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INVERSOS TEMPOS
78 pp., 14 x 21 cm |
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Os poemas de Celso Mauro Paciornik são construções refinadas, sofisticadas e incisivas mesmo. De uma musicalidade toda própria — com freqüência cortante, às vezes mais esparramada — em que ele põe à luz profundezas de mundos internos e percepções de um arguto observador do mundo externo. Observador que passeia pelos tempos intensos de sua existência e pode vê-los com ironia, humor, prazer, dor. Raramente condescendência. E indignação, indignação suprema com o que não pode mover menos do que isso, que ele expõe ao nosso olhar, por exemplo, no pelo poema "Sagrada Intolerância":
Que importa
que um coração se tenha enchido de ódio
ante a podrificação inexorável dos sentidos
e dos sentimentos?
O ódio é meu e aos outros.
De condescendência basta
este afável cotidiano de concórdias
mesuras, penas e silêncios
Frente à frente aqui
a este espelho branco de papel pautado
serei a minha imagem em tinta
em letras toscas e palavras brasas
que meu peito está em chamas
e meus olhos clamam
uma erupção de lágrimas amargas.
Nesses tempos de monumental burrismo
em que a sabedoria se reserva
aos adoradores de si mesmos
em que a memória de fatos e de feitos
se registra ao gosto de elegantes
corruptores rufiões do esforço alheio
em que o verbo se despoja de explosão e incêndio
e se presta tão somente à farsa açucarada
e à venda viciosa de mesmices
em que a tortura é feita leia e salva-pátria
e se financia a carrascória via impostos
e declarações de decorosa indignação
eu declaro
em desvario de sagrada intolerância
Quero ver pender
da estátua caolha e brega da Justiça
a chusma toda algoz de traficantes
de verbos, vidas, vontades e verdade
que reinventa o mundo à sua poder imagem
e semelhança
e das próprias fezes se envergonha
a ponto
de não sentir seu cheiro