PEREGRINAÇÕES
Jean-François Lyotard

Tradução de Marina Appenzeller
112 p., 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-009-6
R$ 25,00

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Em vez de memórias, que o filósofo e ensaísta francês partiu sem nos deixar, temos aqui um importante testemunho literário, estético, ético e político; um pequeno, mas vibrante, balanço intelectual para a posteridade.

"Declaramo-nos filósofos ou escritores, devemos nos confessar impostores. Não existe pensar verdadeiro que o sentido de sua indignidade não escolte. A única maneira de sair desse atoleiro, pelo menos em parte, é exibir o inelutável. (...) De modo que o que ameaça o trabalho de pensar (ou de escrever) não é ele permanecer episódico, é ele fingir-se completo."
Jean-François Lyotard (p. 21)

 

Sobre o livro

Convidado para expor sua visão do ato de escrever e do que entendia por teoria crítica nas famosas Wellek Library Lectures da Universidade da Califórnia, em Irvine, acompanhamos aqui um Jean-François Lyotard chegando à conclusão que é um exercício vão querer fazê-lo, algo como a quadratura do círculo.

O que ganhamos com esta obra, no fim, são cerca de cinqüenta anos de caminhos e descaminhos entre literatura, estética, ética e engajamento político. Lyotard discorre sobre o juízo do gosto em Kant, estabelece um paralelo entre este e Cézanne, "a pureza do sentimento estético", enveredando pela ótica da independência do sentimento estético em relação ao conceito e ao interesse (a passividade sem páthos do artista, "exatamente o contrário da atividade controladora do espírito"). Aborda Hegel, Nietzsche, Heidegger, Wittgenstein, Lacan, alicerces irremovíveis. Marca também sua posição frente ao reino das letras - por meio de Hölderlin, marca indelével, Claude Simon, Peter Handke.

O grande confronto não é apenas filosófico, mas político também (é o não a continuação da mesma coisa?). Debruça-se sobre as décadas de militância, os embates com o stalinismo; Rosa Luxemburgo, Trotski, Lênin, são comentados pelo viés de um longo embate com seu colega mais "ortodoxo" do grupo Socialismo e Barbárie. Memorial de tempos revolutos, singela homenagem também a um companheiro revolucionário que tomara outros rumos - mas na verdade era o século, "o grande século do marxismo", que tomava outros rumos. E o que resta, no fundo, é um brado à amizade, à divergência na amizade, uma peregrinação humanista.

 

Trechos

"Ainda tenho idade para ser filho quando me vejo marido e pai. Obrigado, portanto, a garantir o sustento de uma família sem tergiversar. Como vocês estão vendo, um pouco tarde para me tornar monge. Do ponto de vista da arte, uma incômoda ausência de talento decide por mim. E a história desestimula minha memória miserável. Eis-me então professor de filosofia." (p. 13)

"Lembro-me do seguinte. Um representante da União dos Escritores Soviéticos pergunta a Claude Simon: 'O que é escrever para você?', Simon responde: 'Tentar começar uma frase, continuá-la e acabá-la.' Isso é coisa de monge. O trabalho de escrita entra na linguagem bem pelo seu meio para ali ensinar-lhe o idioma que lhe é necessário. Por meio da pretensa destinação da escrita, escrever é apenas buscar, intransitivo. Não haveria qualquer necessidade, qualquer pedido para escrever a menor frase, e nenhum Deus para dirigir ao escritor a menor prescrição de escrever uma frase - restaria a necessidade de começar, continuar e terminar frases." (p. 16)

"O gosto puro, a apreensão e a apreciação das formas por um sentimento de prazer ou de dor só forneceriam ao inconsciente oportunidades de lograr o espírito. Acreditei, diante dessa conclusão perigosa, que era necessário fazer algo para reservar um lugar à beleza e ao sentimento, a despeito do privilégio imperial de que o conceito gozava no pensamento lacaniano." (p. 25)

"O monge que eu tentava ser deveria ter se lembrado de que o paganismo polimorfo, a investigação e a exploração de todas as formas possíveis de intensidade poderiam resvalar com facilidade em uma permissividade sem lei e suscitar violência e terror. Decididamente, eu ainda não estava protegido- dos encantos da indiferença." (p. 30)

"A questão, para a arte, hoje, é saber se pode, por meio de sínteses programadas, inventar 'formas' que lhe eram desconhecidas e proibidas quando estava em contato direto com a 'natureza'. Aspas, porque a idéia de uma natureza não tem, a partir de então, consistência, nem mesmo objeto. O que termina com ela não é a arte, é a estética. Resta à arte e, portanto, também ao pensamento, encontrar outros caminhos para alcançar outras nuvens." (p. 70)

"Acho que nossa desavença (com seu colega de lutas Souyri) tem uma certa importância para o entendimento do presente. Não foi apenas pessoal, tampouco somente conceitual. O desafio parecia ser saber se 'com' o marxismo e com qual marxismo seria possível continuar compreendendo e transformando o novo curso do mundo após o final da Segunda Guerra Mundial. Era possível debatê-lo, e muitas vezes foi esse o caso em nosso grupo e entre nós. Mas em que língua deveríamos debatê-lo e em que língua o resolveríamos?" (p. 80)

"Para Souyri, ou seja, para mim quando tentava falar de mim na língua de Souyri, as coisas estavam claras, eu tornava a ser o que tentara em vão deixar de ser, um bom intelectual pequeno-burguês reconstruindo em sua cabeça pela milésima vez um inútil palácio de idéias e que não acreditava se emancipar da lógica dialética senão para cair mais infalivelmente ainda no ecletismo." (p. 82)