual ultimamente tem dado mais importância à fotografia.
Uma instigadora e divertida conclusão para a série Cool Memories, cujos números I, II e III foram lançados respectivamente pela Espaço e Tempo, em 1992, e Estação Liberdade, em 1996 e 2000.
Trechos
"Diz-se que a comunicação planetária elimina as distâncias. Mas o impacto das catástrofes, este continua inversamente proporcional à distância: 5 mil mortos na China não valem 10 vidas humanas ocidentais. É até mesmo pior que antigamente, já que então a indiferença podia ser imputada à falta de comunicação – uma vez eliminado esse obstáculo, pode-se verificar que, atrás da solidariedade formal, grassa a discriminação.”
"Tudo compreender e, portanto, tudo perdoar é uma lei moral impraticável. Pode-se compreender a mulher adúltera e, portanto, perdoá-la e, portanto, evitar que a enforquem numa árvore em praça pública. Mas pode-se também compreender o mulá que ordena seu enforcamento, e compreender até mesmo a árvore na qual foi enforcada, até mesmo a corda. Pode-se compreender tudo, só não se pode compreender que seja assim.”
"Nova silhueta urbana: homem imóvel na esquina com seu celular, ou girando em torno de si como uma fera resfolegante, falando no vazio sem parar. Insulto vivo a todos que passam. Somente os loucos e os bêbados podem desprezar assim o espaço público e falar no vazio; mas, eles, pelo menos, estão ligados a seu delírio interior. Enquanto o homem celular impõe a todos, que não têm nada a ver com aquilo, a presença virtual da rede, que é o inimigo público nº 1.”
"Os EUA paraquedam a paz na Bósnia exatamente como paraquedaram a guerra no Golfo. Ready made tecnológico e diplomático. Assim a paz e a guerra parecem irreais e espectrais tanto uma como a outra.”
"Sem imagem nada acontece. Abaixo de 10% de audiência, nenhum acontecimento é digno de fé. Reciprocamente, diante de um público de mais de 10 pessoas, não há como questionar a realidade – a rejeição é imediata. O que prova que essa famosa realidade é de ordem ao mesmo tempo mágica e estatística.”
"Os(as) brasileiros(as) têm uma maneira de ficar mais nus que nós, pois são assim em seu interior. Nós apenas nos desvestimos.”
"O desaparecimento não é a morte, e a tristeza do desaparecimento não é a do luto. Assim, a “saudade”* exprime não o luto pelo que morreu, mas a nostalgia do que desapareceu, com um lume de ressurreição (como para Dom Sebastião e o Quinto Império). O que reclamavam as “locas de la Plaza de Mayo”, de Buenos Aires, sabendo que não voltariam a ver seus filhos, era uma prova de sua morte, a fim de escapar da angústia por seu desaparecimento.”
"A liberdade não é tão livre quanto se pensa: ela produz anticorpos que se insurgem contra ela. A verdade também é ameaçada por dentro, como um Estado às voltas com sua própria polícia. Se os valores gozassem de imunidade total, eles seriam tão assassinos quanto uma verdade científica.”