O PAÍS DAS NEVES
Yasunari Kawabata

Tradução de Neide Hissae Nagae
160 p. | 14 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-097-5
ISBN-13: 978-85-7448-097-8
R$ 32,00

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Obra máxima de Kawabata, O País das Neves é considerada um marco da literatura intimista e neo-sensorialista que deu destaque mundial ao Prêmio Nobel de 1968

A primeira versão desta obra foi publicada originalmente em 1937, mas foi apenas dez anos depois, já influenciado pelos acontecimentos da Segunda Guerra, que o escritor japonês terminou a versão final deste romance sobre o amor espontâneo e sem nenhuma esperança de retribuição.

Neste livro, de grande repercussão no Japão e no exterior (inclusive com adaptações para o cinema), Kawabata expõe a densidade e as contradições das relações humanas por meio do encontro entre Shimamura, um culto senhor de posses, Komako, uma gueixa das montanhas, e Yoko, uma bela jovem provinciana, trazendo ao leitor um texto comovente e lírico ao extremo.

Em vez de provocantes paixões, o desperdício do amor e o sacrifício pessoal dos personagens conduzem-nos a uma atmosfera gélida, com pinceladas de forte afetividade, em que o branco da neve e o frio penetrante contribuem para dar o tom melancólico da narrativa. Não à toa: a estação termal de Yusawa, que o escritor visitou pela primeira vez em 1934, serviu de inspiração para a criação do cenário onde a história se passa.

* * * * *

Em mais um hino dedicado à beleza e à alma femininas, Yasunari Kawabata literalmente nos transporta para uma região mágica do Japão, o País das Neves, onde ruídos, sentimentos, embates amorosos assumem contornos irreais abafados por densas camadas brancas, cenário ideal para os paralelos que tanto aprazem o Prêmio Nobel de 1968, ao cotejar a pele de suas onipresentes jovens com a tradicional cerâmica japonesa, igualmente perfeitas ao toque.

Shimamura, escritor ora refinado ora diletante, sobre o qual pouco sabemos — qualquer desprezo de Kawabata por seus personagens masculinos não será mero acaso —, deixa para trás casa e família e parte com o rigor de uma missão a cumprir rumo ao reencontro com seus anos jovens (“no final das contas, só esse dedo guardava a memória crua da mulher com a qual estava indo se encontrar”).

Entre casas termais, gueixas aprendizes e paisagens gélidas, revela-se uma insistente busca do eu em um correr do tempo estancado desde que o protagonista desceu do trem após longo trecho de narrativa antológica retomando, via reflexos em janelas, o constante tema do espelhamento na obra de Kawabata. E logo de início, ainda no longo túnel levando de Tóquio ao famoso País das Neves, travessia simbólica que conduz de um Japão do Pacífico ao mundo mais irrequieto do Mar da China, o autor nos leva a um magistral mergulho nos mistérios do relacionamento humano. No caso, um velado triângulo amoroso cujos contornos parecem jamais fechar, mas que inevitavelmente alcançarão um fogoso ponto de ruptura.

O País das Neves pode — e deve — ser visto como ponto crucial na obra de Kawabata, e não é por acaso que Shuichi Kato, o papa japonês da história da literatura, escreve que esta é “claramente a obra-prima de Kawabata” — não por outro motivo que pela construção e caracterização dos personagens. Ao contrário do que ocorre no mundo de Kawabata em geral, no qual os personagens femininos são inteiramente inventados, a gueixa Komako existiu na vida real — e mesmo para um autor deste calibre, alguma diferença parece ter havido.

 

Trecho

“Como o interior do trem não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. Ele não refletia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer.
Foi nesse momento que os raios de sol, já tênues, iluminaram o rosto dela. O reflexo do espelho não era suficiente para apagar a claridade de fora, nem esta, forte o bastante para ofuscar a imagem refletida no espelho. A claridade passava como um relâmpago pelo seu rosto, mas não era suficiente para iluminá-lo. A luz era fria e distante. No momento em que o contorno de sua pequena pupila foi se iluminando, como se os olhos da moça e a luz se sobrepusessem, seus olhos se tornaram um vaga-lume misterioso e belo que pairava entre as ondas da penumbra do cair da tarde.” (p. 15)

“... sob a sombra de um beiral, cinco ou seis gueixas conversavam em pé. Shimamura pensou que Komako — nome artístico que ficara conhecendo graças à empregada da hospedaria naquela manhã — poderia estar por ali; de fato, parecendo perceber que ele se aproximava, seu semblante sério a distinguia das outras. Sem que houvesse tempo para Shimamura pensar que ela ficaria ruborizada, desejando que um vento desinteressado a refrescasse, o rosto de Komako já estava vermelho até o pescoço. Já que era assim, ela deveria ter ficado de costas, mas desviando o olhar, visivelmente incomodada, movia aos poucos o rosto na direção em que ele andava.” (p. 48)

“No entanto, ao pensar que Yoko estava naquela hospedaria, Shimamura, sem saber por que, sentiu receio de chamar Komako. Embora o amor de Komako fosse destinado a ele, sentia um vazio como se isso fosse mais um belo esforço em vão. Ao mesmo tempo, também sentia a vida que Komako tentava viver roçar nele tal qual uma pele nua. Compadecendo-se dela, também se compadeceu de si mesmo. Julgou que Yoko era possuidora de um olhar semelhante a uma luz que pungia tal situação, e, por algum motivo, se sentiu atraído por ela também.” (p. 114)




Obra de Kawabata volta às livrarias
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo, Caderno, 29/11/2004

Em busca do sexo perdido
Jerônimo Teixeira, Veja, 1º/12/2004