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PROMESSA AO AMANHECER Tradução: Mauro Pinheiro |
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A obra
Sobre Promessa ao amanhecer, há certa unanimidade em se dizer que é uma das mais belas narrativas sentimentais da literatura moderna, além de ser um pequeno épico de bravura, solidariedade e camaradagem. Ao mesmo tempo, constitui um recorte dos vários dramas superpostos a assolar a Europa na primeira parte do século XX. O protagonista-narrador, na verdade o próprio Romain Gary, é sujeito de uma história de vida única, atirado pelos ventos do destino entre meia dúzia de países.
Relato autobiográfico, romance de amor, livro de guerra e narrativa de viagens, essa convergência de estilos com cruzamento temático nos verte uma obra de singela riqueza e fascinante leitura.
Instalado em seu refúgio da costa californiana, Gary debruça-se na idade madura sobre suas lembranças da infância na Lituânia à época russa, sua juventude numa Varsóvia de destino incerto, sua chegada na França em companhia de uma mãe tão memorável quanto quixotesca, sua carreira na aviação militar. Aí os relatos são pungentes e memoráveis, como quando seu avião é forçado a pousar sem piloto, pois este perdeu a vista ao ser atingido. Então não apenas tudo aqui se inicia e termina com certa promessa feita ao amanhecer, como perde-se o fôlego com suas conseqüências.
Promessa ao amanhecer talvez seja a obra mais afamada de Romain Gary devido a sua filmagem por Jules Dassin, com Gary sendo interpretado por vários autores e Melina Mercouri como a mãe, mas o autor, paralelamente a seus jogos de identidades múltiplas e despistes, resquícios tanto de uma infância de mutações quanto de seus anos de combate, se destacou em toda sua obra como um sagaz polemista que atira, inclusive literalmente, contra toda e qualquer ignomínia política, literária ou cultural, reivindicando para si a linhagem do romance picaresco, em contraposição ao nouveau roman tão em voga à época.
Trechos
“Certa noite, perto de uma hora, imaginando minha pobre Brigitte chorando à cabeceira da moribunda, não consegui me segurar e me dirigi ao Hôtel des Grands Hommes. Chovia. A porta do hotel estava fechada. Fiquei sob o pórtico da Faculdade de Direito, olhando com ansiedade para a fachada do prédio. De repente, uma janela se iluminou no quarto andar e Brigitte apareceu na varanda, os cabelos soltos. Ela vestia um roupão de homem e ficou por um momento imóvel, o rosto oferecido à chuva. Eu estranhei um pouco. Não entendia o que podia estar fazendo lá, com aquele roupão de homem, os cabelos soltos. Talvez tivesse sido surpreendida pela chuva e o marido da senhora sueca lhe emprestara seu roupão, enquanto sua roupa secava. Um homem jovem, de pijama, apareceu de repente na varanda e se colocou ao lado de Brigitte. Então, fiquei realmente surpreso. Eu não sabia que a senhora sueca tinha um filho. Foi aí que a Terra se abriu de repente sob meus pés, que a Faculdade de Direito caiu-me sobre a cabeça e que o inferno e a abominação partilharam meu coração: o moço enlaçou a cintura de Brigitte, e minha última esperança — ela talvez tivesse simplesmente entrado no quarto vizinho para recarregar sua caneta tinteiro — sumiu de vez.” (p. 203)
“Fiz aulas de tiro e umas cinqüenta horas de vôo em Alpilles, graças à amizade de dois camaradas, o sargento Christ e o sargento Blaise. Finalmente, alguém em algum lugar percebeu que eu tinha um brevê e fui nomeado instrutor de tiro aéreo. Foi quando a guerra me surpreendeu, com suas metralhadoras carregadas, apontadas contra o céu. A idéia de que a França pudesse perder a guerra jamais me ocorreu. A vida de minha mãe não podia acabar numa derrota como aquela. Esse raciocínio bastante lógico me inspirou mais confiança na vitória das Forças Armadas francesas do que todas as linhas Maginot e todos os discursos estridentes de nossos chefes bem-amados. Minha chefe bem-amada não podia perder a guerra, e eu tinha certeza de que o destino lhe reservava a vitória como algo que, após tanta luta, tanto sacrifício, tanto heroísmo, aconteceria naturalmente.” (p. 226)
“Devíamos fazer um ensaio, para nos familiarizar com os instrumentos, pousar, deixar os mecânicos na pista e decolar novamente, rumo à Inglaterra. De Gaches nos fez um sinal do avião, e começamos a afivelar nossos pára-quedas. Belle-Gueule e Jean-Pierre subiram primeiro: eu tinha dificuldades com meu cinto. Já colocava um pé na escada, quando vi se aproximar, em minha direção, a silhueta de uma bicicleta, com alguém pedalando a toda velocidade e gesticulando. Esperei.
— Sargento, estão chamando-o na torre de observação. Há uma comunicação telefônica para o senhor. É urgente.
Fiquei petrificado. Em meio ao naufrágio, com as estradas, as linhas telegráficas, todos os meios de comunicação mergulhados no caos mais completo, com os chefes sem notícias de suas tropas e todo vestígio de organização sob a ofensiva dos tanques alemães e da Luftwaffe, me pareceu algo quase sobrenatural que a voz da minha mãe tivesse conseguido abrir caminho até mim.” (p. 248)
“A viagem de Gibraltar até Glasgow durou dezessete dias, e descobri que o navio transportava outros ‘desertores’ franceses. Acabamos nos conhecendo. Havia Chatoux, abatido mais tarde sobre o mar do Norte; Gentil, que morreria com seu Hurricane num combate de dez contra um; Loustreau, que sucumbiu em Creta; os dois irmãos Langer, um dos quais, o caçula, foi meu piloto, antes de ser morto por um raio em pleno vôo, no céu africano, e cujo irmão ainda vive; Mylski-Latour, que trocaria seu nome por Latour-Prendsgarde, e que 288 cairia com seu Beaufighter, se não me engano, na costa da Noruega; havia o marselhês Rabinovitch, chamado de Olive, morto durante o treinamento; Charnac, que saltou com suas bombas sobre o Ruhr; Stone, o imperturbável, que voa ainda hoje [...].” (p. 287-288)
“Algo me dizia que nos grandes hotéis londrinos não deixariam uma garota subir para um quarto com quatro homens e vi ali uma ocasião para me livrar da pequena Ezra Pound. Ela se agarrava ao meu braço: um duelo de pistola a uma distância de cinco metros — isso sim era literatura! Ela miava excitada como uma gata. Seguimos num táxi após longa troca de cortesia para saber quem entraria primeiro e passamos pelo clube da R.A.F. onde os poloneses saltaram para apanhar seus revólveres de serviço. Eu, de minha parte, tinha apenas meu pequeno 6.35 que carregava sempre debaixo do braço. Em seguida fomos para o Regent’s. Como a pequena Ezra Pound insistia em subir, tivemos de juntar nosso dinheiro para um quarto com salão.” (p. 299)
“Minha testemunha se apoiava contra a parede a cada silvo de bomba. Os três poloneses eram anti-semitas e consideraram minha escolha como um insulto adicional. O valente senhor, porém, continuou subindo as escadas como se descesse aos infernos, os olhos fechados e entoando preces. Os andares de cima estavam completamente vazios, abandonados pelos hóspedes, e eu disse aos patriotas poloneses que o corredor me parecia um terreno ideal para o duelo. Exigi igualmente que a distância fosse aumentada para dez passos.” (p. 301)