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O MUNDO NA COZINHA Tradução: Valéria Pereira da Silva |
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A obra
“A comida é uma forma de
conexão entre diversas culturas. Conservadoras, embora nada estáticas,
as tradições alimentares e gastronômicas são extremamente sensíveis às
mudanças, à imitação e às influências externas. Cada tradição é o fruto
– sempre provisório – de uma série de inovações e das adaptações que
estas provocaram na cultura que as acolheu”, afirma o professor de
história da alimentação da Universidade de Bolonha (Itália), Massimo
Montanari. Essa é a essência de O Mundo na cozinha: história, identidade, trocas
(Editora Senac São Paulo e Estação Liberdade). O livro investiga o
fluxo de ideias que influenciou a construção de identidades culinárias,
além de explicar e reconstituir os percursos das trocas entre
diferentes sociedades.
Fruto de uma conferência realizada na
Universidade de Bolonha, em outubro de 2000, a obra traça um vasto
panorama do intercâmbio gastronômico e cultural no mundo,
especialmente, na Europa, Ásia, África e Américas. Em oito textos,
especialistas estrangeiros em história, antropologia e sociologia
mostram como a alimentação se equipara a linguagem, criando
intersecções entre diferentes povos. Os artigos debatem também como a
comida auxilia na intermediação entre culturas, proporcionando
invenções e contaminações, e, mostram porque as identidades mais fortes
são aquelas mais abertas ao exterior. “O livro discute como o mundo e
sua diversidade está presente na cozinha de todos”, diz Montanari.
Para
demonstrar essa tese, no artigo de abertura, o professor italiano dá
como exemplo a cultura européia da Idade Média. Segundo o historiador,
a civilização que surge na Europa, naquela época, é fruto da combinação
da tradição romana com a tradição germânica: ao uso do pão, vinho e
azeite soma-se a utilização da carne, da cerveja e da gordura animal.
“Deriva daí um modelo inédito de produção e de consumo, onde a carne
(principalmente a carne de porco) desafia o pão como ‘valor forte’ do
sistema, numa dinâmica de integração recíproca, tanto econômica quanto
simbólica, que representa, em minha opinião, um dos episódios mais
interessantes da história da cultura alimentar”, avalia ele.
Há
importantes debates sobre a trajetória da permuta cultural na
gastronomia européia – antiga e moderna – e da culinária hebraica, por
exemplo, uma cozinha que sofre com a conversação da própria identidade.
Ariel Toaff, professor da Universidade Bar-Ilan (Israel), mostra de que
maneira o preparo e as restrições às comidas judaicas ultrapassou a
origem étnica dos hebreus e se mesclou às demais culturas, como a
européia. Toaff demonstra que as imigrações de judeus para a Itália
fizeram com que as comidas kasher
fossem incorporadas por cristãos e vice-versa. “É um fato incontestável
que os hebreus italianos foram menos rígidos nas proibições alimentares
no que diz respeito ao consumo de pães, vinhos e queijos”, diz o
especialista.
Discussões contemporâneas também estão
presentes nos ensaios, como o relacionamento entre as culturas locais e
o mercado global. Autores, como o francês Jean-Peirre Devroy, explicam
porque a noção de território e da culinária regional é uma invenção
recente. Nesse contexto, o texto de Devroy debruça-se sobre o
caso do Champagne, para falar da exportação de território.
Um
estudo de caso sobre a cidade de Bolonha, na Itália, finaliza o livro.
Escrito pelo organizador Massimo Montanari, o texto revela como a
região tornou-se centro difusor da gastronomia européia. Segundo o
historiador, o modelo bolonhês foi construído principalmente a partir
da capacidade de conexão com outras culturas culinárias, integrando
essas descobertas à sua identidade.