DIÁRIO DE UM VELHO LOUCO
Jun'ichiro Tanizaki

Tradução de Leiko Gotoda
208 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-059-2
R$ 34,00

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"Não tenho nenhuma intenção de me apegar tenazmente à vida, mas uma vez que continuo vivo, não posso deixar de sentir atração pelo sexo oposto.”

Entre o criativo e rebelde patriarca de 77 anos da família Utsugi e sua nora Satsuko estabelece-se em meio a luzes e sombras um jogo sutil de poder envolvendo, de um lado, o ancião que se empenha em burlar uma vida regrada por remédios, médicos e hospitais e, do outro, a ex-dançarina de casas noturnas, mulher bela e licenciosa, plena de vida, que faz uso de seus talentos naturais para fascinar e controlar o sogro, manipulando-o em prol de interesses pessoais.

A idade do protagonista, ao invés de coibir seus instintos, liberta-os. Com a consciência da aproximação da morte e na posição de quem não tem muito a perder, o velho senhor Utsugi rompe por completo com as convenções sociais e entrega-se de corpo e alma à exaltação de seus prazeres hedonistas. A explicação para tais impulsos, em nada exclusivos da juventude e da meia idade, vem do próprio narrador: “Penso, antes, que o fenômeno tem a ver com a sexualidade de um velho impotente — pois alguma sexualidade existe, mesmo num velho impotente.”

Estas páginas de um dos grandes mestres da escrita japonesa ficarão para sempre como um libelo da sexualidade na velhice demonstrando que, se a velhice é cruel quanto à submissão ao desejo, ela só se torna sinônimo de senilidade para os conformistas. O que certamente não é o caso de Tanizaki.

 

Trechos

10 de julho
“Mas a dor não afeta a minha sexualidade, por estranho que pareça. Pelo contrário, a exacerba. Ou melhor, talvez eu deva dizer que sou atraído por mulheres que me causam dor, sinto fascínio por elas.
Creio que esta minha tendência pode ser classificada de masoquista. Não acho que a tivesse desde a juventude, ela foi se manifestando com o avançar da velhice.
Suponhamos que estivessem aqui comigo neste momento duas mulheres igualmente belas, tipos igualmente do meu agrado. A é meiga, honesta e atenciosa, e B, rude, mentirosa e traiçoeira. Nessas condições, quem haveria de me atrair mais? Nos últimos tempos, muito mais B que A, tenho quase certeza, contanto que B nada fique a dever a A em matéria de beleza.” – p. 35

23 de julho
“Mantenho um diário porque gosto de escrever. Não pretendo mostrá-lo a ninguém. A vista anda espantosamente fraca, não consigo ler quanto gostaria e, como não tenho outras distrações, estou sempre disposto a escrever para passar o tempo. Uso pincel grosso e escrevo graúdo para facilitar a leitura. Guardo o diário num cofre pequeno, não quero que ninguém o leia. Já lotei cinco desses cofres. Imagino que será melhor queimar os manuscritos algum dia, mas me agrada também a idéia de deixá-los para a posteridade.” – p. 46

5 de agosto
“— Não estou mais em condições de fruir os prazeres de uma aventura amorosa, de modo que quero, em troca, induzir outras pessoas a se envolverem nessas aventuras e me divertir observando-as”. – p. 71

11 de agosto
“Percorro com os lábios desde a panturrilha até o calcanhar. Para minha surpresa, ela não reclama. Me deixa agir à vontade. Minha língua explora o dorso do pé e alcança a ponta do dedão. Ponho-me de joelhos, pego o pé nas mãos, ergo-o e encho a boca com o dedão e os dois dedos seguintes. Pressiono os lábios contra o arco plantar.” – p. 79