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DANCE DANCE DANCE Tradução de Lica Hashimoto
e Neide Hissae Nagae |
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A obra
Inserindo-se no contexto muito em
voga do “pense globalmente, escreva localmente”, em Dance Dance Dance
Haruki Murakami segue a trajetória do protagonista de Caçando
carneiros, agora à procura de um antigo amor que sumira
misteriosamente do hotel miserável em que viviam, o Hotel do Golfinho. Na busca
por Kiki, o personagem-narrador, um escritor free-lance de revistas, perde-se
cada vez mais num universo de realismo fantástico, "kafkiano", envolvendo-se
com uma garota clarividente, um astro de cinema extravagante, um poeta maneta,
garotas de programa e outros personagens do gênero.
Ambientado em Tóquio, o romance aborda temas como a solidão, o amor e a
efemeridade da vida e retrata uma sociedade em constante transformação,
altamente consumista e regida por valores como fama, dinheiro e poder. Ao som
de músicas dos anos 60, 70 e 80, o narrador e seus amigos vivem num mundo de
carros importados e Dunkin Donut’s, e acabam se envolvendo em um caso de
assassinato. Um das características da obra de Murakami é justamente a
utilização de referenciais da música, do cinema, das artes e do entretenimento
para expressar sua visão das sociedades capitalistas altamente desenvolvidas,
como a japonesa e a americana, da cultura de massa e do comportamento
maniqueísta gerado por este sistema.
O autor se utiliza de recursos lingüísticos e estilísticos, faz um jogo textual
(a escrita japonesa possui quatro sistemas diferentes de grafia – o ideograma,
o fonograma hiragana, o Katakana e o alfabeto romano – e Murakami alterna esses
sistemas no decorrer do texto) para expressar onomatopéias e palavras
estrangeiras, citando, em um jogo cheio de ironia, desde inúmeras referências a
marcas famosas de vestuário e grandes cadeias alimentícias globalizadas até o
zodíaco e a astrologia orientais, tudo para demonstrar a que ponto chega a
dependência, a massificação e a objetificação do sujeito moderno, realçando ao
mesmo tempo as mudanças que ocorrem na sociedade japonesa.
Há também o recurso ao subtexto, frases destacadas em estilos de fonte
diferentes ao longo dos capítulos que, se lidas seqüencialmente, formam um
roteiro do livro, causando-nos uma estranha sensação de déjà vu, na medida em
que este parece antecipar os acontecimentos, demonstrando que o narrador de uma
forma ou outra já sabe, ou pelo menos intui, o rumo dos acontecimentos. E nós,
com ele.
A tradução
De acordo com trabalho
desenvolvido nos últimos anos de tradução de obras importantes da literatura
japonesa moderna e contemporânea, também desta vez a Estação Liberdade traduz a
obra do original japonês. Uma tradução indireta, neste caso, certamente faria
com que se perdessem, mais do que em outras traduções, as sutilezas já
conhecidas de Murakami no trato com o texto, bem como suas brincadeiras com a
língua.
Ao mesmo tempo, constatamos que o público não aceita mais traduções indiretas.
Instintiva ou empiricamente o leitor percebe o quanto se perde do original ao
se passar pelo filtro de mais de um tradutor. Este público mais exigente fez
também com que as editoras se empenhassem em aprimorar as revisões de tradução
e a própria edição de texto, tendo como resultado final uma elevação do padrão
editorial no País.
Trechos
“Recordei-me de um barzinho aonde ia com um amigo que morreu. Costumávamos passar o tempo nesse lugar sem fazer absolutamente nada. Mas, pensando bem, sinto que aquelas foram as horas mais palpáveis de toda a minha vida. É estranho. Lembrei-me também das músicas antigas que tocavam lá. Nós éramos universitários. Bebíamos cerveja e fumávamos. Necessitávamos de um lugar como aquele. Conversávamos muito, mas não consigo me lembrar dos assuntos. Só me recordo de que eram os mais variados. Ele já está morto. Entradas e saídas.” (p. 27)
“Pus o gato numa sacola de supermercado, deixei-o no
assento traseiro do carro e comprei uma pá. Como não fazia havia tempos, liguei
o rádio e segui para o oeste ouvindo rock. A maioria das músicas era sem graça.
Fleetwood Mac, Abba, Melissa Manchester, Bee Gees, KC & Sunshine Band,
Donna Summer, Eagles, Boston, Commodores, John Denver, Chicago, Kenny Rogers…
Essas músicas apareciam e desapareciam como bolhas de espuma na água. Que
droga! Um lixo de música de consumo para arrancar o dinheiro da garotada,
pensei.” (p. 28)
“Procuro uma casa com comida deliciosa, publico a matéria na revista e
apresento-a a todos. Vá aqui. Experimente tal coisa. Mas qual a necessidade de
se fazer isso? Não deveriam todos comer o que quisessem? Por que precisam da
indicação de alguém até para achar um lugar para comer? Por que necessitam que
alguém lhes ensine a escolher o menu? Sabe, as casas apresentadas nessas
revistas vão decaindo no serviço e na qualidade à medida que ficam famosas.
Isso acontece com oito ou nove entre dez, sabia? É porque se perde o equilíbrio
entre oferta e procura. É isso que fazem as pessoas como eu. Cada vez que
encontram algum lugar, vão destruindo-o com bastante esmero. Quando acham um
branco puro, deixam-no todo sujo. As pessoas chamam isso de informação. A
informação sofisticada nada mais é do que passar uma rede por todo o espaço do
cotidiano sem deixar escapar nada. Estou cansado disso. Cansado de estar
fazendo isso.” (p. 150)
“Pescador olhou para Intelectual enquanto girava a caneta esferográfica entre os dedos. Intelectual pegou o maço de Hope que estava sobre o aquecedor, tirou um cigarro, colocou-o na boca, acendeu, enrugou a testa e ficou olhando a fumaça subir. Não sei por que, mas nesse momento tive um pressentimento ruim. Era como se um cavalo estivesse para morrer e ouvisse o som de um tambor ecoando bem longe.” (p. 228)
“Aconteceram muitas coisas e surgiram novos personagens. Houve também muitas mudanças de cenário. Até outro dia, eu perambulava pelas ruas de Sapporo em meio à neve, e agora estava ali olhando o céu, deitado numa praia de Honolulu. Isso se chama ‘curso’ da vida. Fui ligando os pontos e tracei essa linha. Foi dançando conforme a música que cheguei até aqui. SERÁ QUE ESTOU DANÇANDO BEM? Comecei a recordar mentalmente todo o percurso dos acontecimentos e verifiquei, uma a uma, todas as minhas atitudes em relação a eles. Achei que não estava tão ruim. Poderia ter sido melhor, mas... Eu agiria da mesma forma se tivesse que passar por tudo novamente. Isso é o que chamamos de sistema. De qualquer modo, meus pés estão se movendo. Mantenho os passos... E agora estou aqui em Honolulu. Hora do intervalo.” (p. 297-298)
“Mas agora surgira mais um cadáver. Rato, May, Dick North e Kiki. São quatro. Faltam dois. Quem mais irá morrer? Seja como for, todos irão morrer um dia, pensei. Cedo ou tarde. Todos virarão esqueletos brancos e serão levados para aquele aposento. Várias salas estranhas estavam ligadas ao meu mundo. Aquela sala que reunia os cadáveres no centro de Honolulu. Aquele quarto na manhã de domingo, onde Gotanda abraçava Kiki. Até onde tudo isso é real?, pensei. Será que não estou com problemas mentais? SERÁ QUE EU SOU NORMAL? Sentia como se todas as coisas acontecessem numa sala irreal e fossem trazidas para dentro da realidade depois de estarem completamente deformadas. Afinal, qual é a realidade original? Quanto mais pensava, mais sentia que a verdade se afastava de mim. Teria sido realidade aquela Sapporo com neve de março? Parecia irreal. Eu tinha mesmo me sentado com Dick North na praia de Makaha? Isso também me pareceu irreal. Senti que aconteceram coisas parecidas, mas que não se tratava da realidade em sua forma original. Afinal, como é que um maneta conseguiria cortar pão tão bem daquele jeito? Por que a garota de programa de Honolulu deixaria o número do telefone do aposento da morte para o qual Kiki havia me conduzido?” (p. 447-448)
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Sushi com
ketchup Jerônimo Teixeira, Veja, 18/06/05 O pop como totem O mundo desde o fim |