A GUERRA
Luigi Bonanate

Prefácio inédito do autor para a edição brasileira
Tradução de Maria Tereza Buonafina e
Afonso Teixeira Filho
176 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-046-0
R$ 32,00

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O que é a guerra? Como se faz a guerra? Por que se faz a guerra? Um panorama político, histórico, social e filosófico da ação de maior impacto na experiência humana.

O que significa a guerra na história da humanidade? De onde ela vem, por que desde os tempos mais antigos o homem recorre à força para resolver suas divergências? Luigi Bonanate, professor de Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Turim e da Escola Superior de Economia e Relações Internacionais de Milão, reconstrói a guerra em todas as suas dimensões: histórica, antropológica, estratégica, filosófica.

Como lidar com algo tão desagradável, tão perverso quanto a guerra, este “evento de mais alta concentração de valor que podemos imaginar”, segundo o autor Luigi Bonanate? Dedicar um livro a este fenômeno cabalmente violento, intrinsecamente anti-humanitário, que congrega ao mesmo tempo o que o homem tem de mais nefasto e mais ufanista, mas podendo aliar também valores como a coragem, o sacrifício e a nobreza, não deixa de ser uma tarefa editorial delicada. De Platão, para quem ela era uma inutilidade, a La Bruyère, para quem era inevitável, definitivamente o consenso não existiu: para de Maistre, era “divina”, para Hegel, “uma necessidade histórica”, para Nietzsche, era “bela”, para Voltaire, “uma manifestação de estupidez”.

Além de filosofarmos se a guerra é inerente ou não à natureza humana, urge discutir seu perigoso endeusamento, que acaba por banalizá-la. Devemos nos confrontar com declarações como a de tal ministro norte-americano, que recentemente disse com a mais banal frieza que as tais bombas de sete toneladas jogadas sobre o Afeganistão eram feitas para matar o maior número possível de homens. Não disse nem “de soldados”, e sim “de homens”.

É preciso portanto reconhecer: a guerra como valor negativo não é nenhuma unanimidade. Há momentos onde os valores balançam, sentimentos de um humanitarismo sagrado parecem se tornar minoritários. Acaba parecendo inócuo dizer que a diplomacia não teve sua chance, ou não se quis que ela tivesse (Iraque, Líbia, Sudão, Afeganistão, definitivamente o inimigo se parece. Se ele não colabora, ajuda-se para que ele aja conforme convém). Ontem o imperialismo predador ou o comunismo expansionista, hoje o islamismo militante – a noção de inimigo sempre leva um empurrãozinho da semântica. Impõe-se definir com urgência a palavra “terrorismo” – aí estará o embate dos próximos anos. É fácil e tentador para alguns alcunhar de “terrorismo” toda e qualquer dissidência – para retomar um termo de lutas passadas. Em torno de questões semânticas e do controle da informação portanto girarão os conflitos futuros. Isso é o que o momento político (que voltou a se militarizar) de hoje permite supor. Mas será mesmo assim? Falou-se de uma era de paz após o fim da guerra fria – mas esta era de paz assistiu a massacres inconcebíveis na África, à devastação dantesca em plena Nova Iorque, a ações anteriormente inimagináveis no Golfo Pérsico, na Iugoslávia (em plena Europa), no recém-redescoberto Afeganistão. Guerras quentes enfim, com perdas de vidas humanas em números jamais vistos durante a guerra fria.

A nova guerra (a do anti-terrorismo, que fez caducarem tantas noções arraigadas) seria então filha da globalização – ou seria ela um cavalo de Tróia para uma globalização forçada, unilateral, belicosa?

 

Trechos

“O terrorismo é, por assim dizer, ‘a guerra de quem não pode fazer guerra’, ou seja, de quem não pode – sob pena de ser derrotado – entrar oficial e abertamente em campo proclamando suas exigências; pois, se abandonar a clandestinidade e renunciar às ações secretas, perde a sua própria eficácia e, portanto, nega-se a si mesmo. Por isso o aparecimento dos fenômenos terroristas é tão explosivo e destruidor: nem sequer sabemos exatamente de quem e do que devemos nos defender.”
(p. 16)

“Quanto à guerra, que é a maior e mais pomposa das ações humanas, eu gostaria de saber se queremos usá-la para provar alguma prerrogativa nossa ou, ao contrário, para testemunhar nossa debilidade e imperfeição. Na verdade, parece que a ciência da destruição e do matar-se uns aos outros, concorrendo para a ruína e destruição da nossa própria espécie, não causa muita inveja aos animais, que não a possuem.” (Michel de Montaigne)
(p. 22)

“(...) L. F. Richardson, estabeleceu, referindo-se ao período 1820-1949, um limite representado pelo número mínimo de 317 mortos para que o confronto fizesse parte da lista de conflitos. E, por fim, Singer, na mais rica e abrangente dessas coletâneas (destinada a apresentar os dados básicos para o desenvolvimento das correlações empíricas), propõe o limite inferior de mil mortos como condição para que se possa falar apropriada e verdadeiramente de guerra; ele observa também a época, a freqüência e a duração das 118 guerras que identificou no período 1816-1980.”
(p. 27-8)

“A teoria ‘realista’ é a mais clássica e tradicional, e insiste em que a distribuição de forças representa a principal causa de guerra em um ambiente fundamentalmente anárquico, como seria o do sistema internacional; sendo assim, os estadistas estariam obrigados, à luz do chamado ‘dilema de segurança’, a iniciar a guerra toda vez que o arranjo das relações entre potências colocar em risco a vulnerabilidade do seu país.”
(p. 106)

“Em síntese: Platão considera a guerra uma manifestação de inutilidade; para de Maistre ela é divina (isto é, produzida por uma concepção incognoscível); Hegel a julga uma necessidade histórica; Nietzsche exalta-lhe a beleza; Voltaire demonstra-lhe a estupidez; e La Bruyère limita-se a admitir que ela é inevitável. Não terá passado despercebido de ninguém que todos partem do reconhecimento da guerra como dado elementar e estrutural da história humana: ninguém indagará sua superação, nem sustentará se é evitável, nem proclamará a sua obsolescência?”
(p. 141)