![]() |
MEFISTO A edição inclui extensa documentação |
Compre aqui com nossos parceiros |
| Livraria Cultura | ||
| Submarino | ||
| Saraiva | ||
| Siciliano | ||
| Fnac | ||
A obra
Mefisto, escrito em 1936 no exílio, descreve a ascensão meteórica de um ator sob o guarda-chuva do poder nazista. Foi um dos primeiros romances a se confrontar com as circunstâncias do Terceiro Reich. Klaus Mann viu no personagem central Hendrik Höfgen o expoente e o símbolo "de um regime burlesco, profundamente falso e irreal".
Desde sua publicação, o livro causou acirradas polêmicas e em 1968 foi proibido na Alemanha. "(Nesse ínterim) a distância temporal fez o romance entrar definitivamente para a história da literatura." (Süddeutsche Zeitung)
Histórico
Nove dias antes de sua morte, diante da recusa de uma primeira edição de Mefisto na Alemanha por parte de um editor de Munique, Klaus Mann escreveu uma carta daquelas que todo editor teme receber um dia. Mas é significativo e revelador o que justamente está por trás dessa recusa: o novo poder, sob um regime agora supostamente depurado de resíduos nazistas, do outrora todo-poderoso ator retratado neste romance. Que torta continuidade haveria de existir para que ele ainda tivesse a força de fazer, postumamente, com que a melhor obra de Klaus Mann ficasse proibida por decisão judicial durante quinze anos? Tal proibição, no entanto, teve o mérito de forçar a Justiça, parodiando Mefistófeles, a vestir sua máscara censora ao preferir proteger a imagem de um morto da profanação por outro morto, nesse "duelo dos mortos" que se tornou o mais famoso processo pela liberdade de expressão na difícil democracia da República Federal da Alemanha dos anos 60 e 70.
A história da obra Mefisto parece, portanto, refletir a trama do eficaz libelo antifascista elaborado por Klaus Mann - e aí poderemos discutir para sempre até que ponto ele sucumbiu à tentação de turvar a memória de seu famosíssimo ex-genro Gustaf Gründgens, modelo inconfesso para seu personagem central.
Mas a batalha literária, num destino que nada tem de irônico, extravasaria para a luta desta obra por sua publicação. Dos 2.500 exemplares iniciais da editora Querido, em Amsterdã, passando pela recusa em 1949, que contribuiu para a depressão que levaria Klaus Mann à morte; pela publicação na "outra" Alemanha, já no contexto da guerra fria; pela ampla circulação de uma edição clandestina impressa na França; pela brilhante encenação de Ariane Mnouchkine no Théâtre du Soleil; pela popular filmagem de István Szabó, até a consagração com a edição em livro de bolso - o mais rápido best-seller da Alemanha, com 600 mil exemplares vendidos em poucos meses - tornando letra morta a esdrúxula proibição confirmada pela mais alta corte do país, o percurso foi árduo e longo.
Trechos
"(...) O crânio escanhoado é coberto de pó branco, tal como o rosto; as sobrancelhas foram elevadas de maneira grotesca; a boca vermelho-sangue alongou-se num sorriso congelado. O amplo espaço entre os olhos e as sobrancelhas artificialmente elevadas cintila em centenas de cores diferentes, o que dá aos especialistas a oportunidade de admirar o trabalho de maquiagem de um nível extraordinário. Todos os tons do arco-íris misturam-se nas pálpebras de Mefisto e nas curvas abaixo de suas sobrancelhas: o negro transforma-se em vermelho, o vermelho em alaranjado, em violeta e em azul; pontos prateados brilham nos espaços intermediários, e um pouco de dourado foi distribuído de maneira inteligente e engenhosa. Que movimentada paisagem colorida acima dos atraentes olhos de pedras preciosas desse Satã!" (p. 176)
"(...) ‘Como o Mal é forte!’, pensou o ator Höfgen num arrepio de respeito. ‘Que coisas ele pode se dar ao luxo de fazer e permanecer impune! Neste mundo, tudo acontece realmente como nos filmes e nas peças cujo herói muitas vezes pude interpretar.’ Aquilo, no momento, era o que ele de mais ousado se atrevia a pensar. Mas prevendo algo, e sem querer admiti-lo ainda, percebeu pela primeira vez uma conexão misteriosa entre seu próprio ser e aquela esfera ordinária, pervertida, na qual trapaças vulgares e calhordas como aquele incêndio eram idealizadas e executadas." (p. 185)
"(...) fora justamente a timidez do diretor que havia causado no ditador uma surpresa agradável. O Führer não aprovava e até considerava um atrevimento inadmissível se em sua presença alguém tentasse parecer desembaraçado ou mesmo brilhante. Em face do poder, era preciso calar-se com respeito. Um Hendrik radiante teria provavelmente irritado o Messias de todos os germanos. Sobre aquele homem confuso e amedrontado, o todo-poderoso emitiu um parecer moderado." (p. 279)