O CORPO COMO OBJETO DE ARTE
Henri-Pierre Jeudy

Tradução de Tereza Lourenço
184 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-065-7
R$ 32,00

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O corpo, esse imenso canteiro para artistas...

Esta obra não pretende tratar do corpo na pintura ou na escultura, mas das incidências da criação artística e da literatura sobre sua estética quotidiana. A fantasia do corpo tomado como objeto de arte é um estereótipo de nossa idealização estética. Ela se constitui extraindo seus recursos das artes plásticas e da escrita literária.

Não se trata dos modelos de beleza ou do estetismo do dândi, mas dessa vertigem das imagens corporais que nos oferece a ilusão de nossas metamorfoses. As inscrições sobre a pele, a aparição do esqueleto, a visão do sangue e dos pêlos fazem do corpo a “matriz ideal da metáfora”.

Jamais o corpo foi tão exibido e interpretado ao mesmo tempo em que todo mundo concorda em dizer que ele é um enigma. Com a arte corporal e as performances artísticas, o corpo se faz obra viva. Em vez de ser falado, ele se torna linguagem. É a apologia do contágio estético! Esses novos símbolos da exibição artística puseram fim ao poder do espelho? Parece mais que a paixão do duplo prossegue: nos laboratórios de criação artística das imagens virtuais, é o mito do corpo puro que vem instituir a crença em uma nova corporeidade.

 

Sobre o livro

Desde as antigas práticas de mumificação do cadáver até o atual lifting, promotor da juventude de milhares de corpos vivos, não haveria uma teimosa inclinação humana voltada à transformação do corpo em objeto de arte? O fascínio pela exibição do corpo esculpido cotidianamente e a obsessão de estetismo não seriam maneiras de frear a labilidade das imagens corporais, ou ainda um modo de emoldurar a vida humana num campo estético fixo? O ideal da beleza suprema não exprimiria a inacessibilidade dos corpos tanto quanto a sublimação do desejo?

Henri-Pierre Jeudy não se furta a examinar questões desta natureza, tanto na arte quanto na vida quotidiana. Sociólogo, professor de estética e autor de diversos trabalhos sobre as artes e a cultura contemporânea, Jeudy desconforta o leitor pouco habituado à percepção de estereótipos que sustentam os ideais da beleza corporal hoje em expansão. Ele torna estes estereótipos visíveis, mesmo quando o corpo é colocado no centro dos dilemas da arte e da cultura: nunca como em nossos dias o corpo foi tão interrogado, vasculhado, interpretado e, ao mesmo tempo, tratado como a derradeira fronteira a ser desvendada, o último mistério a ser decifrado... o grande enigma. Para Jeudy, o estereótipo se faz presente, também, nesse meio paradoxal, resultando de uma alteridade produzida. Por isso, não crê numa singularidade anterior a toda estereotipia e percebe o corpo transformado em obra de arte numa miríade de circunstâncias, épocas e lugares, incluindo a literatura, a mitologia, a filosofia, as artes plásticas e a dança. O corpo como objeto de arte não deixa de ser, contudo, uma aposta dupla: na deliberação de sua morte e na sua imortalidade.

Ao longo dos capítulos, o risco do esteticismo emerge, também, junto à massa de discursos que vem se apoderando cada vez mais amplamente do corpo para interpretá-lo antes mesmo de suas performances. Mas o autor não salva o corpo e a arte deste risco. Ele intensifica as suas condições de possibilidade. Por isso, sua análise se descola rapidamente da busca de uma suposta singularidade perdida, ou de alguma descoberta que lhe garantisse revelar o último estereótipo da interpretação.

Denise Bernuzzi de Sant'Anna
Departamento de História – Pós-Graduação, PUC-SP
(Texto de orelha)

 

Trechos

Mesmo a mais transbordante energia sexual fica muitas vezes recusada pela impavidez de um corpo percebido em sua beleza soberana. (p. 23)

A exibição não é necessariamente pública, ela é, antes de tudo, essa intimidade do corpo oferecida ao olhar do Outro. Trata-se, aliás, de um paradoxo clássico: o pudor se aloja sempre no coração daquele que se torna público. (p. 39)

O corpo dançante é uma abertura ao Outro, pois representa o ato erótico. Faz-se advento de uma estética contagiosa de erotização. A dança como “diálogo erótico com o Outro” conduz a uma equivalência paradoxal entre “doação e posse”. Faz entender que tudo é erotizável e que essa erotização continua sendo a única maneira de ser no mundo. O desejo não é de imediato desejo pelo objeto; ele provém e irrompe de uma erotização perpétua pelo Outro e por si, sem a distinção que uma relação de objeto institui. (p. 70)

Nas sociedades primitivas, o corpo pintado é assimilado ao “processo primário”; é então objeto de cerimônias que exprimem a transgressão ritual dos tabus, e o corpo com tatuagens e escarificações, pelo caráter indelével das marcas, diz respeito a uma inscrição na ordem simbólica, quer dizer, ao “processo secundário”. (p. 79)

Uma pessoa doente constrói um verdadeiro ritual para governar as relações que mantém com os outros antes de morrer. Embora, na maior parte das vezes, trate-se de condutas obsessivas que podem se tornar rapidamente insuportáveis para os demais, uma tal encenação intimista visa afastar a angústia da morte. (p. 141)