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O fuzil de caça Tradução: Jefferson José Teixeira |
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A obra
No
Japão, o período do pós-guerra trouxe definitivamente à tona toda sorte
de questões que mantiveram caráter de tabu durante tanto tempo, numa
tradição secular de silêncio e discrição. Isso faz com que o enredo de
O fuzil de caça, cujos personagens estão enleados em um caso de amor
extraconjugal, não constitua por si só uma novidade ou um fator de
estranhamento. É também na forma, e não apenas em sua temática, que a
obra se consolida como fundamental no panorama da literatura japonesa
contemporânea.
Lançando mão da tradição do romance epistolar,
convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e
inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas,
endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma
textura trágica à trama.
O jogo de narradores; as cartas como
único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao
leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de
uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a
estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo
como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é
dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha
e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o
isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as
cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.