Viagem à roda do meu quarto

O PARAÍSO DAS DAMAS
Émile Zola

Tradução: Joana Canêdo
504p., 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-147-0
R$ 63,60

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A obra

Neste romance de amor e aventuras comerciais, Zola descreve como uma fotografia a efervescente Paris de meados do século XIX. É a cidade das luzes, no século das luzes, em todo o seu esplendor, mas também em sua miséria.
Denise é uma pobre órfã que precisa enfrentar uma (para ela e tantas outras recém-chegadas da província) terrível Paris. Dividida entre as maravilhas da grande loja de Octave Mouret — uma impressionante loja de departamentos que se expande a ponto de ocupar todo um quarteirão — e a tradição decadente da lojinha familiar, Denise vive e sofre as vicissitudes da miséria na grande cidade. Finalmente bem empregada no Paraíso das Damas, que está prestes a arruinar o antigo comércio de seu tio Baudu, a vida da moça melhora aos poucos, e estreitam-se suas relações com o rico patrão.
A história de amor entre a empregadinha do comércio e o grande empresário funciona como um alinhavo descontraído para investigar temas contemporâneos. São principalmente as mudanças econômicas do século e o nascimento da sociedade de consumo. Mas Zola tem um interesse particular pelas inovações nas áreas de urbanismo e arquitetura: é a época da grande reurbanização de Paris pelo Barão Haussmann, e do início do emprego de novas técnicas e materiais de construção — o ferro aparente da torre Eiffel é o mesmo que será usado no interior das lojas de departamentos. E como bom naturalista, o autor não deixaria de lado as idéias ligadas ao darwinismo, segundo às quais os mais fortes vencem.
Tendo como pano de fundo a ascensão das lojas de departamentos, que aos poucos foram ganhando força diante das pequenas lojas de bairro, o livro parece muitas vezes atual. Numa época em que a grande distribuição só estava no começo, os princípios de marketing e de publicidade utilizados pelo empresário protagonista se assemelham bastante às técnicas de que se servem hoje supermercados e shopping centers: vitrines vistosas, mudanças periódicas da disposição dos produtos, organização espacial tipo labirinto para “perder” as clientes, remarcação de preços e promoções, publicidade em mídias diversas — jornais, cartazes, mas também balões e carroças.
Décimo primeiro livro da saga de vinte volumes escrita por Zola de 1871 a 1893 — os Rougons-Macquarts, da qual Germinal também é parte integrante —, O Paraíso das Damas retoma personagens de outros livros, evoca temas recorrentes de Zola, além de reproduzir as mesmas descrições cuidadosas, fundadas em imensos trabalhos de pesquisa, que caracterizam a obra do grande autor naturalista. Como em Germinal, o aspecto social é bastante valorizado, e a vida das trabalhadoras do novo comércio é descrita de maneira análoga àquela dos mineiros do célebre romance. Para elaborar o Paraíso, Zola entrevistou funcionários das lojas Le Bon Marché e Louvre, elaborou planos das seções por andar, visitou os quartos dos vendedores, informou-se sobre as técnicas de venda, etc.
O que diferencia no entanto esta obra das demais de Zola é o seu tom positivo. O autor de fato afirma em seu dossiê preparatório para o romance: “Quero fazer o poema da atividade moderna. Portanto, transformação completa de filosofia: nada de pessimismo, para começar, não concluir com a idiotice e a melancolia da vida, concluir ao contrário com a labuta contínua, com o poder e a alegria da criação. Em uma palavra, acompanhar o século, expressar o século, que é um século de ação e de conquista, de esforços em todos os sentidos. Em seguida, como conseqüência, mostrar a festa da ação e o prazer da existência; certamente existem pessoas felizes com a vida, cujos prazeres não se esgotam e que se enchem de felicidade e de sucesso: são essas pessoas que eu quero retratar, para mostrar a outra face da verdade, e para assim ser completo.”
(texto de orelha de Joana Canêdo)

 

Trechos

“Primeiramente, era a potência decuplicada do acúmulo, todas as mercadorias amontoadas em um ponto, sustentando-se e se empurrando, nenhuma folga. Os artigos da estação estavam sempre disponíveis. E a cliente era fisgada de seção em seção, comprando um pedaço de tecido aqui, mais longe um rolo de linha, adiante uma sobrecasaca; ela se vestia, depois se via diante de encontros imprevistos, e ia assim cedendo à necessidade do inútil e do belo.”
(p. 110)

“Nessa ocasião, o bairro todo só falava da grande avenida que ia ser aberta da nova Ópera até a Bolsa, e que se chamaria rua do Dix-Décembre. Os processos de expropriação tinham sido concluídos, duas equipes de demolidores já atacavam a passagem dos dois lados, uma abatendo os velhos casarões da rua Louis-le-Grand, a outra derrubando os muros leves do antigo Vaudeville. Ouviam-se as picaretas aproximando-se inelutavelmente; a rua de Choisel e a de la Michodière discutiam com paixão o destino das casas condenadas. Antes de quinze dias, a grande derrubada iria substituí-las por um formidável entalhe, cheio de sol e de estardalhaço.” (p. 255)

“Ela teimava em não entender. A porta continuava aberta, e ela sentia a loja inteira impelindo-a a aceitar. Pauline a tratara amigavelmente de tola, as outras zombariam dela se recusasse o convite. A senhora Aurélie, que saíra da sala, Marguerite, cuja voz ela ouvia atravessar o ar, o imóvel e discreto Lhomme, cujas costas ela avistava, todos queriam sua queda, todos a abandonavam ao leão. E o ronco distante do inventário, esses milhões de mercadorias, gritados ao vento, remexidos por todos os lados, eram como um hálito quente que insuflava sua paixão.” (p. 349)

“— Não, deixe-me… Não sou uma Clara que podem largar no dia seguinte. E, depois, o senhor ama alguém sim, mas é aquela senhora que vem sempre aqui… Fique com ela. Eu não compartilho.
A surpresa o imobilizou. O que ela estava dizendo e o que queria? As moças apanhadas por ele nas seções nunca se preocuparam em ser amadas. Era risível, porém essa atitude de orgulho delicado transtornava seu coração.” (p. 351-352)