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CARTAS DE UMA IMPERATRIZ |
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A obra
Em 1817, a jovem Leopoldina,
descendente dos Habsburgos, uma das mais importantes famílias da nobreza
européia, desembarcava no Rio de Janeiro, onde lhe esperava o seu marido, D.
Pedro, com quem ela havia se casado por procuração, ainda em Viena, na Áustria.
Era o primeiro encontro dos dois. A jovem, cheia de sonhos, criada na mais
completa lealdade aos ideais absolutistas, sabia que, além do amor que já
sentia pelo jovem português, teria uma missão a cumprir naquela terra nova, sem
o glamour das cortes da Europa. “Meu destino é o Brasil, e
cumprirei com prazer o mais rápido possível”, escreveu numa carta à sua
irmã Maria Luísa, que havia sido esposa de Napoleão Bonaparte.
As cartas desta jovem princesa austríaca que, em solo brasileiro, acabou tendo
um papel fundamental no episódio da independência, surgem agora reunidas no
livro Cartas de uma imperatriz, que reúne 315 cartas selecionadas a
partir de um universo pesquisado de 850 peças em arquivos brasileiros,
austríacos e portugueses, e cinco ensaios abordando o período histórico no
Brasil e na Europa, a formação intelectual e moral de Leopoldina e a sua
participação nos rumos da vida brasileira no começo do século XIX.
Os historiadores István Jancsó e André Roberto de A. Machado, em “Tempos
de revolta, tempos de revolução”, apresentam uma reflexão sobre a
presença portuguesa no Brasil e os rumos da monarquia absolutista numa Europa
em transformação. Já a historiadora austríaca Bettina Kann, da Biblioteca
Nacional da Áustria, que assina dois artigos, faz uma análise da situação
política na Áustria e o ambiente em que a jovem se formou. A historiadora
Andréa Slemian, tomando como referência a leitura das cartas, traça um painel
de sua vida no Brasil, estabelecendo a dinâmica existente entre privado e
público, mulher e princesa. Para completar, a psicanalista Maria Rita Kehl tece
preciosas considerações sobre a personalidade de Leopoldina, a partir da
leitura das cartas.
A pesquisa, a seleção e a transcrição deste vasto material foram feitas pela
historiadora Bettina Kann e Patrícia Souza Lima, historiadora da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Escritas em alemão, francês, português e inglês,
elas cobrem o período que vai de 1808, quando Leopoldina tinha apenas 11 anos,
a 1826, ano do seu falecimento.
Entre os vários destinatários, como seu pai Francisco I, sua tia Maria Amélia,
destacam-se as que foram enviadas a sua irmã Maria Luísa, que era uma espécie
de confidente de Leopoldina. Nestas cartas, a jovem relata, entre outras
coisas, o momento em que recebeu, ainda em Viena, um retrato de D. Pedro, e se
apaixonou por este jovem “tão lindo como um Adônis”. Já em sua
última carta à irmã, pouco antes de sua morte após um aborto, encontramos uma
mulher abatida e desesperançosa: “Há quatro anos, minha adorada mana,
como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao
estado de maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado
Pedro”.
Esta edição inclui ainda um caderno iconográfico (com obras selecionadas de
artistas-viajantes que estavam no Brasil na época, como Johann Moritz Rugendas,
Thomas Ender, que acompanhou Leopoldina na Missão Austríaca, e Debret, além de
duas aquarelas da própria Leopoldina e alguns fac-símiles das cartas), a árvore
genealógica da Imperatriz e de D. Pedro I, cronologia histórica, glossário de
nomes, bem como um índice de todas as cartas e um índice onomástico. Um
material rico não só para estudiosos, mas também para os leitores, a quem se
oferecerá um testemunho vivo da vida européia e brasileira no começo do século
XIX.