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DON JUAN (NARRADO POR ELE MESMO) Tradução:
Simone Homem de Mello | Compre aqui com nossos parceiros |
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Don
Juan (narrado por ele
mesmo), apesar do seu subtítulo, é recontado, de fato, por
um
cozinheiro solitário e ocioso, ávido leitor, que, um belo dia, em
meio a leituras de Racine e Pascal, decide dar um basta nos livros. Sua
imprevista decisão coincide com a igualmente repentina e abrupta
aterrissagem de Don Juan no jardim do albergue onde ele vive, nas
ruínas
do monastério de Port-Royal-des-Champs, na França. Não um Don
Juan qualquer, mas o próprio Don Juan, a figura legendária cujas
aventuras já foram contadas e recontadas por Tirso de Molina, Zorilla,
Molière, Mozart, Kierkegaard, Ortega y Gasset, Camus, e que Peter
Handke
decide ambientar definitivamente na contemporaneidade.
Ao longo dos sete dias de sua permanência em Port-Royal, breve repouso
em
seu perambular pelo mundo, Don Juan conta a seu anfitrião, enquanto
este
último cozinha para os dois, as aventuras vividas na semana precedente:
sete dias, sete países diversos, sete mulheres diferentes. Ainda que
sete
seja um número mágico, o que importa aqui não são os
números, mas as letras: “Não contar, e sim soletrar”.
É apenas um dos indícios de que Handke, ele mesmo um narrador
obsessivo, ao construir essa espécie de fábula, também está
interessado nas implicações do narrar, no seu sentido, nas suas
possibilidades e nas suas conseqüências.
Em seus deslocamentos, que têm a duração de um dia
simbólico, do Cáucaso a Damasco, do norte da África à
Holanda, Don Juan, acompanhado por um serviçal — ao qual ele faz
questão de servir com elegância —, é movido não pelo
jogo da sedução, mas pelo luto. A perda do único filho,
verdadeiro amor da sua vida, tornou-o livre, ainda que melancólico,
para
viver o instante, de paisagem em paisagem, de mulher em mulher, numa
eternidade
repleta de repetição, e de algumas variantes que temperam a
história. São momentos absolutos que celebram a “energia pura
e incondicional do desejo”.
O Don Juan de Handke jamais seduziu, nunca foi seduzido. Seus encontros
passionais se dão num encantamento desencantado, porque são
inevitáveis. É seu olhar que funda o outro e desperta o desejo. Nessa
intrincada relação entre narrativa, tempo e desejo; instante,
história e eternidade, Handke nos conta uma história sem fim, mas
“a definitiva e verdadeira história de Don Juan”, diante da
qual todas as outras são falsas.