SE A EUROPA DESPERTAR
Peter Sloterdijk

Tradução de José Oscar de Almeida Marques
96 p | 14 x 21 cm
ISBN 85-7448-025-8
R$ 23,00

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Traz uma entrevista inédita do autor sobre o 11 de setembro de 2001

A Europa foi libertada pelos aliados em 1945 da ditadura nazista — e ao mesmo tempo o velho “Império do Centro” foi agarrado pelas tenazes de novas potências mundiais a Oeste e a Leste. Nesta dupla experiência os europeus vivenciaram seu ano zero, até hoje motivo de uma longa e sofrida reflexão que se arrasta por duas gerações.

Peter Sloterdijk avança a tese de que não haverá como pensar a nova Europa dessa virada de milênio se os europeus não voltarem a seus fundamentos histórico-filosóficos e buscarem uma orientação programática assentada numa “mitomotricidade” imperial portadora de mitos fundadores que resultaram nos esplendores culturais, filosóficos e políticos de que a Europa contemporânea se quer herdeira. Nesse sentido, poderá a noção de Nietzsche de “obrigatoriedade da grande política” ser preenchida de um novo conteúdo contemporâneo, após o fim do vácuo no qual a tragou sua trágica safra de totalitarismos e guerras mundiais?

Acrescentamos na presente edição uma entrevista de Sloterdijk onde este revê, à luz do 11 de setembro norte-americano e de neoimperialismos unilaterais, alguns embates expostos no texto original, redigido sob influência das alterações inter-imperiais após o 1989 soviético / europeu.

 

Trechos

“A primazia de suas descobertas lançou os europeus no centro da aventura da moderna antropologia política. Foram seus olhos que primeiro contemplaram essa totalidade da espécie humana que desde então se confirma novamente a cada circunvolução do planeta.” (p. 12)

“Os europeus foram os primeiros a conceber a profunda idéia de que em todas as civilizações o que varia são aspectos e dialetos de uma única natureza genérica: culturas e povos são criações poéticas de uma força de imaginação que se estende a toda a espécie e é radicalmente multifacetada. Não é por acaso que Weltliteratur, ‘literatura universal’, é um dos termos-chave da crítica de arte na Europa nos séculos XIX e XX.” (p. 13)

“Desse ponto de vista, as doutrinas direitistas de um retorno salutar às fontes da democracia cristã no velho humanismo ocidental e as teorias esquerdistas do engajamento absurdo de seres livres em ‘situações’ casuais relacionam-se de forma muito mais estreita do que supunham na época seus representantes. Tais correntes universalizantes e niilizantes alinham-se por sua vez com os novos pragmatismos, que deveriam finalmente conduzir a Europa à rota de uma economia de mercado de tipo anglo-americano, isenta de ideologias.” (p. 20)

“A frivolidade é o fluido de uma situação mundial na qual a massa principal dos comportamentos cotidianos se justifica com base na diversão, isto é, em uma tênue diferença nos mais ínfimos declives. Seria possível acrescentar, generalizando, que o sistema da frivolidade repousa sobre uma lei do mínimo fundamento suficiente. Escolhas, caprichos, preferências devem bastar para dar às particularidades um assento na existência.” (p. 28)

“A rescisão hesitante, mas pacífica, de Gorbachev do projeto soviético pode ser interpretada como uma prova de que, em última análise, o experimento do comunismo estava, sim, submetido a regras falibilistas e fazia parte, portanto, ainda que de modo problemático, do projeto dos modernos, diferentemente dos regimes fascistas do centro e sul da Europa, que traziam em seu cerne traços de uma paradoxal revolta contra a modernidade.” (p. 39)

“O único aspecto interessante do ataque de 11 de setembro é que ele levou os norte-americanos a abrirem mais o jogo. Agora, eles assumem seu unilateralismo sem reservas. Com isso, apartam-se de maneira mais perceptível que antes do processo civilizatório do poder.” (entrevista, p. 84)

“[Os Estados Unidos] não conseguem inscrever em sua agenda a lição que a história da civilização impõe agora: o surgimento de uma cultura que teria incorporado a sabedoria da derrota. Esta é a verdadeira mensagem do ataque de 11 de setembro: a lição do Vietnã parece extinta e o triunfalismo voltou. Os EUA parecem a anos-luz de distância da transição para um pós-imperialismo autêntico.” (entrevista, p. 85)

“O terrorismo contemporâneo é uma guerra de atmosfera baseada nos meios de comunicação. Cada atentado num mercado de aldeia é ampliado pelo noticiário até se converter num ataque contra todo o país informado. Por isso, o ato terrorista visa sempre o fortalecimento por meio da publicidade. O efeito principal das bombas se passa no noticiário.” (entrevista, p. 89)