VIDAS MINÚSCULAS
Pierre Michon

Coleção Latitude
Tradução de Mário Laranjeira
216 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-095-9
R$ 33,00

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A obra

Primeiro romance do autor, Vidas minúsculas, edição original de 1984, foi aclamado pela crítica e traduzido para diversas línguas, tornando-se um clássico contemporâneo das letras francesas.

Vidas desoladas, vidas de antepassados, parentes e amigos, personagens cambaleantes na província francesa em torno de um vilarejo esquecido. Uma miragem da imortalidade, um acesso de existência, este é o mote de Vidas minúsculas, em que Pierre Michon lapida trajetórias de vida que, de tão “miniaturizadas”, tornam-se universais.

Desfilam vidas esculpidas a cinzel. Um órfão atravessando o oceano em busca do imaginário utópico de riquezas africanas; a lembrança afetiva dos avós e do contato com objetos detentores de passado; os embates – descobertas de mundos – com os colegas de classe no liceu; o silêncio vivo da pequena irmã que não chegou a conhecer mas de quem depreende os rastros; a bela psicanalista que o coloca à escrivaninha; ou os tantos personagens a perambular em hospitais, igrejas, cafés, gente defasada no tempo ou nas origens, vivendo à margem, nas fronteiras do real e, por isso mesmo, detentora da verdade.

E todos funcionam como anteparo para o difícil encontro com a escrita, para o cauterizador abraço com o texto: “Cada bebedeira era para mim como um ensaio geral, uma retomada das formas decaídas da Graça; pois a Escrita, pensava eu, viria em sua hora assim, exógena e prodigiosa, indubitável e transubstancial, transformando meu corpo em palavras como a embriaguez o transformava em puro amor de si, sem que segurar a pena me custasse mais do que levantar o cotovelo; o prazer da primeira página me seria como o arrepio ligeiro do primeiro copo; a amplidão sinfônica da obra acabada ressoaria como os cobres e os címbalos da embriaguez maciça, quando copos e páginas são inumeráveis. Arcaico meio, grosseiro subterfúgio de um xamã camponês!”

 

Trechos

“Essa embriaguez, eu gostaria de tê-la prolongado; ao me vestir, sentia todas as coisas com calor: aquelas zínias estavam ali também, de cores imediatas e de pétalas duras, vivazes, voluntárias e como que perduráveis; pela janela aberta, o mundo vinha a mim, verde umbroso e azul, visível no horizonte de ouro como em Bizâncio um ícone; ninguém teria posto em dúvida a presença magistral do sol.” (pág. 74)

“Aquiles não tinha perseguidor mais impiedoso do que o pequeno Bakroot. As injúrias mais extremadas, os risos mais maldosos passavam pela boca do menino, desfiguravam-no. Aquiles imperturbável ficava absorto nos seus autores, declinava, traçava no quadro as sete colinas ou a baía de Cartago: às suas costas, as rimas obscenas desnaturavam os nomes dos deuses e dos heróis, os elefantes de Aníbal se tornavam bichos de circo, Sêneca era um histrião e nada mais era confiável.” (pág. 89-90)

“Em cima da comprida mesa da cozinha fumacenta, entre o bule de café e o litro de vinho, os nobres e violentos líquidos com que os camponeses acham que devem ratificar, pelo calor que da boca passa ao corpo onde a alma desfruta dele, a cândida crença em sua vida daqueles que vieram saudar os mortos que não têm mais sede, estava colocada uma coleção de quepes, chapéus de uhlans ou soldadinhos de Andersen em outros descongelamentos de inverno.” (pág. 112)

“Que novas vergonhas lhe caberia tragar, ignaro sem um semelhante, e velho, e doente, naquela cidade onde as próprias paredes eram letradas, históricas as pontes e incompreensíveis a clientela e a tabuleta das lojas, aquela capital onde os hospitais eram parlamentos, os médicos dos mais sábios aos olhos dos sábios daqui, a menor enfermeira Marie Curie? Que seria ele em suas mãos, ele que não sabia ler o jornal?” (pág. 136)

“Ela ignorava seu nome e o monstro de insuficiência que seu nome é, e sua própria imagem ainda não lhe havia roubado o mundo, que não é para nós senão o guarda-roupa onde vestir nossa imagem...” (pág. 208)




"De certa forma a literatura salvou minha vida"
Elizabeth Sucupira, Jornal do Brasil, Idéias, 13/7/2004

Pierre Michon - Maiúsculas e Minúsculas
Leyla Perrone-Moisés, Folha de S. Paulo, Mais!, 18/7/2004

Michon - um autor embriagado com a palavra
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25/7/2004