FOTOGRAFIA E ANTROPOLOGIA
Olhares fora-dentro

Rosane de Andrade

Prefácio de Dra. Carmen Junqueira
Co-edição Estação Liberdade/EDUC
136 p. | 16 x 23 cm
ISBN: 85-7448-067-3
R$ 34,50

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A busca das imagens deixou de ser uma busca de fatos, mas também uma fragmentação desses fatos. Na multiplicidade, elas estão cada vez mais se perdendo. Hoje, não se sabe onde está o original, não se tem mais a proximidade com a realidade, não existe ponto fixo. A realidade é indetectável. As imagens são profecias de uma época e hoje não passam de reflexos em vidros sem ponto de referência.

 

O livro

A fotografia, definida como um sistema de elaboração de realidades, comporta dois processos cruciais, o de construção da imagem fotográfica e o de sua interpretação. A relação do fotógrafo com a realidade tem por moldura a mediação intrínseca de suas crenças, referências e intenções — conhecidas e desconhecidas, conscientes e inconscientes — na construção da imagem, fatores aliás presentes também em toda e qualquer interpretação.

A obra de Rosane de Andrade se concentra no embate sociocultural em que se vê o fotógrafo / pesquisador, como agente e paciente, na criação do documento fotográfico como fonte primária para a antropologia - aludindo especialmente ao trabalho de Pierre Verger.

Na trajetória da fotografia como meio de comunicação existe, desde sua origem, a vertente de auxiliar das ciências. Freqüentemente vista apenas como uma prova ou ilustração — evidência ou duplo da realidade —é mais recente seu valor per se, como forma de pensamento visual e expressão autônoma. Tal situação vem da tradição de predomínio do pensamento verbal e do equívoco quanto à suposta objetividade e neutralidade da imagem fotográfica. Sublinhe-se, entretanto, ser inerente à fotografia o jogo entre veracidade e mendacidade — em particular o risco da estetização — agravado pelo excesso e banalização das imagens, tornado superlativo pela geração e manipulação eletrônicas.

Agregando sua vivência como fotógrafa-antropóloga, recorrendo às próprias imagens, aos exemplos e citações de alguns fotógrafos, entre eles Henri Cartier-Bresson e Duane Michals - alinhavando suas reflexões com o pensamento de autores, tais como Walter Benjamin e Boris Kossoy.

Em síntese, o livro discute o estudo da Fotografia na Antropologia e a pluralidade de questões culturais com que se defronta o fotógrafo-antropólogo; discorre ainda sobre o diálogo "olhar" fora-dentro, em que se reflete a sua dupla / simultânea condição de observador e participante, advogando um equilíbrio segundo a filosofia Zen.

Carlos Fadon
(texto de orelha)

 

Trechos

"(...) o exercício de fotografar ensinou-me a contemplar as coisas do mundo, a reparar no movimento da natureza e na natureza dos movimentos. Aprendi a observar as pequenas coisas dentro de um universo, os detalhes dentro da globalidade." (p. 18)

"Com o olho clínico somos capazes de diagnosticar, com olho de lince vemos longe e, com olhos mágicos, enxergamos através das portas. Isso sem perigo de pegarmos um olho gordo e acabarmos no olho da rua!" (p. 26)

"Em pleno romantismo e em meio a grandes transformações ociais e econômicas, a fotografia já nasce instigante, provocando reações contrárias de artistas e intelectuais. Uma mudança acentuada na sociedade começa a acontecer. Há uma busca compulsiva por fazer-se retratar nos estúdios fotográficos e poder admirar a sua própria imagem (...)" (p. 34)

"Os fotógrafos são por natureza pecadores (Fontcuberta). É preciso sempre tomar muito cuidado com uma câmara. Ela revela e incomoda. Mas irá a fotografia além do que mostra a realidade? Ou além da palavra, ou melhor, do registrado? O ato fotográfico é visionário?" (p. 48)

"A imagem da índia com a pintura sobre a pele, fotografada por Boggiani, revela não só a pintura, mas uma naturalidade ao exibi-la, como é vivenciada. Os símbolos e os desenhos têm para o grupo um valor sentimental, sendo uma manifestação da vida, dos mitos que fazem parte da prática cultural. A foto do índio revela a altivez e a determinação da tribo." (p. 58)

"Toda imagem tem necessariamente um autor; atrás da câmara existe o observador. O antropólogo não é um autor? Ele não trabalha o inesperado e o novo com o mesmo caráter da arte." (p. 69)

"Sua tarefa [Pierre Verger] como etnógrafo e observador foi também a de escrever e anotar todas as suas experiências por exigência do Ifan e de seu amigo Monod. A relação de Verger com a cultura negra aos poucos ultrapassa o interesse intelectual. Mais do que um observador participante, segue os passos de seu amigo e também etnógrafo Roger Bastide; envolve-se no candomblé, em que é aceito e iniciado, passando a exercer funções não mais como um olhar 'para fora', mas como um participar 'por dentro'." (p. 85)