FORMIGAS DA ESTAÇÃO DE BERNA
e outras ficções suíças

Bernard Comment

Coleção Latitude
Tradução de Luciano Loprete
120 p. | 14 x 21 cm
ISBN10: 85-7448-068-1
ISBN13: 978-85-7448-068-8
R$ 30,20

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A Suíça, imagem da organização, estaria com seus fundamentos ameaçados?

Um sofisticado e galanteador andarilho examina o Estado suíço, a começar pela maior cédula de dinheiro em circulação no mundo, a de mil francos suíços, da qual duas notas vêm parar em suas mãos — e apesar de todo seu empenho não consegue usá-las.

Um antigo militante esquerdista não se conforma por não estar fichado nas engrenagens à prova de falhas da polícia helvética. Em certos meios isso não é bem-visto, o que o leva a querer macular sua identidade desagradavelmente limpa.

Suíços constroem enormes diques para represar as águas de quatro grandes rios europeus cujas nascentes estão em seu território, e cujas águas acusam seus vizinhos de roubar. As águas invadem todo o país e a população se refugia nas montanhas enquanto grupos especiais de militares assistem a toda a experiência da calmaria de seus bunkers.

Por seu amor aos pássaros, uma estrangeira solitária é censurada pelos vizinhos, que somem com todo o estoque de ração da cidade para deixá-la sem provimentos para as aves. Como se não bastasse, os condôminos vetam a construção de uma cerca viva de pinheiros, pois ela dificultaria o passatempo nacional da bisbilhotagem.
A bela e ordenada Suíça de repente vira um amontoado de angústias, e alastram-se as situações absurdas. O conteúdo desta narrativa curta elegantemente sarcástica de Bernard Comment extrapola o metafórico. Esse pequeno país, amálgama de perfeições extremadas ao sopé dos Alpes, seria um espelho invertido de nossas manias e neuroses contemporâneas?

 

Trechos

(...) é um espetáculo incrível, esse de observar o passageiro que acabou de perder o trem. De repente, ele não tem nada a que se agarrar, a ordem do dia se desfaz, a seqüência das horas patina, não há mais obrigações imediatas, nem hora marcada, e a cara dele expressa tudo isso ao mesmo tempo. Ficam alguns instantes flutuando, depois as preocupações voltam, primeiras providências, é preciso avisar esse ou aquele, verificar os horários, pensar numa solução opcional ou adiável, descobrir onde passar a noite se não houver mais trens. (“As formigas da estação de Berna”, p.17)

O delegado responsável pelo assunto das fichas não queria me receber, se tivermos que conceder uma audiência individual a todos os decepcionados, ou aos que têm alguma dúvida, nunca chegaremos ao fim de nosso trabalho caro senhor, acredite, não é má vontade de nossa parte. Mas ele teve de confessar que se deixou vencer diante da minha obstinação. A energia do velho militante voltava à tona, eu encontrava espontaneamente as palavras certas, eficazes, e o tom apropriado, aquela forma de acuar o interlocutor em suas últimas retrancas, antes de lhe oferecer a possibilidade de ele mesmo concluir a lógica do que foi debatido, técnica infalível que garante nossa supremacia no discurso. (“O arquivista”, p. 54)

Meu dossiê certamente foi colocado em lugar seguro, com a elite dos “inimigos internos”, ou cuidadosamente destruído porque comprometia muitos informantes, revelava segredos demais. Eu descobri, na época, coisas que hoje eles querem esquecer, e sobre as quais eles não querem correr o risco de conservar nenhum vestígio escrito. Eles querem me apagar. Foi por isso que eles me aceitaram, apesar de tudo, como colaborador voluntário. (“O arquivista”, p. 69)

Mas o que pretendem tão ferozmente preservar nessa concepção geral de sobrevivência fechada? Simplesmente um território, por mínimo que seja, de onde o Estado possa pedir ajuda? Ou, mais gravemente, um espírito suíço? O homo helveticus? Quase perguntei ao capitão, que se tornara ao longo dos dias meu interlocutor predileto, se o dispositivo de clausura incluía jovens sadias capazes de reproduzir a espécie em perigo. (“Caixa d’água”, p. 83)

Thomas se levantou, por volta da uma da manhã, e me pediu para diminuir o volume da música. Ele não conseguia dormir. Mas não é tão apaziguador, a melodia não envolve as fantasias quando é ouvida em volume moderado. Talvez eu nunca tenha suportado a moderação. Contente-se com isso, com aquilo. Não. Ele vai me julgar, ainda mais porque se é verdade que uma certa cumplicidade pode se estabelecer em nossos gostos musicais, o mesmo não acontece em matéria de cinema, e não tenho certeza de poder aceitar por muito tempo os filmes violentos do gênero daquele que ele me impôs ontem à noite. Até que ponto deve-se amar um filho? E se ele se tornar um estrangeiro? (“Migrações”, p. 108)