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OS MOEDEIROS FALSOS Tradução: Mário Laranjeira |
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A obra
Tarefa difícil dar conta da magnitude de Os moedeiros falsos.
Romance sobre a construção do romance, é ao mesmo tempo romance de
formação, flerta com o estilo folhetinesco, com o romance policial, o
romance de ideias... Diz o personagem Édouard a certa altura: “[...] as
ideias, confesso, interessam-me mais do que os homens; interessam-me
acima de tudo. Elas vivem; combatem; agonizam como os homens.
Naturalmente pode-se dizer que só as conhecemos pelos homens, assim
como só temos conhecimento do vento pelos caniços que ele inclina; mas
mesmo assim o vento importa mais que os caniços.”
Bernard, Olivier e
Édouard são os rapazes que formam a tríade central de personagens.
Bernard, o filho que deixa o lar em busca de identidade, um bastardo na
pele do filho pródigo; Olivier, seu grande amigo, intelectual como ele,
mas sempre no limiar entre a vaidade e a insegurança. Tio de Olivier,
algo mais velho que os dois, Édouard fecha o núcleo que norteará o
leitor em meio ao sistema caleidoscópico e polifônico de Os moedeiros
falsos. Em especial este último: é por meio do diário de Édouard
(escritor, ele planeja escrever um romance chamado Os moedeiros falsos)
que o leitor é tragado pela estrutura abismal — mise en abyme,
segundo Gide — da obra dentro da obra, onde os limites entre o
ficcional e o real se atenuam e vêm à tona a metalinguagem e a reflexão
sobre as possibilidades e os limites de um romance.
Anterior ao
esquema de falsificação armado por Victor Strouvilhou, quiçá esteja
outro tipo de “moeda falsa”. Se nos Porões do Vaticano o elemento
diabólico encontra seu totem na figura de Lafcadio, aqui ele se
dissemina. Há como que uma brisa funesta a perpassar todo o enredo, o
qual, no entanto, encontra seu equilíbrio na juventude e na pureza de
alguns de seus cativantes personagens: um erotismo sutil, combinado com
a causalidade e a inconsequência. “Quando eu era mais jovem, tomava
resoluções que imaginava nada virtuosas. Preocupava-me menos em ser
quem era do que em me tornar quem pretendia ser. Agora, pouco me falta
para ver na irresolução o segredo para não envelhecer.”