O CORPO EM OFF
A doença e as práticas psi na pediatria hospitalar
Cristina Surani Mora Capobianco

248 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-024-X
R$ 36,00

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O corpo que fala, mas que não se escuta nem se vê.

“Nas situações relatadas que entremeiam os capítulos, procurei apresentar o que ouvi e olhei do corpo que escapa às especialidades e aos saberes dissociados [...]. É o corpo ao qual tenho me referido como o ‘corpo em off’, ou seja, aquele que não se escuta nem se vê pois está desligado do circuito dos especialismos, mas que está presente o tempo todo.”

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“Durante uma consulta no ambulatório de um hospital geral, o estagiário que atendia um menino acompanhado de sua mãe teve de sair da sala por 15 minutos. Ao voltar, olhou para ela e perguntou-lhe quem a estava atendendo. “O senhor.” “Não, a senhora está enganada, não fui eu que a atendi.” “Mas, doutor, essa é a sua letra e foi o senhor que anotou os dados do meu filho aí nessa ficha.”

Este caso abre O corpo em off e, junto com outros relatos, dá uma amostra de como certas práticas médicas cientificistas (não) vêem os pacientes: como se fossem apenas órgãos, sem tentar entender a complexidade da experiência do adoecer.

O Dr. Ulysses Fagundes Neto, professor titular do Depto de Pediatria e reitor da Unifesp, na orelha do livro, escreve que a autora enfatiza que os pacientes “não querem ser olhados apenas como órgãos doentes, mas, acima de tudo, como seres humanos que sofrem, e defende a procura de uma clínica cuja aposta seja a criação de novos dispositivos de intervenção”.

O corpo em off é uma caminhada para entender como esta visão do doente se instaurou, mas, especialmente, como romper com ela e atrair a atenção médica para o corpo do paciente em sua individualidade e integralidade, sem a antiga e ainda vigente divisão corpo/mente, incorporar o saber deste paciente e incluí-lo em seu próprio tratamento, quebrando as divisões criadas pelas especializações, pela rede saber-poder que permeia toda a medicina.

Na busca por uma clínica que crie novos modos de existência, Cristina Capobianco analisa sua vivência no dia-a-dia de um hospital geral. Este livro é resultado de suas experiências como psicóloga nas mais diversas situações ocorridas entre os profissionais de saúde e seus pacientes no ambiente hospitalar, onde, embora todos os médicos, com os mais diferentes tipos de personalidades, visem ao bem-estar dos pacientes, nem sempre são conseguidos os melhores resultados.

A autora revisitou a obra de Foucault, Sacks, Dolto, embasando-se nestes e outros autores para a reflexão sobre sua experiência de psicóloga em vários hospitais gerais, sobretudo nos serviços de pediatria, quando percebeu a incorporação dos modelos médicos cientificistas de intervenção pelo próprio profissional psi, incorporação esta que vai criando, no campo multidisciplinar da saúde, uma espécie de “novo órgão”, o psicológico, objeto de um outro especialista, o psicólogo/psicanalista.

Para a Dra. Regina Benevides de Barros, professora do Depto. de Psicologia da UFF, este “é um livro que convida o leitor ao percurso da constituição dos saberes, conclama questionamentos sobre os especialismos, apresenta polêmicas sobre os sentidos do corpo, força-nos a olhar com outras lentes a criança que sofre, convida-nos à invenção de dispositivos clínicos, embala-nos nas situações do cotidiano que misturam dor e alegria”.

 

Trechos

“O corpo em off é um livro que convida o leitor ao percurso da constituição dos saberes, conclama questionamentos sobre os especialismos, apresenta polêmicas sobre os sentidos do corpo, força-nos a olhar com outras lentes a criança que sofre, convida-nos à invenção de dispositivos clínicos, embala-nos nas situações do cotidiano que misturam dor e alegria.” (do Prefácio de Regina Benevides de Barros, p. 21).

“A irrupção de uma doença evocava freqüentemente o sentimento de fracasso e culpa nos cuidados com a criança, o medo da morte, ilusões perdidas, ocasionando mudanças drásticas em sua rotina. Recebia as crianças marcadas por expectativas, desejos e frustrações já presentes nos pais antes do seu nascimento. Levar em conta a dinâmica familiar revelada pela doença e pelo tratamento era importante para criar novos modos de existência a partir do acontecimento-doença. (...) Por outro lado, observando e escutando a relação médico-paciente, (...) me incomodava perceber como qualquer saber que o paciente esboçava a respeito da doença era desqualificado pelo médico, por não se enquadrar em suas teorias médico-científicas. A justificativa para essa atitude é a necessidade de garantir, por parte do paciente e de seu responsável, a aceitação, implementação e continuação do tratamento prescrito.” (p. 31)

“O que se espera do psicólogo [em uma equipe médica] é uma atuação que, em primeiro lugar, devolva à criança a capacidade produtiva desejada pela norma médica, o que poderá ter também, como efeito, o “restabelecimento da capacidade de atuação” do médico.” (p. 101)

“É interessante notar que o psicólogo atuará, amiúde, [...] dentro da mesma ideologia médica, à procura da origem do sintoma, mantendo a relação causa-efeito, tal como o médico já havia feito. Constata-se muitas vezes esse modo de funcionamento, mesmo entre psicólogos que falam em nome de uma prática psicanalítica.” (p. 103)

“Nas situações relatadas que entremeiam os capítulos, procurei apresentar o que ouvi e olhei do corpo que escapa às especialidades e aos saberes dissociados uns dos outros, argüindo sobre o corpo do qual cada especialidade parece se encarregar, ao “universalizá-lo”, “compreendê-lo” e “explicá-lo”. É o corpo ao qual tenho me referido como o “corpo em off”, ou seja, aquele que não se escuta nem se vê pois está desligado do circuito dos especialismos, mas que está presente o tempo todo.” (p. 212)