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A LEITURA E SEUS
LUGARES 184 p. | 14 x 21 cm |
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A obra
Esta obra de crítica literária, composta de doze ensaios e dividida em quatro blocos (“Leituras e críticas”, “Leituras da história”, “Leituras de Borges” e “Três outras leituras: Proust, Bioy Casares e Camilleri”), convida o leitor a uma viagem pelo universo das leituras e releituras, explicitando seu lugar como fonte de instalação de crítica e criação de condição para a existência da história. Nesse percurso, o viajante-leitor depara-se com múltiplas paisagens literárias e históricas, entre elas, Proust, Camilleri, Bioy Casares, Borges, Botticelli, bibliotecas e América Latina, sendo levado a reconhecer o lugar que essas leituras exercem e a refletir sobre a cultura ocidental, o Tempo e as temporalidades, as permanências e as mudanças, o novo e o tradicional.
Como diz o autor, em sua apresentação, o livro tem como objetivo “convidar a boas leituras num tempo em que pouco se lê e, inúmeras vezes, se lê mal ou se lêem coisas ruins.”
Entre os escritores analisados, há destaque para Jorge Luis Borges. A literatura do escritor argentino é objeto de estudo de Júlio Pimentel Pinto há mais de dez anos e serviu de fonte para algumas questões abordadas no livro, como leituras, crítica e historicidade.
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Estudiosos culturais, durante décadas, nos garantiram que não existe história, apenas interpretações, e que não existe autor, apenas leituras. Tudo seria relativo; tudo seria discurso, jogo, máscara; tudo seriam artifícios. Esse pós-modernismo foi criticado de muitas formas, mas, em geral, predominou a conservadora, que sonha com uma certeza histórica e uma unidade autoral que não fazem parte da modernidade e, de fato, já nem se aplicariam aos clássicos. Júlio Pimentel Pinto, uma das melhores vocações surgidas no ensaísmo brasileiro, tem o mérito de não se deixar prender por tal polarização. Sabe que a literatura é feita de traduções e deslocamentos, mas sabe também que é possível criar campos de diálogo, critérios de avaliação, escalas de qualidade. Não quer o relativismo que cede a um novo absolutismo – ao absolutismo das diferenças – e ao mesmo tempo conhece intimamente as armadilhas da representação, as incertezas da linguagem, os canais que afluem do grande canal autor-leitor.
“Todo livro supõe uma história de suas leituras”, escreve ele num destes ensaios, e nestes ensaios ele mostra as semelhanças e diferenças entre as diversas leituras feitas de Borges, Proust, Bioy Casares, Camilleri e outros, revelando sua própria leitura, tão mais rica porque resultante do diálogo com as outras. Mostra, por exemplo, o lugar da cidade em Borges, nas brechas entre a nostalgia e a construção, entre o passado e o novo, entre o leitor e o criador. Descreve a grandeza e o fracasso da memória em Proust, sua oscilação constante entre um centro agregador e seus bairros divergentes. Persegue a densidade nas tramas aparentemente policiais, mirando a lupa no hiato entre o que se conhece e o que se imagina, entre o que se toca e o que se joga. Júlio Pimentel Pinto não está num labirinto de espelhos, onde os críticos não raro se encantam por suas próprias imagens, mas tampouco é um guia para a nossa saída. É, como os melhores críticos, um companheiro de viagem, que atiça o leitor para a liberdade.
Texto de orelha de Daniel Piza
Trecho
“Ler para lembrar, lembrar para escrever; este é o percurso completo que a biblioteca indica ao projetar o conhecimento de um tempo no futuro e garantir sua persistência nos livros depositados, nas muitas leituras e reescrituras que se fazem dele. E a memória torna-se o eixo em que gira a idéia circular que engendrou o nascimento das bibliotecas: lugar de memória coletiva pela disposição de acumular livros já escritos para legá-los ao futuro, lugar de exercitação de memória individual para que os livros existentes multipliquem-se e projetem sua sombra para muitos outros séculos, gerando outros livros, que serão incorporados à mesma biblioteca...” (pág. 35)
“Nem toda herança, porém, é recebida sem contestação. E é a leitura que abre o espaço da subversão. Ela desmonta a unicidade desse tempo único e revela, pela variedade, a possibilidade de contínua reconstrução do passado: no lugar de Tempo, temporalidades; no lugar de um passado, infinitos passados. A leitura instala o lugar da crítica e cria condição para a existência da história, a volúvel história, com seus caprichos e oscilações de interpretação, com sua vocação crítica.” (pág. 36)
“Alexandria está, talvez irreversivelmente, distante. Sua lição e seu princípio tornaram-se inviáveis. A possibilidade de um acervo completo do que foi escrito se perdeu. Mesmo sua fixação em outro padrão de biblioteca, imaginária, provoca, no mínimo, polêmica e discordâncias que podem seguir até o infinito dos tempos. Mas aquilo que Alexandria projetou em seu negativo, no paradoxo em que se transformou, segue vivo: a diversidade de leituras, a possibilidade do esquecimento. Alexandria revive a cada momento em que nos defrontamos com um texto e com seu passado de leituras, algumas compreensíveis, outras exóticas aos olhos do leitor presente. Resta identificá-las e historizá-las.” (pág. 42-3)
“Ao lermos, incorporamos o texto a nosso acervo memorial e (re)estabelecemos as ligações internas desse repertório. O movimento é de reeleição de afinidades literárias: inventamos vínculos, fundamos tradições, enxergamos continuidades ou cortes. É assim que podemos identificar, Borges já nos lembrou, tantos precursores de Kafka ou descobrir toda uma tradição proustiana que desembocou na obra do francês. O problema é quando, estabelecidas as afinidades, passamos a acreditar que elas sejam inevitáveis, esquecendo que são resultado circunstancial de leituras específicas, situadas num espaço e num tempo.” (pág. 55)
“Afinal, toda leitura é definitiva, toda leitura é provisória. Aquilo que lemos — e como lemos — ficará inevitavelmente marcado. Mas pode ser revisado com facilidade. Basta, para isso, uma nova leitura. Daí a leitura ser tão interessante e o lugar do leitor, privilegiado.” (pág. 59)
“É um fato óbvio, mas muitas vezes esquecido, que todo livro supõe uma história de suas leituras. Valida-se, assim, a idéia de narrativa que se (re)constitui no ato de interpretação, a partir de leituras cruzadas, do engendramento de muitas perspectivas e histórias — sempre no plural e na determinação do diverso —, que indicam a importância não apenas do resultado final, do conteúdo conjectural de uma interpretação, mas sim de seu engenho, do trabalho em si de tessitura da narrativa literária.” (pág. 160)
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Os lugares
da crítica Um ensaio sobre a leitura |