Notre-Dame de Paris

NOTRE-DAME DE PARIS

Victor Hugo


Tradução do francês: Ana de Alencar e Marcelo Diniz

584 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-190-6
R$ 69,80

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A obra

A Estação Liberdade traz a público nova tradução do romance Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo (1802-1885), um dos grandes clássicos da literatura, a cargo de Ana de Alencar e Marcelo Diniz, professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O prefácio a nossa edição é assinada por Louis Chevalier, professor na Collège de France entre 1952 e 1981 e um dos expoentes máximos da obra do escritor francês.
Hugo é o escritor por excelência do século XIX. Pela abrangência de seus temas, verdadeiro almanaque da condição urbana, pela duração de sua carreira, que atravessou o século, pela profundidade e durabilidade de sua capacidade criativa, é um verdadeiro gigante das letras.
Participando ativamente da vida política, após anos de exílio, em notável reviravolta, no final da vida tornou-se poeta nacional da França. Estilisticamente, insere-se no romantismo, mas um romantismo social priorizando os sentimentos de fraternidade, justiça e redenção do homem.
Notre-Dame de Paris é um inequívoco exemplo do poder da imaginação, da eficaz utilização de mitos medievais e da construção de uma obra que soube cair nas graças do público.
Unindo história, aspectos grotescos, trama passional, a obra atinge patamares de excelência literária que deixam antever o Victor Hugo de obras tardias como Os miseráveis e O homem que ri. Importante destacar a discussão ensejada pelo autor sobre os valores de defesa do patrimônio urbanístico e arquitetônico, a começar pelo resgate da produção cultural da Idade Média.
Victor Hugo nos apresenta uma Paris repleta de figuras ímpares, a começar pelo incontornável Quasímodo, que se tornaria uma das figuras mais conhecidas do legado literário universal. Também somos confrontados com uma série de locais singulares que a verve descritiva de Hugo faz compor um rico painel da metrópole francesa no século XV.

A trama

Em Paris, em 1482, um poeta inseguro e galanteador de nome Gringoire se perde na babélica e mal-afamada Corte dos Milagres. Uma jovem e atraente cigana, La Esmeralda, o salva, para logo depois virar cobiça de um arquidiácono decadente e doentio (Claude Frollo), que encarrega o batedor de sinos da catedral parisiense, o miserável e repulsivo corcunda Quasímodo, de raptá-la. Ela é libertada por um bem-apessoado oficial (Phoebus), por quem se perde de paixão. Quasímodo é torturado por sua tentativa de sequestro, mas a própria jovem não o condena. O arquidiácono tenta liquidar o oficial, mas consegue que inculpem a cigana, que por sua vez é colocada no pelourinho para confessar. Quasímodo consegue libertá-la e levá-la para a Notre-Dame, onde deveria estar a salvo, mas o submundo parisiense em peso ataca a catedral para livrá-la do horrível corcunda, que organiza heroica resistência.

A orelha desta edição

Notre-Dame de Paris apresenta ao leitor um dos personagens mais conhecidos da literatura francesa. Quasímodo, o corcunda de Notre-Dame, ao completarem-se quase dois séculos da publicação de seu romance (1831), foi objeto de atualizações clássicas do cinema, desde as versões em que foi interpretado por Lon Chaney (1923) e Anthony Quinn (1956), à animação da Disney (1996). Esse herói grotesco é descrito como o reflexo monstruoso da sociedade europeia no século XV. A criança abandonada de origem cigana, o corcunda, o caolho, o coxo, o surdo, cada traço que se acrescenta à sua monstruosidade abjeta, ao mesmo tempo risível e temível, é a projeção de um mundo distorcido pela perversão dos suplícios em praça pública, pelo obscurantismo místico, pela sexualidade recalcada, pela xenofobia, pela arbitrariedade da justiça, pelo fausto dos poderes e pela decadência material e moral de Paris nos estertores da Idade Média. Uma sociedade, enfim, emaranhada pelas mais diversas contradições, que culminam na catedral de Notre-Dame saqueada, narrada por Victor Hugo como um prenúncio alegórico de um fato histórico emblemático do destino da Europa, a Queda da Bastilha.

Trechos

“[Quasímodo] saltou a balaustrada da galeria, prendeu a corda a seus pés, a seus joelhos e a suas mãos, em seguida desceu pela fachada, como uma gota de chuva que desliza ao longo de um vitral, correu na direção dos dois carrascos com a rapidez de um gato que cai de um telhado, abateu-os com seus dois punhos enormes, levantou a cigana com uma mão, como uma criança, a sua boneca, e com um só impulso pulou até a igreja, levando a jovem acima de sua cabeça e gritando com uma voz formidável:
— Asilo!” (p. 404)

“[Quasímodo] trazia a jovem toda palpitante suspensa em suas mãos calosas, como uma roupagem branca, mas a portava com tanto cuidado que parecia recear quebrá-la ou faná-la. Parecia sentir algo delicado, requintado e precioso, feito para outras mãos que não as suas. Por momentos, tinha o ar de nem sequer ousar tocá-la, mesmo com um sopro. Em seguida, estreitava-a, opresso, em seus braços, sobre seu peito anguloso, como se fosse seu bem, seu tesouro, como faria a mãe dessa menina.” (p. 405)

“Então as mulheres riam e choravam, a multidão tripudiava de entusiasmo, pois, nesse mesmo momento, Quasímodo tinha verdadeiramente sua beleza. Era belo, ele, esse órfão, essa criança abandonada, esse refugo, sentia-se augusto e forte, olhava na face dessa sociedade da qual era banido e na qual intervinha com tanta potência, essa justiça humana da qual ele arrancara sua presa, forçando todos esses tigres a mastigar o vazio, a polícia, os juízes, os carrascos, toda essa força do rei que ele, ínfimo, acabara de quebrar com a força de Deus.” (p. 405)


“No momento em que seus olhos se fechavam, quando todo o sentimento se dispersava dela, sentiu em seus lábios um toque de fogo, um beijo mais quente do que o ferro em brasa de um carrasco. Quando retomou os sentidos, estava rodeada por soldados da ronda, haviam levado o capitão, encharcado de sangue, o padre desaparecera, a janela ao fundo do quarto, que dava para o rio, estava escancarada, encontrou-se um manto que se supunha pertencer ao oficial; e ela ouvia dizerem ao seu redor:
— O capitão foi apunhalado por uma feiticeira.” (p. 349)