![]() |
O PAI GORIOT Tradução de Marina Appenzeller |
Compre aqui com nossos parceiros |
| Livraria Cultura | ||
| Submarino | ||
| Saraiva | ||
| Siciliano | ||
| Fnac | ||
O pai Goriot é o quarto livro de uma série dos melhores clássicos dos séculos XVIII e XIX que a Editora Estação Liberdade está publicando. Este é o relançamento de um romance sobre a aprendizagem da vida social na Paris do século XIX.
Sobre O pai Goriot
Em 1834 Balzac escrevia a sua futura esposa: “Uma coisa que você não espera é O pai Goriot, uma obra-prima. A pintura de um sentimento tão grande que nada o esgota, nem os atritos, nem as feridas, nem as injustiças, um homem que é pai como um santo, um mártir e um cristão”. Quanto à “obra-prima”, Balzac está coberto de razão. Quanto à descrição do romance, por outro lado, ele não chega nem perto de mostrar toda a sua abrangência.
O pai Goriot é um verdadeiro cruzamento de intrigas e de personagens. Além do personagem-título descrito por Balzac, deparamo-nos com um universo que abarca desde o submundo do crime — representado por um Vautrin misterioso e tentador —, até os toucadores das damas da alta sociedade. Mas o verdadeiro protagonista da ação é Eugène de Rastignac, jovem estudante provinciano almejando sucesso na sociedade parisiense que acaba de descobrir. Trata-se com efeito de um romance de formação no sentido mais estrito da expressão: a aprendizagem da vida social na Paris do século XIX.
Aqui os personagens são criaturas de grande complexidade que vão acabar por formar a base de sustentação de toda a Comédia humana. Com este romance, Balzac inaugura o procedimento do “retorno de personagens”, pelo qual muitos nomes vão ressurgir em diversos outras obras como figuras centrais ou secundárias (é o caso, por exemplo, de Vautrin que, em As ilusões perdidas, tem um papel fundamental na ruína de Lucien de Rubempré). De forma que O pai Goriot acaba servindo como chave psicológica de obras menos cotadas do autor.
O cerne do romance se encontra, portanto, tanto nos dramas pessoais quanto no jogo das relações humanas, nas disputas pelo poder e na conquista de suas ambições, que se apresentam com uma crueza quase imoral — ao menos para os padrões da época: “Veja, o senhor nada será se não despertar o interesse de uma mulher. Precisará de uma jovem, rica, elegante. Mas, se tiver um sentimento verdadeiro, esconda-o como um tesouro; jamais deixe alguém desconfiar dele, pois estará perdido. Deixaria de ser o carrasco para tornar-se a vítima”, sugere a Rastignac a senhora de Beauséant, sua protetora.
Nesse universo — “esgoto moral de Paris”, como apontaram os críticos de Balzac — a aprendizagem do jovem e ingênuo Rastignac precisa passar por diversas tentações, corrupção e até o assassinato. Balzac, precursor do romance moderno e do realismo, não pretende apenas “fazer poesia”. Seu objetivo é maior, a própria concepção de uma Comédia Humana é a prova: ele busca esmiuçar a sociologia da cidade e as opções oferecidas a jovens como Rastignac na vida mundana. Por isso adverte seus leitores que, “após ler os infortúnios secretos do pai Goriot, [o leitor] jantará com apetite, atribuindo sua própria insensibilidade ao autor, taxando-o de exagerado, acusando-o de poesia. Mas que fique claro: este drama não é ficção nem romance. All is true, e é tão verdadeiro, que todos poderão reconhecer os elementos dentro de si, talvez em seu coração”.
Trechos
“Logo aparece a viúva, ataviada com sua touca de tule da qual escapam os cabelos de uma peruca mal colocada [...]. Seu rosto velhote, gorducho, do meio do qual sai um nariz de papagaio, suas mãozinhas rechonchudas, sua pessoa roliça como um rato de igreja, seu corpete cheio demais e flutuando, combinam com a sala que recende a desventura, onde a especulação se insinuou e cujo ar quente e fétido a senhora Vauquer respira sem ficar enojada. [...]Enfim, toda a sua figura explica a pensão, como a pensão implica sua figura.”
“Após sacudir os galhos da árvore genealógica, a velha senhora concluiu que, de todas as pessoas que poderiam ajudar seu sobrinho, dentre a raça egoísta dos parentes ricos, a senhora viscondessa de Beauséant seria a menos recalcitrante. Escreveu à jovem dama uma carta no estilo antigo e entregou-a a Eugène, dizendo-lhe que, se fosse bem-sucedido junto à viscondessa, ela poderia auxiliá-lo a encontrar-se com os outros parentes. Poucos dias depois de chegar, Rastignac enviou a carta da tia à senhora de Beauséant. A viscondessa respondeu com um convite para um baile no dia seguinte.”
“Ser jovem, ter sede de alta sociedade, estar faminto por uma mulher e ver duas casas abrirem-se para ele! Colocar os pés no faubourg Saint-Germain ao ir à casa da viscondessa de Beauséant, os joelhos na Chaussée-d’Antin ao ser convidado para a casa da condessa de Restaud! Num relance mergulhar de enfiada nos salões de Paris, e acreditar-se bonito o bastante para ali encontrar ajuda e proteção de um coração de mulher! Sentir-se ambicioso o suficiente para dar um magnífico pontapé na corda bamba sobre a qual é preciso caminhar com a segurança de um saltimbanco que não vai cair, e encontrar em uma mulher encantadora a melhor das varas de equilibrista!”