O ÚLTIMO DIA DE UM CONDENADO
Victor Hugo

Tradução de Joana Canêdo
200 p, 14 x 21 cm
ISBN 85-7448-066-5
R$ 31,50

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Anexos
- "Vida e obra de Victor Hugo"
- Reprodução de manuscrito do próprio Victor Hugo
- Prefácio de 1829 (uma peça de teatro)
- Prefácio de 1832 (um verdadeiro manifesto contra a pena de morte)

Em um romance de surpreendente modernidade, o grande escritor do romantismo se joga de corpo e alma contra a pena de morte. Composta de um texto principal — o diário dos últimos dias da vida de um condenado —, de uma peça na qual personagens inventados por Victor Hugo criticam ferozmente a obra (prefácio à edição de 1829) e de um longo panfleto em defesa da causa (prefácio de 1932), esta edição vem contribuir para um debate em torno de uma discussão que alguns ainda tentam reviver no Brasil.

Redigida em primeira pessoa, sentimos como um soco no estômago a voz de alguém que compartilha nossa existência por um tempo determinado. Logo sua cabeça será ceifada pela famosa engenhoca do doutor Guillotin e irá rolar para o cesto que as apara após a decapitação. Num ambiente de trevas, assistimos na própria descrição do condenado hora a hora aos preparativos de sua morte, à sorte de seus companheiros mais felizardos dos trabalhos forçados, à derradeira visita de sua filha que não o reconhece e o afasta (“o senhor me machuca com essa barba”), ao despojamento de seus últimos pertences para companheiros de “fortuna”, etc.

Escrita em menos de três meses sob influência de uma execução em Paris à qual Victor Hugo assistiu em 1825, esta obra logo foi coroada de sucesso, para o qual contribuíram suas características inusitadas, como por exemplo: começa com a frase lapidar da declaração da sentença “Condenado à morte” e termina com “Quatro horas”, horário da execução, ou ainda um ácido humor negro. Como aponta o ex-ministro francês da Justiça Robert Badinter, abolidor da pena de morte na França em 1981, longos 156 anos após a publicação do Condenado, no livro-catálogo publicado por ocasião da grande exposição Victor Hugo na Biblioteca Nacional da França deste ano: “Esse relato é de uma modernidade surpreendente e já prenuncia bom número de obras contemporâneas, teatro de Samuel Beckett, ou romance de Alexandre Soljenitsin, particularmente com Um dia na vida de Ivan Denissovitch.”

 

O livro

Victor Hugo assumiu um lugar excepcional na história da literatura ocidental, dominando todo o século XIX graças ao gênio e à diversidade de sua obra. Autor de poesia lírica, satírica e épica, romances, dramaturgia em prosa e em versos, destacam-se entre suas obras Os miseráveis e Os trabalhadores do mar. Foi em seu tempo importante homem público e ardente defensor de causas sociais. A criação dos Estados Unidos da Europa, a luta contra a miséria e pela educação universal fizeram parte de seus principais combates.

Porém, o primeiro de todos — o mais longo, o mais constante, o mais apaixonado — foi sem dúvida o que conduziu contra a pena de morte, que chamava de “assassinato judicial”.

Em O último dia de um condenado, o poeta engaja toda a sua eloqüência a serviço da causa, demonstrando a injustiça, a ineficácia da pena, a barbárie e os horrores da execução e de suas conseqüências: “esse homem tem uma família; e então acham que o golpe com o qual o degolam fere apenas a ele? Seu pai, sua mãe, seus filhos não sangrarão também? Não? Matando-o, os senhores decapitam toda a família” (no “Prefácio de 1832”).

Ao mesmo tempo em que apresenta técnicas narrativas extremamente avançadas para a época, Victor Hugo nos faz acompanhar as seis últimas semanas de um condenado à morte, desde o tribunal onde foi declarada a sentença capital até o pé do cadafalso. A polêmica que a obra causou na época — pois essa introspecção à beira da morte e o sentimento de atrocidade que a acompanha não podiam deixar insensíveis os contemporâneos de Hugo — permitiu a renovação de edições (três no ano do lançamento) e o acréscimo de dois prefácios, que trazemos nesta edição.

No ano de 1829, com uma paródia em forma de peça de teatro, Victor Hugo rebate as primeiras críticas à obra. Mas em 1832, o requisitório racional e argumentativo pela abolição da pena de morte é o complemento perfeito à defesa literária e sentimental de seu romance-manifesto. Ingênuo algumas vezes em seu papel de reformador social, Victor Hugo é no entanto um magistral e eloqüente porta-voz da condição humana e de seus direitos.

 

Trechos

“O SENHOR MAGRO: Agora querem abolir a pena de morte, e para isso fazem romances cruéis, imorais e de mau gosto. O último dia de um condenado, e eu com isso?
O SENHOR GORDO: Vamos, meu caro, não falemos mais desse livro atroz. E, já que nos encontramos, diga-me, o que conta fazer a propósito desse homem de quem rejeitamos o recurso há três semanas?
O SENHOR MAGRO: Ah! Um pouco de paciência! Estou de folga aqui. Deixe-me respirar. Verei quando voltar. Se no entanto demorar muito, escreverei a meu substituto...”
(p. 27, “Prefácio de 1829”, de Victor Hugo)

“Condenado à morte!
Já se vão cinco semanas que convivo com tal pensamento, sempre só com ele, sempre petrificado por sua presença, sempre encurvado sob seu peso!
Outrora, pois me parece que faz anos e não semanas, eu era um homem como outro qualquer. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha sua idéia. Meu espírito, jovem e rico, era repleto de fantasias.” (p. 31)

“Sim, a morte! E, aliás, repetia-me não sei que voz interior, o que arrisco dizendo isso? Nenhuma sentença de morte foi jamais pronunciada em circunstância outra que à meia-noite, sob a luz de tochas, em uma sala escura e negra, numa noite chuvosa e fria de inverno! Mas no mês de agosto, às oito horas da manhã, num dia tão bonito, esses bons jurados, impossível! E meus olhos voltavam a se fixar na delicada flor amarela banhada de sol.” (p. 37)

“E depois, o que escreverei assim talvez não seja inútil. O diário de meus sofrimentos, hora a hora, minuto a minuto, suplício a suplício, se eu tiver a força de conduzi-lo até o momento em que será fisicamente impossível continuar, esta história necessariamente inacabada, mas tão completa quanto possível, de minhas sensações, não carregará consigo um grande e profundo ensinamento?” (p. 46)

“Enquanto escrevia tudo isso, a luz da lamparina empalideceu, o dia chegou, o relógio da capela soou seis horas.
O que isso significa? O carcereiro de turno acaba de entrar na minha cela, tirou seu chapéu, saudou-me, pediu desculpas por me perturbar e perguntou-me, suavizando o quanto pôde a sua rude voz, o que eu desejava almoçar... Um calafrio correu meu corpo. Vai ser hoje?” (p. 80)

“Pobrezinha! Teu pai que te amava tanto, teu pai que beijava teu pescocinho branco e perfumado, que passava sem parar as mãos nos cachos dos teus cabelos como sobre uma seda, que pegava teu lindo rostinho redondo nas mãos, que te balançava nos joelhos e, de noite, unia tuas duas mãozinhas para rezar a Deus!
Quem te fará tudo isso agora?” (p. 103)

“Ora! Vamos, coragem diante da morte, tomemos esta terrível idéia com as duas mãos e consideremo-la de frente. Perguntemos a ela o que ela é, saibamos o que ela quer conosco, esmiucemo-la por todos os lados, perscrutemos o enigma e olhemos antecipadamente para dentro do túmulo.” (p. 131)

“Há duas maneiras de se considerar a existência deste livro. Ou realmente existiu um maço de papéis amarelados e desiguais nos quais se encontravam registrados, um a um, os últimos pensamentos de um miserável; ou houve um homem, um sonhador ocupado em observar a natureza em proveito da arte, um filósofo, um poeta — quem sabe? —, para quem tal idéia foi a fantasia que o tomou, ou melhor, deixou-se tomar por ela, e não pôde dela se desembaraçar senão lançando-a num livro.”
(p. 159, Prefácio de 1832, de Victor Hugo)