A LEITURA E SEUS LUGARES
Júlio Pimentel Pinto

184 p. | 14 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-094-0
ISBN-13: 978-85-7448-094-7
R$ 31,50

 Compre aqui com nossos parceiros
 Livraria Cultura
 Submarino
 Saraiva
 Siciliano
 Fnac
 

 

A obra

Esta obra de crítica literária, composta de doze ensaios e dividida em quatro blocos (“Leituras e críticas”, “Leituras da história”, “Leituras de Borges” e “Três outras leituras: Proust, Bioy Casares e Camilleri”), convida o leitor a uma viagem pelo universo das leituras e releituras, explicitando seu lugar como fonte de instalação de crítica e criação de condição para a existência da história. Nesse percurso, o viajante-leitor depara-se com múltiplas paisagens literárias e históricas, entre elas, Proust, Camilleri, Bioy Casares, Borges, Botticelli, bibliotecas e América Latina, sendo levado a reconhecer o lugar que essas leituras exercem e a refletir sobre a cultura ocidental, o Tempo e as temporalidades, as permanências e as mudanças, o novo e o tradicional.

Como diz o autor, em sua apresentação, o livro tem como objetivo “convidar a boas leituras num tempo em que pouco se lê e, inúmeras vezes, se lê mal ou se lêem coisas ruins.”

Entre os escritores analisados, há destaque para Jorge Luis Borges. A literatura do escritor argentino é objeto de estudo de Júlio Pimentel Pinto há mais de dez anos e serviu de fonte para algumas questões abordadas no livro, como leituras, crítica e historicidade.

* * * * *

Estudiosos culturais, durante décadas, nos garantiram que não existe história, apenas interpretações, e que não existe autor, apenas leituras. Tudo seria relativo; tudo seria discurso, jogo, máscara; tudo seriam artifícios. Esse pós-modernismo foi criticado de muitas formas, mas, em geral, predominou a conservadora, que sonha com uma certeza histórica e uma unidade autoral que não fazem parte da modernidade e, de fato, já nem se aplicariam aos clássicos. Júlio Pimentel Pinto, uma das melhores vocações surgidas no ensaísmo brasileiro, tem o mérito de não se deixar prender por tal polarização. Sabe que a literatura é feita de traduções e deslocamentos, mas sabe também que é possível criar campos de diálogo, critérios de avaliação, escalas de qualidade. Não quer o relativismo que cede a um novo absolutismo – ao absolutismo das diferenças – e ao mesmo tempo conhece intimamente as armadilhas da representação, as incertezas da linguagem, os canais que afluem do grande canal autor-leitor.

“Todo livro supõe uma história de suas leituras”, escreve ele num destes ensaios, e nestes ensaios ele mostra as semelhanças e diferenças entre as diversas leituras feitas de Borges, Proust, Bioy Casares, Camilleri e outros, revelando sua própria leitura, tão mais rica porque resultante do diálogo com as outras. Mostra, por exemplo, o lugar da cidade em Borges, nas brechas entre a nostalgia e a construção, entre o passado e o novo, entre o leitor e o criador. Descreve a grandeza e o fracasso da memória em Proust, sua oscilação constante entre um centro agregador e seus bairros divergentes. Persegue a densidade nas tramas aparentemente policiais, mirando a lupa no hiato entre o que se conhece e o que se imagina, entre o que se toca e o que se joga. Júlio Pimentel Pinto não está num labirinto de espelhos, onde os críticos não raro se encantam por suas próprias imagens, mas tampouco é um guia para a nossa saída. É, como os melhores críticos, um companheiro de viagem, que atiça o leitor para a liberdade.

Texto de orelha de Daniel Piza

Trecho

“Ler para lembrar, lembrar para escrever; este é o percurso completo que a biblioteca indica ao projetar o conhecimento de um tempo no futuro e garantir sua persistência nos livros depositados, nas muitas leituras e reescrituras que se fazem dele. E a memória torna-se o eixo em que gira a idéia circular que engendrou o nascimento das bibliotecas: lugar de memória coletiva pela disposição de acumular livros já escritos para legá-los ao futuro, lugar de exercitação de memória individual para que os livros existentes multipliquem-se e projetem sua sombra para muitos outros séculos, gerando outros livros, que serão incorporados à mesma biblioteca...” (pág. 35)

“Nem toda herança, porém, é recebida sem contestação. E é a leitura que abre o espaço da subversão. Ela desmonta a unicidade desse tempo único e revela, pela variedade, a possibilidade de contínua reconstrução do passado: no lugar de Tempo, temporalidades; no lugar de um passado, infinitos passados. A leitura instala o lugar da crítica e cria condição para a existência da história, a volúvel história, com seus caprichos e oscilações de interpretação, com sua vocação crítica.” (pág. 36)

“Alexandria está, talvez irreversivelmente, distante. Sua lição e seu princípio tornaram-se inviáveis. A possibilidade de um acervo completo do que foi escrito se perdeu. Mesmo sua fixação em outro padrão de biblioteca, imaginária, provoca, no mínimo, polêmica e discordâncias que podem seguir até o infinito dos tempos. Mas aquilo que Alexandria projetou em seu negativo, no paradoxo em que se transformou, segue vivo: a diversidade de leituras, a possibilidade do esquecimento. Alexandria revive a cada momento em que nos defrontamos com um texto e com seu passado de leituras, algumas compreensíveis, outras exóticas aos olhos do leitor presente. Resta identificá-las e historizá-las.” (pág. 42-3)

“Ao lermos, incorporamos o texto a nosso acervo memorial e (re)estabelecemos as ligações internas desse repertório. O movimento é de reeleição de afinidades literárias: inventamos vínculos, fundamos tradições, enxergamos continuidades ou cortes. É assim que podemos identificar, Borges já nos lembrou, tantos precursores de Kafka ou descobrir toda uma tradição proustiana que desembocou na obra do francês. O problema é quando, estabelecidas as afinidades, passamos a acreditar que elas sejam inevitáveis, esquecendo que são resultado circunstancial de leituras específicas, situadas num espaço e num tempo.” (pág. 55)

“Afinal, toda leitura é definitiva, toda leitura é provisória. Aquilo que lemos — e como lemos — ficará inevitavelmente marcado. Mas pode ser revisado com facilidade. Basta, para isso, uma nova leitura. Daí a leitura ser tão interessante e o lugar do leitor, privilegiado.” (pág. 59)

“É um fato óbvio, mas muitas vezes esquecido, que todo livro supõe uma história de suas leituras. Valida-se, assim, a idéia de narrativa que se (re)constitui no ato de interpretação, a partir de leituras cruzadas, do engendramento de muitas perspectivas e histórias — sempre no plural e na determinação do diverso —, que indicam a importância não apenas do resultado final, do conteúdo conjectural de uma interpretação, mas sim de seu engenho, do trabalho em si de tessitura da narrativa literária.” (pág. 160)




Os lugares da crítica
Manuel da Costa Pinto, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 26/6/2004

Um ensaio sobre a leitura
Giovanna Bartucci, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 3/10/2004