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CRÔNICA DA ESTAÇÃO DAS CHUVAS Tradução: Dirce
Miyamura |
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A obra
Crônica da estação das chuvas, obra do escritor japonês Nagai Kafu escrita em 1931, trata da vida noturna da cidade de Tóquio do início do século XX. Descortina as relações obscuras estabelecidas no agitado bairro de Ginza. O amor e o interesse, o adultério e o mundo das gueixas e meretrizes são os pilares sobre os quais se sustenta a narrativa ácida de Kafu.
A prostituta Kimie, personagem central, ao ler em uma revista de má fama um artigo que expunha sua intimidade, começa a estranhar a série de reveses e acontecimentos incomuns que, coincidentemente ou não, passam a perturbá-la. Decide procurar um vidente, numa tentativa desesperada de descobrir a causa dos infortúnios. A partir daí, encadeia-se a trama e é dada ao leitor a possibilidade de desenovelar lentamente a narrativa e compreender o complexo tecido dramático que se forma ao redor da veleidade da protagonista.
O autor aplica as cores fortes de sua prosa sobre a tela delicada da estação das chuvas; contrastando com a suavidade da brisa e da garoa que umedecem cada página, desfilam ao rés do texto a ambição, o ódio, a vingança de personagens transtornados e enlameados pelo modo de vida torpe do submundo.
A obra constitui um precioso panorama de uma Tóquio parcialmente extinta, aquela onde se misturavam prazeres pagos, teatro kabuki e nô, becos soturnos e vielas enlameadas, e cuja pujante alegria de viver seria em breve abafada pelos anos de intolerância e guerra.
Trechos
“Kyoko precisava mandar dinheiro para sua família no interior. Já Kimie não tinha tal obrigação. Sendo uma garota do interior, não sentia necessidade de se vestir seguindo a última moda e, a menos que fosse convidada, não tinha a iniciativa de ir a cinemas e teatros. Fora a leitura desatenta de algum romance ou livro de contos no trem, não tinha qualquer tipo de passatempo e sequer saberia dizer o que mais gostava de fazer.” (p. 15)
“Quando o assunto resvalava para coisas comezinhas do dia-a-dia, mesmo que fosse sobre outra pessoa, Kimie logo sentia enorme tédio. De qualquer modo, no que diz respeito a dinheiro, acreditava que mesmo sem pedir nada eram os homens que insistiam em abastecê-la.” (p. 20)
“Fora os poucos veículos que circulavam, procurando caminho entre os passos trôpegos dos bêbados, só se viam gueixas cruzando a avenida, aparecendo e desaparecendo de uma ruela para outra.” (p. 42)
“Mais do que com homens bonitos, essa sua tendência se intensificava quando estava com velhos feios ou homens que num primeiro momento lhe pareceram repulsivos. Só depois é que vinham os calafrios de vergonha ao relembrar tudo o que tinha feito.” (p. 48)
“A grande avenida de Ginza e as largas transversais à esquerda e à direita, até onde se podia ver, estavam todas desertas. Acima pairava o céu noturno, ainda com nuvens ameaçando chuva, e abaixo se via o colorido das luzes dos bares e cafés refletidas na superfície das calçadas molhadas.” (p. 111)
“Sozinha com suas fantasias que vinham aflorando cada vez mais, Kimie cerrou um pouco os olhos e abraçou a si mesma com toda a força de seus braços. Suspirou profundamente, enrolando-se no próprio corpo. Nesse mesmo instante, ouviu a porta de correr deslizar com suavidade. Um homem entrou no quarto e parou em pé diante do biombo.” (p. 122)
“Quando chegaram perto do portão da bilheteria, a multidão indo e vindo os engoliu de repente e a conversa foi interrompida. Os três homens deixaram a estação de trem. O vento noturno, depois da estação das chuvas, trazia um sopro gelado que arrepiava a pele.” (p. 132)
“O céu escuro e coberto de nuvens indicava a chuva iminente. Por entre as frestas das nuvens revoltas pela forte ventania, estrelas apareciam e desapareciam. Das árvores das calçadas, rasgadas pelo vento, as delicadas folhas de verde vívido que tinham acabado de brotar caíam incessantemente sobre o pavimento. As ruas do bairro Marunouchi, que à noite tendiam a ficar vazias, com pedestres rareando, pareciam ainda mais insólitas no meio daqueles ventos e da crescente escuridão. Tinha-se a sensação de que assaltantes poderiam surgir a qualquer momento das ruelas estreitas entre os altos edifícios.” (p. 134)
“— O senhor deve
estar me confundido com outra pessoa. Não sei do que está falando.
— Não me surpreende que não se lembre de mim, Kimiko. Afinal, eu decaí a
ponto de virar um simples motorista de táxi. Mas você, por seu lado, não subiu
tanto a ponto de me ignorar, já que é apenas uma garçonete. Uma garçonete, no
fundo, não é muito diferente de uma dama da noite.” (p.
138)