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ESTRATÉGIA
DA DECEPÇÃO Tradução de Luciano Vieira
Machado |
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Um ensaio mordaz, revelador e preocupante sobre a nova estratégia dos Estados Unidos pós-guerra fria. Este conhecido analista dos meios de comunicação e analisa o conflito do Kosovo à luz de uma guerra "quente" pelo controle das ondas e das imagens, bem como de uma premeditada e eficiente instrumentalização da ONU e da Otan.
O livro
Há um ano, sob incredulidade geral, a Otan, como que querendo encontrar um segundo fôlego, atacava um país europeu "desobediente" exprerimentava à própria custa que não se bombardeia uma guerra civil. Semiguerra não declarada, semiderrota ou vitória de Pirro, o término do conflito no Kosovo não resolveu nenhum dos problemas políticos dos Bálcãs, e muito menos no que restou da antiga Iugoslávia. Pelo contrário, permitiu um alastramento sem precedentes do banditismo, sem falar da fome e da destruição da estrutura social, deixando distantes quaisquer noções de democracia que pudessem estar por trás de tal operação.
Vítima durante quarenta anos de uma estratégia da dissuasão fundada sobre a primazia da arma de destruição em massa, o continente europeu lhe vê suceder agora uma estratégia da decepção que repousa sobre as capacidades cibernéticas da informação massiva, sobretudo aquelas de uma desinformação generalizada. Sob a expressão "domínio global da informação", e a pretexto de "corrigir os Estados renegados, esses Estados-delinqüentes contra os quais os Estados Unidos têm a pretensão de proteger o mundo", assistimos na verdade a uma implosão do conceito tradicional de conflito militar. O que importa agora é o controle da informação, mesmo que para isso seja necessário controlar as ondas — o espaço orbital ou "satelitar" — mediante uma militarização unilateral da atmosfera, passando feito rolo compressor por cima não só da ONU e da Otan — cujas instrumentalizações são tão evidentes quanto patéticas — mas também de tratados internacionais existentes. E tudo isso camuflado sob o manto de uma abnegada operação de proteção dos direitos humanos, "entreabrindo, desde já, a porta para limpezas éticas capazes de substituir, com vantagem, a limpeza étnica de populações indesejáveis ou excedentes". Estamos diante de uma guerra de valores, não mais de território, e ficam patentes o desiquilíbrio do terror e a decomposição geográfica de certas nações em nome dos direitos humanos.
Perante a inevitável proliferação das armas de destruição massiva, o novo conceito estratégico elaborado em Washington por ocasião do qüinquagésimo aniversário da Otan visa ao controle e ao policiamento universal dos fenômenos pânicos que a globalização não deixará de provocar no futuro, permitindo um melhor gerenciamento da nova ordem mundial.
Seleção de trechos
"E desse esquecimento, ou melhor, dessa omissão alimentada pela ilusão da vitória dos aliados no Iraque, viria a nascer, durante o governo de Bill Clinton, o erro fatal da multiplicação, (...) dos "ataques automáticos" destinados a corrigir os Estados renegados, esses Estados-delinqüentes contra os quais os Estados Unidos têm a pretensão de proteger o mundo, graças a suas tecnologias telemáticas."(p. 17)
"Quando a arquitetura das leis de salvaguarda se transforma em ameaça, é difícil acreditar imediatamente na desqualificação — no entanto flagrante — de jurisdições que são a herança de uma ordem estabelecida já antiga. Nos Bálcãs, já não se tratava, para os Estados Unidos, de instaurar uma guerra justa, mas uma guerra legítima, ou até legalista — em função dos interesses da última superpotência do mundo e de sua supremacia absoluta, principalmente nos domínios da vigilância e da informação por meio de satélites." (p. 80)
"A razão nos engana com mais freqüência que a natureza", dizia Vauvenargues... Em todo caso, a natureza do terreno nos Bálcãs parece ter sido totalmente negligenciada pela razão dos senhores de guerra da Otan. Não deixando nenhuma distância tática entre seus meios de ação e seus objetivos políticos, os estrategistas da aliança atlântica deixam transparecer, mais uma vez, a fragilidade de suas concepções militares e dessas visões do futuro que traduzem o ilusionismo técnico dos Estados Unidos a partir do fim da guerra fria." (p. 11)