Livro do Chá

PONTOS DE VISTA DE UM PALHAÇO
Heinrich Böll

Tradução:Paulo Soethe
312p., 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-145-6
R$ 43,00

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A obra

Trata-se da segunda obra de Heinrich Böll, Prêmio Nobel de 1972, publicada pela Estação Liberdade, depois de O anjo silencioso em 2004, obra que teve de esperar o falecimento do autor para ver a luz do dia, por mexer em feridas ainda muito abertas da Alemanha pós-guerra. Böll é autor de importância capital, junto com Günther Grass (outro Prêmio Nobel) e Peter Handke, para a formação de uma literatura coesa de língua alemã numa época de consolidação do país. No caso da presente obra, a Alemanha retratada é outra. Roída por conflitos ideológicos, sofrendo ocupação e influência das potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial, rasgada ao meio por querelas entre protestantes e católicos (quando lançada, a obra suscitou uma polêmica nacional sobre a Igreja católica alemã que durou meses), em crise consigo mesma em todas as esferas, socialmente reprimida e cerceada. É nesse cenário desolador, campo fértil para prosadores hábeis, que se move Hans Schnier, personagem irreverente e irrequieto, prestes a vender sua alma de palhaço profissional e um tanto mefistofélico para poder manter sua condição errante. Persistente, soltando verdades que doem embora não seja nenhum bobo de corte, Schnier renega sua família da alta burguesia industrial e, como a imitar um ato extremo de pantomima, parte com os meios de bordo em busca da reconquista algo quixotesca do amor de sua vida.

Abandonado pela mulher, Marie, em decorrência da situação pouco sólida de sua relação e de seus conflitos de natureza religiosa, o palhaço Hans Schnier procura tê-la de volta a qualquer custo. Nesse percurso de retorno à cidade de Bonn e na tentativa de estabelecer novamente o contato que foi bruscamente cortado por Marie, Schnier alterna momentos de depressão e angústia com suas lembranças, desde a infância até o final do relacionamento amoroso. Esse processo de ida e vinda, passado e presente, permite que o leitor vá reunindo as peças que compõem a história e a personalidade complexa do personagem. Narrado em primeira pessoa, o texto apresenta a perspectiva amargurada e por vezes violenta de Schnier, permitindo uma maior liberdade interpretativa ao leitor e assegurando, se não a fidelidade deste aos pontos de vista do personagem, certamente sua permanência até a última linha.

Obra marcante por seu humanismo crítico, foi adaptada diversas vezes para o teatro, e em 1976 para o cinema, em bela versão do tchecoslovaco Vojtech Jasny e do próprio autor, com Helmut Griem e Hanna Schygulla nos papéis principais.

Trechos

“À noite, quando fazia silêncio por meia hora, ainda assim se ouviam pés em marcha: prisioneiros de guerra italianos (explicaram na escola por que os italianos deixaram de ser aliados e passaram a trabalhar como prisioneiros, mas até hoje não entendi direito), prisioneiros de guerra russos, mulheres prisioneiras, soldados alemães; a noite inteira, pés em marcha. Ninguém sabia bem o que se passava.” (p. 28)

“E eu disse você tem razão, de fato eu faria tudo aquilo por preguiça, e porque gostaria de tê-la a vida toda a meu lado, até me tornaria católico, se necessário, para ficar com ela. Acabei sendo patético e disse que uma expressão como ‘princípios abstratos que garantem a ordem’ evocava em mim a imagem de uma câmara de tortura. Ela se ofendeu com a idéia de que eu, para ficar com ela, até quisesse me tornar católico.” (pp. 90-91)

“— Deixe de ser ridículo, Schnier, não estamos mais Idade Média.
 — Pois preferiria que estivéssemos, aí ela poderia ser minha concubina, sem crise de consciência. Bem, ela ainda voltar para mim.
 — Eu não teria tanta certeza, Schnier — disse Kinkel. É pena que lhe falte o sentido para a metafísica.” (p. 113)

“Também entendi melhor, por exemplo, por que a senhora Wieneken ficava vermelha e sem jeito quando voltávamos do cinema para comer batata. Mais tarde, quando o marido se tornou zelador do ginásio de esportes, as coisas mudaram, acho que ele ficava mais em casa. Quando menino, eu notava apenas que ela se sentia pouco à vontade, e só depois entendi por quê. Mas em um apartamento de um só cômodo e cozinha, com três crianças... eles não tinham escolha.” (p. 200)

“Tive a intenção de viajar a Roma e também pedir uma audiência ao papa. Havia muito nele das características de um palhaço idoso e sábio, e afinal a figura de arlequim surgira em Bérgamo; iria confirmar essa informação com Genneholm, que tudo sabe. Eu iria explicar ao papa que meu casamento com Marie só fracassou mesmo por causa do matrimônio civil e lhe pediria que visse em mim uma espécie de Henrique VIII ao inverso: ele era polígamo e tinha fé, eu sou monógamo e descrente.” (p. 221)