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DICIONÁRIO
DO NORDESTE Prefácio de Marcos Bagno |
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A obra
Em nova edição, essa importante obra de referência traça, de forma divertida e curiosa, as expressões idiomáticas encontradas no nordeste do Brasil. O livro possui mais de 5.000 palavras e expressões e pesquisa em mais de mil fontes, incluindo artistas como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Netto, Lenine, Gilberto Gil, Falcão, Chico César e Chico Science.
O livro começou como uma curiosidade pessoal do jornalista Fred Navarro, ganhou caráter jornalístico quando de sua primeira versão (Assim Falava Lampião, Estação Liberdade, 1998) e depois evoluiu para um projeto mais ousado, com um número significativo de referências coletadas de um vasto universo composto de literatura de cordel, discos, livros e filmes, abrangendo toda a região nordeste, do Maranhão até a Bahia.
Como boa parte das palavras e expressões tem mais de um sentido, encontram-se nesta obra cerca de 6.300 diferentes acepções. De origens diversas (portuguesas, indígenas, espanholas, africanas, francesas, holandesas, árabes, gregas, inglesas), elas ganharam uma roupagem local, personalizada e intransferível, marcada pelo bom humor e pelas referências à terra, aos animais, à geografia e ao dia-a-dia das pessoas que vivem na região nordeste do Brasil.
Até a finalização desse trabalho jornalístico independente, cujo objetivo foi o de reunir em um único volume parte considerável do acervo lingüístico daquela região, o autor passou oito anos pesquisando, checando informações, cruzando fontes, lendo dicionários e fazendo inúmeras viagens à região, em busca de exemplos, provas ou referências.
Sobre a obra
“O Brasil é um arquipélago formado por linhas históricas, o que se reflete no plano sociocultural e lingüístico. Revendo este aspecto, a língua portuguesa trazida pelos colonizadores foi-se propagando em ondas de ação lenta e eficiente sobre os falares indígenas, a partir de núcleos fundamentais, entre os quais Pernambuco e Bahia, os mais antigos pólos irradiadores e fixadores desta língua européia na terra do pau-brasil. Formou, assim, dessa língua transplantada nos primórdios da colonização, a base do dialeto nordestino que leva o seu povo a falar diferente do resto do país.
Assim falamos nós, nordestinos, do Maranhão à Bahia, um dialeto cheio de arcaísmos, de modismos variados, não só no vocabulário, mas nos torneios sintáticos, na entonação e na prosódia. Temos de reconhecer que não se fala no Recife como em Sorocaba, Bagé ou Manaus. E essas diferenças são percebidas com maior acuidade quando nos afastamos de nosso meio.
Fred Navarro passou por esta experiência. Pernambucano, radicou-se em São Paulo há quinze anos e, de lá, teve perspectiva suficiente para observar o falar nordestino. Dedicou-se então a um trabalho de levantamento vocabular, coletando, do Maranhão à Bahia, termos e expressões, algumas próprias de um único Estado, e outras compartilhadas pelos demais. O registro é eclético, com um corte diacrônico: expressões arcaicas e atuais e gírias recentes fazem parte do acervo, retiradas de dicionários, músicas e livros de autores famosos como Gilberto Freyre.
Com sensibilidade lingüística, o pesquisador descobriu as singularidades da fala nordestina, dentro da base comum de língua portuguesa. O livro constitui-se um resgate de nosso falar, registrando na palavra escrita recursos de oralidade. Os verbetes, junto com as definições, trazem letras de música e até receita de bolo. É uma leitura leve, em que vemos retratados a nós mesmos, enquanto falantes e ouvintes do dialeto nordestino.”
Nelly Carvalho é professora do Departamento de letras da Universidade Federal de Pernambuco
Repercussão da primeira versão do livro
“Que este livro seja o começo de um caminho profundo. Se estivéssemos
em um país mais sério e mais preocupado com a língua que
fala, Fred Navarro seria retirado do mundo em que vive e colocado numa redoma
para ficar pesquisando, pesquisando, pesquisando. E a sociedade, depois, agradeceria.”
Professor Pasquale Cipro Neto (Programa Nossa Língua Portuguesa,
TV Cultura, 11/4/1999)
“Poesia, invenção, subversão da linguagem, estabelecida,
neologismos, a fundação diária de um língua viva,
em movimento. Não estou falando de nenhum romance joyceano ou de um novo
poeta revolucionário. Estou falando do dicionário de palavras
e expressões nordestinas, de Fred Navarro.”
Pedro Bial (Programa Espaço Aberto, Globonews, 11/3/1999)
“Escrito pelo jornalista Fred Navarro, Assim falava Lampião, um
glossário de expressões nordestinas, engrossa as pesquisas que
hoje são feitas a respeito do linguajar do povo brasileiro. Nesses estudos,
descobre-se que muito daquilo que é desprezado pelas elites cultas como
maneira errada de se exprimir tem ligações com o português
arcaico.”
Angélica Santa Cruz (Revista Veja, 5/5/1999)
“Esse tipo de trabalho é muito importante para estudantes e para
o público em geral, por ser um registro da língua falada, daquilo
que é dito no cotidiano. A falta de registro no Brasil, sobre todos os
assuntos, é uma coisa impressionante. Este é o tipo do trabalho
que merece parabéns, é um trabalho abnegado e um registro da maior
importância.”
Jô Soares (Programa Jô Onze e Meia, SBT, 16/11/1998)
“Este livro vale por juntar, em um só volume, um pouco do que
já se publicou, desde Câmara Cascudo (RN), Mário Souto Maior
(PE), Cego Aderaldo (CE) e Patativa do Assaré (CE), sobre o vasto mundo
do palavreado que vai do sertão ao cais do Nordeste. Temos reuniões
estaduais com termos baianos, pernambucanos, paraibanos e cearenses, mas nunca
ninguém havia ousado reunir expressões de toda a região.
É um belo registro o Assim falava Lampião.”
Xico Sá (Folha de S. Paulo, 24/9/1998)
Algumas palavras e expressões
Capar o gato: 1. Fugir, dar no pé, rapar, no CE e na BA: “Juvenal acabou o namoro e capou o gato rapidinho.” 2. Sair, ir embora: “A conversa está muito boa mas está na hora de capar o gato e ir para casa...”
Comer insosso e beber salgado: O mesmo que comer da banda podre, pegar a pior parte.
De caju em caju: Aqui e ali, uma vez ou outra, na BA: “Não era hábito dele, nem gostava mesmo de beber, no máximo um vermute ou uma cerveja de caju em caju, mas Deoquinha entornou dois copos daquele assobio-de-cobra como quem toma dois goles d’água (...).” Miséria e grandeza do amor de Benedita, João Ubaldo Ribeiro.
Na rosca da venta: Cara a cara, face a face, testa a testa.
Pegar-o-boi: Na BA é levar vantagem, fazer um bom negócio.
Samangar: Fazer nada, viver no ócio, vagabundar.
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