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DESCAMINHOS 104 p. | 14 x 21 cm |
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Três contos. Três vezes o clima feérico de Paraty, aqui como imagem de um país em gestação. Mais precisamente, o Caminho do Ouro, a antiga estrada pela qual chegavam das Minas Gerais ao litoral as riquezas que o Brasil exportava, metáfora de um longo (des)caminho de um belo sonho que teima em azedar.
Uma vez o século XVII e o belo e puro namoro de um casal de jovens índios em paisagem intocada — o relato do primeiro encontro da tribo com viajantes europeus é soberbo. Uma vez o século XVIII e um encontro amoroso que parece que nunca vai acontecer, entre uma moça de Minas indo para Portugal e um jovem português viajando em sentido contrário. E uma vez o século XIX, com o encontro de uma negra filha de Ossain com um escravo africano à beira da morte, enviados para as fazendas dos barões de café do Vale do Paraíba e que dão um belo nó no destino que lhes era reservado.
As três estórias, como o autor faz questão de escrever, se entrelaçam com uma pureza que parece sair diretamente dos riachos e cachoeiras que as transportam através dos séculos. A narrativa é tão precisa, o tom tão justo, que só pode vir de alguém que fez da arte de contar a obra de sua vida. Não surpreende portanto termos por trás delas Marcos Caetano Ribas, o fundador do Grupo Contadores de Estórias e do Teatro Espaço, de onde têm saído, de Paraty para o mundo, a maneira mais bela, mais sincera, e mais poética certamente, de contar as estórias e história dos povos que formaram o Brasil. E frente a tamanho talento vindo de uma tradição ao largo do escrito — nem de oralidade se trata, pois os Contadores de Estórias o fazem sem palavras — como ficamos nós, editores, viciados em palavras e coisas impressas? Sem dúvida um grande descaminho o nosso frente a uma arte tão jovial, tão eficiente também — que o digam as repetidas turnês de Marcos, Rachel e Inez pelo Brasil e pelo exterior. Justamente porque talvez não passe pelas palavras a melhor maneira de atingir os sentimentos das pessoas, e que cabe a nós, aqui, como editores, um mero — e quão prazeroso — papel de intermediários registradores.
Trechos
"O começo até que foi tranqüilo. Chegaram alguns portugueses
neste lugar tão bonito, cheio de tantas nações.
Depois foi ficando estranho. Uns olharam os outros e ninguém entendeu
nada. Uns foram comidos, outros escravizados, uma confusão.
Puseram de início um nome: Vera Cruz, depois Santa Cruz.
Oras, nome pouco feliz! Lembrança, homenagem, sei lá, a um castigo
danado." (p. 11)
"No princípio era Kukuhi.
Kukuhi Pequeno, apaixonado por Nudá. Nudá bonita, cunhã
bonita, Nudá. Cheirosa. Muito.
Chegou pra ele de tarde, ontem de tarde, e chamou ali num cantinho, perto do
rio, ver uma coisa.
Mas tinha coisa, dava pra ver que tinha coisa. Um jeito matreiro, cheio de manha,
de chamar daquele! Tinha coisa, só podia ter. E tinha.
Sentaram no chão, ela bem pertinho e ele com vergonha. Nudá se
encostando e o coração queria pular para fora e batia e batia.
E... pegou e beijou e cheirou. Cheiro bom danado." (p. 15)
"Sempre andar, sempre andar. O corpo esfolado. Sempre andar, sempre andar. Cada chicotada uma linha traçada. Sempre andar, sempre andar. A fome apertada, a cabeça virada. Andar devagar, mas andar, sempre andar. As pernas dormentes, as juntas travadas, a dor renitente. Sempre andar, sempre andar. Cada vez, cada passo, cada dor, sofrimento. É andar, sempre andar. É o preto ou o branco, qualquer cor, que importa. O coração é vermelho!" (p. 81)
Marcos Caetano Ribas e o Grupo Contadores de Estória na imprensa
"É uma metáfora sobre as oportunidades que deixamos passar,
sobre os caminhos que surgem e, por alguma circunstância, não são
seguidos. São coisas que poderiam ter sido e não foram."
Marcos Caetano Ribas, em Jornal do Brasil (Caderno B), 21/6/2001
"Bonecos de corpo e alma - Grupo Contadores de Estórias
faz 30 anos e estréia Descaminhos em Paraty
Descaminhos é inspirado na pesquisa de três anos que Ribas
desenvolveu sobre o 'caminho do ouro' que ligava Paraty a Diamantina no século
18.
A internacionalização que está na gênese da carreira
— é sintomático que tudo tenha começado em Nova York
(...) - atingiu o ponto alto em 1991, quando o grupo apresentou Maturando
no Next Wave (NY), um dos principais festivais de vanguarda mundial nas artes
cênicas..."
Folha de S. Paulo (Folha Ilustrada), 21/6/2001
"Uma história fabulosa de sucesso - Crítico do New York
Times viu uma apresentação do grupo e recomendou ao mundo
A partir de Paraty, ganharam o mundo. Foram anos viajando por festivais da Europa,
dos Estados Unidos e da América Latina, sedimentando uma carreira premiada
nacional e internacionalmente.
É rara a documentação existente (sobre o Caminho do Ouro),
porque na época a coroa portuguesa mantinha sigilo sobre o assunto, por
temer a invasão de franceses e holandeses...
O Estado de S. Paulo (Caderno 2), 21/6/2001
"Contadores de Estórias evitam ilusionismo em nome da delicadeza
- Retrato singelo de inteligência e prazer"
Barbara Heliodora, O Globo (Segundo Caderno), 10/5/1998
"No fim da peça muda, fica-se com a estranha impressão de
que os bonecos miniaturas são mais 'humanos' do que os humanos que deslizam
para dentro e para fora dos respectivos papéis"
New York Times, 17/10/1991
"O casal Ribas faz surgir o milagre de uma fascinante inocência.
(...) Eis que, por uma hora, você está no paraíso reencontrado,
mas o que importa é a miragem (...)"
L'Express (Paris), 23/12/1983
"Os gestos ficam gravados na memória. Pois são sutis e penetrantes
ao mesmo tempo."
Süddeutsche Zeitung (Munique), 16-17/6/1983