PEQUENO MANUAL DE INESTÉTICA
Alain Badiou

Tradução de Marina Appenzeller
192 p, 14 x 21 cm
ISBN 85-7448-069-X
R$ 32,50

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É possível um novo modelo para a relação entre a arte e a filosofia?

Didatismo, romantismo e classicismo são os esquemas possíveis do entrelaçamento entre arte e filosofia, sendo o terceiro termo a educação dos sujeitos.
Ora, o que a meu ver caracteriza o século recém-terminado é que, embora tenha experimentado a saturação desses três esquemas, não introduziu um novo. O que tende a produzir hoje uma espécie de desenlaçamento dos termos, um des-relacionamento desesperado entre arte e filosofia, e a queda pura e simples daquilo que circulava entre elas: o tema educativo.
Daí decorre a tese em torno da qual esta pequena obra não passa de uma série de variações: à vista de tal situação de saturação e fechamento, deve-se tentar propor um novo esquema, um quarto modo de entrelaçamento entre filosofia e arte.

 

Do texto de orelha, de Nicolau Sevcenko

Num célebre juízo categórico, formulado em A República, Platão firmou um estatuto que definiria o destino da cultura ocidental. “A cidade, cujo princípio acabamos de estabelecer, é a melhor, sobretudo em virtude das medidas tomadas contra a poesia.” Essa disposição antipoética singulariza a obra do grande pensador grego e toda a imensa herança que dele recebemos, justamente porque ela destoava do consenso dentre seus concidadãos. A convicção vigente exaltava o impulso lírico, conforme preconizava o poeta Simônides, ressaltando que “para um homem, a parte crucial da educação é ser competente em matéria de poesia.”

Neste livro lúcido e preciso, o filósofo Alain Badiou entrecruza as duas vertentes do seu talento para retomar e confrontar essa questão seminal. Sua proposta ao mesmo tempo ousada e original, de uma “inestética” atua em duas dimensões críticas. De um lado denuncia o aporte filosófico que paralisa a arte na rigidez estéril dos conceitos, de outro resgata ao impulso lírico a vertigem do contingente, do imponderável e da fluidez. Inspirado na poética de Fernando Pessoa, mas também em Beckett, ele busca alternativas entre Platão e o anti-Platão, na senda de “uma verdadeira filosofia do múltiplo, do vazio, do infinito”, capaz de fazer “justiça a esse mundo que os deuses abandonaram para sempre”.

 

Trechos

Essa idéia é capital: o poema não é nem uma descrição, nem uma expressão. Tampouco é uma pintura comovida da extensão do mundo. O poema é uma operação. O poema nos ensina que o mundo não se apresenta como uma coleção de objetos. O mundo não é aquilo que coloca objeção ao pensamento. É — para as operações do poema — aquilo cuja presença é mais essencial que a objetividade. (p. 44)

Os próprios marxistas ortodoxos não nutriam nenhuma estima por Platão, tratado indulgentemente pelo dicionário da Academia das Ciências da finada URSS como ideólogo dos proprietários de escravos. Para eles, Platão encontrava-se na origem da tendência idealista na filosofia, e preferiam de longe Aristóteles, mais sensível à experiência, mais propenso ao exame pragmático das sociedades políticas. (p. 55)

(...) Se Fernando Pessoa representa, para a filosofia, um desafio singular, se sua modernidade ainda está mais à nossa frente, e, sob certos aspectos, ainda se encontra inexplorada, isso ocorre porque seu pensamento-poema abre um caminho que consegue não ser nem platônico, nem antiplatônico. Pessoa define poeticamente, sem que até hoje a filosofia lhe tenha dado o devido valor, um local de pensamento propriamente subtraído da palavra de ordem unânime da derrubada do platonismo. (p. 56)

A energia disjuntiva da qual a sexuação é o código é colocada a serviço de uma metáfora do acontecimento como tal, ou seja, o fato de todo o ser conter-se no desaparecer. Isso porque a onipresença da diferença dos sexos se apaga ou se suprime, não sendo a finalidade representativa da dança, mas uma abstração formal de energia cujo traçado convoca no espaço a força criadora do desaparecimento. (p. 89)

(...) O que é um espectador de dança? Mallarmé responde a essa questão de maneira particularmente exigente. Pois da mesma maneira que o dançarino, que é símbolo, jamais é alguém, o espectador de dança deve ser rigorosamente impessoal. O espectador de dança não pode de maneira alguma ser a singularidade daquele que assiste. (p. 91)

Há uma primeira maneira de falar (...) que é dizer “Gostei” ou “Não me entusiasmou”. Essas frases são indistintas, pois a regra do “agradar” deixa sua norma escondida. Com relação a qual expectativa recai o juízo? Um romance policial pode também agradar ou não, ser bom ou ruim. Essas distinções não tornam o romance policial em questão uma obra-prima da arte literária. Designam mais a qualidade, a cor do breve tempo passado em sua companhia. (p. 109)

Então, de onde vem a coragem? Para Beckett, a coragem vem do fato de as palavras terem tendência a soar verdadeiras. Uma tensão extrema, que talvez seja a vocação de Beckett escritor, resulta de a coragem prender-se a uma qualidade das palavras que é contrária a seu emprego no piorar. Existe como uma aura de adequação nas palavras que, paradoxalmente, é aquilo em que tomamos coragem para romper com a própria adequação, ou seja, para manter o rumo ao pior. (p. 139)