AS IRMÃS MAKIOKA
Jun'ichiro Tanizaki

Tradução do japonês de Leiko Gotoda, Kanami Hirai,
Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro
744 páginas, 16 x 23 cm
ISBN: 85-7448-104-1
Preço: R$ 78,00

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“O mundo dos romances de Tanizaki é de fato abstrato. Há, contudo, uma exceção, As irmãs Makioka , e este excepcional trabalho é o ponto alto deste autor, um dos poucos grandes livros escritos durante a guerra e um marco na história da literatura japonesa.”
– Shuichi Kato , professor de história intelectual japonesa na Universidade de Sophia, em Tóquio

 

A obra

Considerada a obra-prima do escritor Jun'ichiro Tanizaki, As irmãs Makioka traça um s util e complexo perfil da sociedade japonesa durante os anos 1930 e aborda uma série de conflitos entre os valores japoneses e os ocidentais e entre a tradição e a modernidade. A história, que começa no outono de 1936 e termina em abril de 1941, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, retrata a vida de uma abastada família da região de Kyoto e Osaka, no oeste do país. As irmãs Makioka (Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko) tentam resolver juntas seus problemas familiares e arranjar um casamento para a terceira das irmãs, Yukiko, uma mulher de crenças tradicionais que aos trinta anos ainda não conseguiu se casar. Ao mesmo tempo representante da inércia das relações, esta personagem é também um estandarte da tradição. Aliás, uma partícula de seu nome compõe o título original do livro Sasameyuki – neve fina, a última a cair no inverno.

Taeko, a caçula, também tem intenções de se casar, mas, em respeito às convenções sociais japonesas, ela precisa esperar o casamento da mais velha para decidir seu futuro. Taeko é a personagem mais aberta à modernização dos costumes e à cultura ocidental, sofrendo as conseqüências de seu comportamento e suas opções. Ela padece de perdas e doenças – estas, aliás, um tema caro a Tanizaki, que faz memoráveis descrições de sintomas, tratamentos e medicamentos da época –, e marcada pela exclusão familiar. No entanto, embora Taeko seja moderna e auto-suficiente, resgata os valores tradicionais na arte e cultura japonesa antiga: ela dança e faz bonecos.

A questão tradição-modernidade aparece também na “rivalidade” entre a região de Kyoto e Osaka (mais tradicional e ligada aos valores antigos) e Tóquio (mais moderna e ocidentalizada). E também entre a casa central, onde mora a irmã mais velha com seu marido, e a secundária, onde está Sachiko e Teinosuke, a segunda irmã com quem as mais novas preferem viver.

Este romance tem como fonte de inspiração a terceira esposa do autor, a elegante Nezu Matsuko, representada no livro por Sachiko, e suas três irmãs, com quem Tanizaki passou a residir a partir de 1923, quando mudou-se de Tóquio para Ashiya, região de Kyoto-Osaka, devido ao grande terremoto que atingiu a capital. Os outros personagens também baseiam-se em amigos, conhecidos e familiares do autor. São reais também as referências de locais, assim como as ligadas à vida artística-cultural. A casa de Ashiya, inclusive, tornou-se ponto de visitação aberto ao público.

Os primeiros capítulos deste romance foram publicados originalmente em uma revista em 1943, mas o governo logo censurou a publicação, considerada inadequada para aquele período social e politicamente turbulento. Tanizaki continuou escrevendo e com seus próprios recursos bancou o lançamento de uma pequena edição do primeiro volume da obra, em 1944. Foi somente depois do fim da Segunda Guerra que o segundo e o terceiro volumes de As irmãs Makioka foram lançados, atingindo grande sucesso entre o público e a crítica literária.

Sob o mesmo título, a obra teve adaptações para o cinema, sendo a do diretor japonês Kon Ichikawa, de 1983, a mais conhecida.

 

Trechos

“Alguns especulavam que devia ter ocorrido algo bastante grave para que Yukiko, a irmã logo abaixo de Sachiko, continuasse solteira mesmo depois de completar trinta anos de idade, mas de fato nada acontecera. Contudo, na conjunção de fatores que levaram a esse resultado, talvez o que mais pesara fosse a incapacidade das irmãs Makioka — de Tsuruko, a irmã mais velha e herdeira da casa Makioka, como também de Sachiko e da própria Yukiko — de esquecer tanto o estilo de vida luxuoso que haviam levado ao lado do velho pai em seus últimos anos de vida, como a antiga força do nome Makioka. E buscaram tanto um pretendente à altura desse nome que acabaram recusando uma a uma, por serem insatisfatórias, todas as propostas de casamento — de início numerosas como as estrelas no céu — que lhe haviam sido apresentadas. Aos poucos, amigos e conhecidos se impacientaram, as propostas rarearam e, nesse meio tempo, a casa entrou em decadência.” (p. 18)

“O preconceito contra mulheres nascidas sob o signo do cavalo é bastante comum no Japão, mas aquele contra as mulheres de carneiro é restrito à área de Kansai e praticamente desconhecido em Tóquio. Naquela região se diz que mulheres do signo do carneiro são desventuradas, que as propostas de casamento lhes passam ao largo e que com elas não devem se casar nem mercadores, nem artesãos. Em Osaka, cidade que concentra vasta população de mercadores, existe até um dito popular: ‘Mulheres de carneiro, nem me parem no portão.' Não será também por isso que a pobrezinha da Yukiko não consegue se casar? — perguntava-se aflita a mais velha das irmãs Makioka.” (p. 30-1)

“Ao voltar da escola, Etsuko vestia o quimono, que antes só usava uma vez por ano para contemplar as cerejeiras em flor, calçava meias grandes demais para os seus pés, abria o leque de estilo Yamamura, com desenho de flores de ameixeira, crisântemo, orquídea e bambu sobre redemoinhos d'água, e ensaiava a dança com a paródia de Festa da divindade Ebisu... Era a época dos dias longos. Etsuko terminava seu ensaio e chegava a vez de Taeko dançar Neve . O jardim continuava ensolarado e os lírios amarelos tardios se destacavam sobre o verde do gramado.” (p. 237)

“Sachiko e as irmãs cediam a sala em estilo ocidental para as brincadeiras das crianças, enquanto elas próprias se retiravam para um quarto em estilo japonês de seis tatames, onde passavam a maior parte da tarde deitadas... As três irmãs disputavam o espaço próximo à janela para passar o período das duas às três da tarde, momento mais quente do dia, estendidas no tatame... Havia alguns dias, Sachiko passara a usar um vestido leve, com abertura nas costas. No final de julho, até mesmo Yukiko, que sentia repulsa por roupas ocidentais, rendera-se e começara a envolver seu corpo delgado, como o de uma boneca feita de barbante de papel, numa georgette . Quanto a Taeko, a mais dinâmica das três, ainda sofrendo do trauma da enchente, não mostrava a mesma disposição de sempre.” (p. 294-5)

“Tatsuo vinha dizendo, havia muito, que aqueles tempos nos quais viviam clamavam pela mobilização geral do espírito nacionalista do povo japonês; portanto, não estavam em época de desperdiçar dinheiro com ofícios religiosos. Por tal razão, ele sugerira que o ofício do sogro também fosse realizado naquele ano. Mesmo assim, até bem pouco tempo antes, não tinham mesmo a intenção de fazê-lo, e começaram a elaborar o convite apenas para o ofício religioso da mãe. Entretanto, desde o início da guerra na Europa, Tatsuo havia mudado de idéia. Ele dizia que talvez o Japão viesse a enfrentar tempos ruins, já que a situação com a China ainda não se resolvera mesmo depois de três anos de trégua. Se existia a possibilidade de o Japão envolver-se num conflito mundial, deveriam ser ainda mais comedidos dali por diante. Por isso, decidiram-se pela realização de uma cerimônia conjunta para o pai e a mãe.” (p. 517)

“Taeko estava deitada de perfil, com o lado do coração voltado para cima, e a febre havia baixado um pouco. Quando Sachiko apareceu, ela já parecia esperá-la, pois seus olhos estavam fixos na entrada do quarto... O rosto redondo de Taeko afinou-se, a pele estava mais escura do que já era, e os olhos pareciam maiores. Algo mais chamou a atenção de Sachiko: a aparência de impureza estranhamente percebida no corpo da irmã, e que não era a sujeira comum, encardida, causada pela simples falta de banho. Geralmente, os efeitos de sua conduta desregrada se ocultavam sob a maquiagem, mas ali, devido à fragilidade física, uma sombra de obscenidade dominava-lhe o rosto, o pescoço e os pulsos. Nada, porém, era tão evidente quanto sua magreza, proveniente não apenas do sofrimento gerado pela doença, mas da exaustão de uma vida descomedida ao longo de anos.” (p. 607-8)

“Afinal, por que precisava enfrentar situações desagradáveis todas as vezes que ia a Tóquio? Seri a por não combinar com aquela cidade?... Tóquio era o kimon, o ponto cardeal do azar para elas, e aquele descuido de Taeko poderia acarretar um novo tropeço para o casamento de Yukiko. Ela não tinha mesmo sorte, pois apesar de ter encontrado um bom partido, o local para se conhecerem tinha sido Tóquio. Ao considerar tudo isso, Sachiko não conteve o sentimento de tristeza por Yukiko e sentiu ainda mais raiva de Taeko, vertendo lágrimas de compaixão e ressentimento.” (p. 698)

 




Beleza que se dissipa
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