PAPEL-MÁQUINA
Jacques Derrida

Tradução de Evando Nascimento
Revisão técnica: Anamaria Skinner
360 p. | 16 x 23 cm
ISBN: 85-7448-096-7
R$ 48,00

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A obra

Interessado em refletir e questionar temas ligados à contemporaneidade, Jacques Derrida trata, neste livro, de novas tecnologias, suportes e instrumentos para o texto. Fala também da geopolítica internacional, de sua terra natal, a Argélia, bem como mergulha em Sartre e na revista Les Temps Modernes, aplica sua estratégia de desconstrução no texto de De Man para depurar a questão da culpa e do perdão e reduz o texto impresso a sua mais desmembrada partícula.

Os textos, dois ensaios longos e uma coletânea de artigos para jornais, entrevistas, conferências e cartas, são nas palavras de Derrida “uma resposta a um convite, a uma pergunta, a uma inquirição”. O título Papel-Máquina já aponta um lugar. Para além de ser o objeto-papel usado para a escrita na máquina de escrever, ele é o significante – suporte de interpretações e indagações várias: do lugar das tecnologias ao papel da subjetividade na contemporaneidade; da virtualidade às marcas e às margens da escrita; da globalização às estratégias de exclusão explicitadas na figura dos sem-documentos, dos sem-papéis.

O papel, o traço, o rasgo. O “devir papelada”. Leituras sobre leituras: da desconstrução e remontagem de um poema de Mallarmé às confissões de Agostinho e Rousseau, lidas por De Man que, por sua vez, é relido por Derrida. O espaço de resistência provocado no filósofo pelas páginas de Heidegger; o engajamento filosófico e político de Sartre entrevisto por meio de uma saudação a Les Temps Modernes; o próprio posicionamento político de Derrida explicitado em cartas ao Presidente Clinton contra a pena de morte e ao ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, seu companheiro na Sorbonne, em favor de José Rainha e dos sem-teto... Enfim, releituras de filósofos tocados pela literatura ou mesmo de escritores que elaboraram algum tipo de pensamento teórico-crítico como é o caso de Gide e Camus.

 

Trechos

“Comecei por escrever a caneta, permanecendo-lhe fiel por muito tempo (deve-se falar aqui de fé) e transcrevendo apenas as ‘versões finais’ à máquina, no momento da separação. A máquina continua sendo um sinal de separação, de privação, a instância da emancipação e da partida em direção ao espaço público. Em relação aos textos que me importavam, pelos quais nutria o sentimento um tanto religioso de ‘escrever’, eu bania até mesmo a caneta. Mergulhava na tinta uma longa pluma, a ponta ligeiramente curva de uma certa pena de desenhar, multiplicando rascunhos e versões preliminares, antes de interrompê-los e fixá-los em minha primeira Olivetti de teclado internacional, adquirida no exterior. Até hoje a tenho comigo.” (Papel-máquina, p. 140)

“Com o computador, tudo é tão rápido e fácil que se está disposto a acreditar que a revisão pode ser indefinida. Uma revisão interminável, uma análise infinita já se anuncia, como mantida em reserva por trás da análise finita de tudo o que aparece na tela. Em todo caso, ela pode se prolongar de maneira mais intensa no mesmo tempo. Nesse mesmo tempo, não se conserva mais o menor rastro visível ou objetivo das correções do dia anterior. Tudo, o passado e o presente, pode ser trancafiado, anulado ou encriptado para sempre. Anteriormente, as rasuras e as emendas deixavam uma espécie de cicatriz no papel ou uma imagem visível na memória. Havia uma resistência do tempo, uma densidade na duração da rasura.” (Papel-máquina, p. 144)

“De Pascal, Descartes, Leibniz a Heidegger, passando por Hegel, os filósofos têm provavelmente meditado sobre a máquina de calcular, a máquina de pensar, a máquina de traduzir, a formalização em geral, etc. Mas como teriam interpretado uma cultura que tende, dessa maneira, a ser dominada, em seu próprio cotidiano, e através de todo o universo, por tais dispositivos técnicos de inscrição e de arquivamento? Porque esse é o caso de tudo, das relações do pensamento à “imagem”, à linguagem, à idéia, ao arquivamento, ao simulacro, à representação.” (Papel-máquina, p. 150-1)

“Tentarei, portanto, dizer-lhes concisamente como entendo alguns trechos decisivos do Apelo. Farei isso de maneira seca e analítica, para ganhar tempo, mas também para não ceder a uma tentação que sinto e que alguns poderiam julgar sentimental: a tentação de fazer da demonstração um testemunho sensível ou patético, e de explicar por que razão tudo o que vou dizer me foi inspirado, antes e depois de tudo, por um amor doloroso pela Argélia, por uma Argélia em que nasci, que apenas deixei, literalmente, pela primeira vez, aos 19 anos, antes da guerra da Independência, por uma Argélia aonde muitas vezes voltei e que, no fundo, sei nunca ter verdadeiramente deixado de habitar ou de carregar em meu íntimo...” (A favor da Argélia, p. 201)

“Por mais um certo tempo, um tempo difícil de mensurar, o papel continuará detendo, portanto, a sacralidade do poder. Ele tem força de lei, habilita, incorpora, encarna mesmo a alma da lei, sua letra e seu espírito.” (O Papel ou Eu, os Senhores Sabem..., p. 237)

“[...] Esta é talvez a primeira violência sofrida pelo estrangeiro: ter que fazer valer seus direitos numa língua que ele não fala. Suspender essa violência é quase impossível, uma tarefa interminável em todo caso. Mais uma razão para se trabalhar com urgência a fim de transformar as coisas. Um imenso e temível dever de tradução se impõe aqui, o qual não é apenas pedagógico, “lingüístico”, doméstico e nacional (formar o estrangeiro na língua e na cultura nacionais, por exemplo, na tradição laica ou republicana). Isso passa por uma transformação do direito, das línguas do direito. Por mais obscuro e doloroso que seja, o progresso está em via de acontecer. Ele diz respeito à história e aos axiomas mais fundamentais do direito internacional.” (O princípio da hospitalidade, p. 251)

“De qualquer maneira, agora não creio mais saber, creio poder dizer o seguinte com toda certeza: o processo [a José Rainha] é também um processo político. Para além da sorte de um homem, ele será interpretado, em todo lugar do mundo, como um símbolo de grande alcance. Que diz respeito ao Brasil e ao que está acontecendo no mundo da “globalização”. [...]
Eis aquilo em que creio e o que creio que diria ao presidente Cardoso se me atrevesse (mas atrevo-me, pois) dirigir-me a ele de maneira tão familiar, como àquele universitário e àquele colega francês (que ele também foi), cuja chegada ao poder suscitou tão belas esperanças.” (A favor de José Rainha, p. 303)

“Quando vou ensinar clandestinamente e caio prisioneiro na Tchecoslováquia comunista, quando milito contra o apartheid ou pela liberação de Mandela, contra a pena de morte, por Mumia Abu-Jamal, ou participando na fundação do Parlamento Internacional dos Escritores, quando escrevo o que escrevo sobre Marx, sobre a hospitalidade ou os “sem-documento”, sobre o perdão, o testemunho, o segredo, a soberania, bem como quando lanço, nos anos 1970, o movimento do Greph e os Estados Gerais da Filosofia, contribuindo em seguida para a criação do Colégio Internacional de Filosofia, atrevo-me a pensar que essas formas de engajamento, os discursos que as sustentavam estavam em si mesmos de acordo (e nem sempre é fácil) com o trabalho de desconstrução em curso. Obtendo êxito de maneira irregular, mas nunca o bastante, tentei, portanto, ajustar um discurso ou uma prática política às exigências da desconstrução. Não sinto um divórcio entre meus escritos e meus engajamentos, apenas diferenças de ritmo, de modo de discurso, de contexto, etc. Sou mais sensível à continuidade do que ao que alguns chamam, no exterior, de “political turn” ou de “ethical turn” da desconstrução.” (“Outrem é secreto porque é outro”, p. 348)




A filosofia moral de Derrida
Jornal do Brasil, Caderno B, 17/8/2004

Jacques sem fatalismos
Evando Nascimento, Folha de S. Paulo, Mais!, 15/8/2004

Derrida abre encontro no Rio e lança dois livros
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 15/8/2004

O pensador sem fronteiras
Luciano Trigo, O Globo, Prosa & Verso, 14/8/2004