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JÚLIO CÉSAR Tradução: Antonio da Silveira Mendonça |
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Uma excepcional biografia de César por um dos maiores pesquisadores italianos de História Antiga.
César cometeu alguns dos maiores massacres de que a história tem notícia. Tinha um desprezo total pela vida humana ou considerava que aquele era o tributo a pagar por um objetivo ao qual tudo deveria subordinar-se? Mas qual objetivo? Desembarcou na Britânia atraído por fabulosos tesouros que atiçavam sua cobiça ou para executar um já vasto e estruturado projeto de romanização do Ocidente? Impôs-se a conquista da Gália ou pretendia na verdade reunir exércitos em vista de um esperado acerto de contas com seus rivais em Roma? Foi um hábil e afortunado caudilho ou um “fator histórico”? Ou seriam as duas coisas indissociáveis?
Narrar a vida de César significa navegar em meio a estes conflitos. Narrar esta vida única e inimitável, que termina com o mais famosos assassinato da história, significa também portanto escolher: escolher a cada passo entre as vozes amarguradas e discordantes de uma tradição vasta e facciosa, que o próprio protagonista buscou influenciar. Assim as vicissitudes de um homem se tornam metáfora da escrita e história dos riscos que tomou.
Trechos
“Aproveitando-se de uma farta documentação escrita, incomparavelmente
abundante em termos de História Antiga, Canfora procura reconstruir com
minúcia os passos da carreira de César, sem deixar o desfecho
futuro misturar-se a sua interpretação. Explora as opções
que foram se apresentando, as alternativas possíveis, as tentativas fracassadas,
os tateamentos, as hesitações, as encruzilhadas nas quais César
teve de decidir-se por um caminho, traçá-lo sem saber o que aconteceria,
arriscar, podendo perder, como no fim perdeu.”
(p. 16, do prefácio de Norberto Luiz Guarinello)
“A todo momento, sobretudo nos decisivos, a ação política
e militar de César esteve exposta aos desfechos mais divergentes. De
acordo com as circunstâncias, ele arriscou perder tudo, especialmente
no decorrer do conflito interminável que se encerrou com sua morte violenta.
Ao fim naufragou na ação mais espetacular, embora não de
todo imprevista: a conjuração de seus próprios companheiros.
E, no entanto, manteve um prestígio póstumo inexaurível
e uma força de sugestão de longuíssima duração
que faz dele um arquétipo até no nome.”
(p. 20)
“É através dessa documentação insidiosa que
irá enveredar a nossa narração. César galvanizou
seus historiadores à distância de milênios. Levou inteligências
lúcidas e de grande experiência a falar dele como do inefável.
“Nisto está a dificuldade, poder-se-ia até dizer a impossibilidade,
de proceder a uma descrição exata de César”, disse
a respeito dele Theodor Mommsen. “Como o pintor pode tudo pintar, exceto
a beleza perfeita, da mesma forma o historiador, que só a cada mil anos
encontra uma perfeição, não pode senão calar-se.
Esse tipo de comportamento extasiado é nocivo ao historiador. Mas não
deixa de ser significativo que um dos maiores historiadores do século
XIX se tenha deixado levar por um tal grau de fascínio pelo seu personagem.
Isso é o que torna para nós, pósteros, mais árdua
a tarefa.”
(pp. 26-27)
“A figura de César, no dealbar da juventude, nos aparece como
a de um homem caçado, mas irredutível, ferozmente empenhado na
defesa da honra do partido “popular”, derrotado. Contra ele se desencadeia
a hostilidade do ditador Sila, que gostaria de eliminar esse sobrinho de Caio
Mário, mas também rebento de uma das mais antigas famílias
patrícias, a gens Júlia, que se gabava de uma descendência
mítica de Iulo, filho de Enéias. A sanha contra o tão jovem
filho de Caio Júlio César [...] não iria ser totalmente
indolor. Sila preferiu tentar humilhá-lo, entre outras coisas procurando
forçá-lo a repudiar sua mulher, Cornélia, por sua vez filha
de Cina, o outro líder “popular”, derrotado por ele quando
da marcha sobre Roma."
(p. 31)
“A lenda pouco a pouco se consolidou e se concentrou sobre o estilo de
César como comandante militar, não mais como mero chefe de facção
em Roma. É uma lenda provavelmente baseada em fatos não fantasiosos.
Ela concerne a muitos aspectos: sua resistência física, sua camaradagem,
sua capacidade de se nivelar na dureza quotidiana da vida militar. Um dos aristocratas
mais refinados e cultos, capaz de apreciar as comodidades dos privilegiados,
se submete com agilidade e obstinação à mais áspera
e perigosa das disciplinas: alimentação frugal, ou até,
como observa Plutarco, “indiferença total à alimentação”,
pouco sono, satisfeito nas condições menos agradáveis,
por exemplo, quando transportado em carros, capacidade inaudita de deslocamento
com relação aos meios disponíveis (célebre a viagem
de Roma ao Ródano em apenas oito dias), e ao mesmo tempo lucidez e criatividade
até nas mais incômodas condições materiais: ditar
cartas cavalgando, manter ocupados contemporaneamente dois ou mais copistas.”
(pp. 126-127)
“César costumava dizer que ‘sua sobrevivência não
era de seu interesse pessoal, ao contrário, interessava sobretudo à
república, pois ele havia há tempo granjeado poder e glória
em abundância, mas, se algo viesse a acontecer a sua pessoa, a república
se precipitaria em guerras civis muito mais graves que as precedentes’
”.
(pp. 363-364)
Na imprensa italiana
“César está morto: é o mais famoso assassinato da
história. Como em todo homicídio, há uma questão
que deve ser esclarecida – por quê? Luciano Canfora reabre o caso
com uma biografia, que apesar de basear-se meticulosamente em fontes históricas,
lê-se como um romance. Canfora é um historiador com um verdadeiro
talento para a intriga.”
Maurizio Bettini, La Repubblica
“Uma inteligência ágil e profunda brilha através
deste livro. Ler as deduções de Canfora é como ver um Auguste
Dupin ou um Hercule Poirot da historiografia em ação.”
Giovanni Mariotti, Corrieri della Sera
“Este sólido livro de Luciano Cânfora,
destemido helenista e investigador sutil e inteligente de mistérios históricos,
é a melhor contribuição para a pesquisa do primeiro século
antes de Cristo, o mais conturbado da história romana. O livro, de leitura
fascinante, é muitas coisas de uma só vez: uma extraordinária
e viva biografia, uma investigação política e um exemplo
de introspecção psicológica. Um trabalho de valor excepcional
sobre um colosso que foi destruído por uns poucos ‘homenzinhos’.”
Liça Canali, Il Giornale