POESIA EXPRESSIONISTA ALEMÃ
Claudia Cavalcanti (Org.)

232 p., 16 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-031-2
ISBN-13: 978-85-7448-031-2
R$ 41,00

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Poemas de Johannes R. Becher, Gottfried Benn, Albert Ehrenstein, Iwan Goll, Walter Hasenclever, Georg Heym, Jakob van Hoddis, Wilhelm Klemm, Else Lasker-Schüler, Alfred Lichtenstein, Ludwig Rubiner, René Schickele, Ernst Stadler, August Stramm, Georg Trakl e Franz Werfel. Com gravuras de Max Beckmann, George Grosz, Lyonel Feininger, Ernst Ludwig Kirchner, Max Pechstein, Karl-Schmidt Rottluff, Lasar Segall, entre outros.

No contexto de um ressurgimento de interesse pelo expressionismo no Brasil, a Estação Liberdade lança esta antologia de poesia expressionista alemã organizada pela tradutora e germanista Claudia Cavalcanti. Não data de hoje o fascínio exercido por este movimento artístico primordial do século XX no Brasil, mas só agora pode-se dizer que há uma certa agitação em torno dele, para o que certamente contribuirá a grande exposição de artistas plásticos do expressionismo no Rio de Janeiro e (com inauguração em 10 de outubro) em São Paulo. Assim como contribuiu também a herança expressionista do período alemão do pintor Lasar Segall, entre outros.

Decidimos inserir gravuras de alguns dos principais artistas expressionistas da época, de modo não somente a abrilhantar o meticuloso trabalho da organizadora, mas sobretudo para permitir que se tenha uma idéia da riqueza das artes plásticas no período correspondente.

Expressionismo: movimento coeso, feérico, efusivo, voluntarioso, mantendo aí alguma continuidade com o romantismo alemão. Principalmente como tradução de sentimentos rebeldes contra uma Alemanha arcaica, enrijecida, sofrendo ainda as conseqüências de uma revolução industrial muito tardia e de estruturas política e econômica instáveis.

Os poemas refletem claramente essa situação: um lirismo acentuado os permeia, mas aquele lirismo do engajamento, de tempos incertos. Poemas de amor também, mas carregados e muitas vezes sombrios - grande parte deles escritos logo antes ou durante a Primeira Guerra Mundial - um cadafalso para um movimento expressionista cosmopolita por excelência, e que não se recuperaria da grave ferida a entalhar a Europa e a colocar irmãos das letras em campos opostos.

Tempos sombrios, portanto: dos 16 poetas selecionados por Claudia Cavalcanti, três morreram em combate (Lichtenstein, Stadler e Stramm), dois cometeram suicídio (Hasenclever e Trakl), van Hoddis morreu em campo de concentração, Heym afogou-se, Rubiner foi vitimado pela pneumonia. O legado de uma geração tão conturbada certamente demandaria mais tempo para ser avaliado. Mas hoje não restam dúvidas sobre a fundamental contribuição do expressionismo literário, artístico, teatral, musical e cinematográfico para as artes do século XX.

 

Do prefácio

“(...) O que seria essa novidade inaudita, que se impõe (em Trakl) e nos outros escritores reunidos neste volume (bem como nas obras dos pintores Kandinsky, Kirchner, Macke, Marc, Schmidt-Rottluff, Lasar Segall ou dos compositores Schönberg, Bartók e Berg)? E por que o tom ali produzido nos continua tão próximo, por que aquele estado de espírito segue nos comovendo tanto?

Dois pontos de referência opostos do expressionismo parecem-me importantes para localizar esse tom. De um lado, a postura antinaturalista – Gottfried Benn disse, mais tarde, num ensaio em que atacava os nazistas e defendia os expressionistas, que para estes não haveria mais nenhuma realidade, mas somente seu trejeito, na forma de funções. De outro lado, a crítica veemente ao impressionismo, que o antecedera, o qual de modo puramente retrógrado punha em primeiro plano valores sentimentais estéticos. (...)

É a subjetividade radical e a discordância em relação à realidade existente que nos liga hoje aos expressionistas de então.”

Dr. Bruno Fischli, Diretor do Instituto Goethe São Paulo

 

Poemas

O visiotário
Jakob van Hoddis
(1918)

Lâmpada, não esquente.
Da parede saiu um braço magro de mulher.
Era pálido e tinha veias azuis.
Os dedos estavam carregados de preciosos anéis.
Quando beijei a mão, assustei-me:
Estava viva e quente.
Arranhou-me o rosto.
Peguei uma faca de cozinha e cortei algumas veias.
Um grande gato lambeu graciosamente o sangue do chão.
Entretanto um homem de cabelos arrepiados subiu
Por um cabo da vassoura encostado à parede.

Programa
Wilhelm Klemm
(1915)

Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?