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RELIGIÃO, A Jacques Derrida e Gianni Vattimo 232 p., 14
x 21 cm |
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Por que existe alguma coisa, em vez do nada?
Jacques Derrida, Gianni Vattimo e outros se reúnem para passar a limpo
o retorno do religioso na atualidade. Oportuno e necessário: como alguns
grandes filósofos lidam com este fenômeno?
Por que é tão difícil pensar esse fenômeno, apressadamente
denominado "retorno das religiões"? Por que é surpreendente?
Por que deixa atônitos em particular aqueles que acreditavam, ingenuamente,
que uma alternativa opunha, de um lado, a Religião e, do outro, a Razão,
as Luzes, a Ciência, a Crítica (a crítica marxista, a genealogia
nietzscheana, a psicanálise freudiana e respectivas heranças),
como se a existência de uma estivesse condicio-nada ao desaparecimento
da outra?
Jacques Derrida
Sobre o livro
Alguns dos pensadores mais em evidência da Europa se reúnem na ilha de Capri, em fevereiro/março de 1994, para debater o retorno da religião. Publicamos aqui os textos resultantes desse encontro e que refletem uma abordagem ampla e multifacetada de uma temática ocupando a humanidade desde os tempos mais remotos. Gianni Vattimo recorre a um desvio hegeliano para nos apresentar o assunto da forma mais instigante em sua introdução: "Os tempos certamente mudaram desde que Hegel escrevia que o sentimento fundamental de sua época se expressava por meio da sentença 'Deus está morto'. Mas o 'nosso' tempo (que, como o de Hegel, começa com o nascimento de Cristo) é realmente tão diferente assim? E este fenômeno, que chamamos erroneamente de 'renascer da religião' (nos parlamentos, no terrorismo e na mídia, mais ainda que nas igrejas, cada vez mais vazias), é realmente outra coisa que a 'morte de Deus'? Eis a questão que nos colocamos, sem dúvida como todo mundo hoje em dia, e que submetemos aos amigos e colegas que foram convidados a colaborar conosco."
Os autores
JACQUES DERRIDA
Membro do Collège International de Philosophie, é um dos mais
ricos e inovadores pensadores de nossa época, tendo construído
sua obra em torno do movimento da desconstrução. Publicou, entre
outros, de Da gramatologia, A farmácia de Platão, Espectros de
Marx e Donner la mort.
MAURIZIO FERRARIS
Professor de estética na Universidade de Turim, tem trabalhado em prol
de um reatamento do diálogo entre a filosofia e a psicologia. É
autor de Estetica razionale, entre outros.
HANS-GEORG GADAMER
Nasceu em Marburg (Alemanha) em 1900. Foi aluno de Husserl e Heidegger em Heidelberg
em 1923. Leciona filosofia desde 1937. Desde 1968, professor emérito
na Universidade de Heidelberg. Um dos expoentes da filosofia contemporânea,
sua obra primordial é A história do conceito e a linguagem da
filosofia. Teve sua Obra completa editada entre 1986 e 1991.
ALDO GARGANI
Formado em filosofia pela Scuola Normale Superiore de Pisa. Membro do Wissenschaftskolleg
de Berlim e do Collège International de Philosophie. Leciona estética
na Universidade de Pisa. Publicou, entre outros, Hobbes e la scienza, Introduzione
a Wittgenstein, Il corraggio di essere - Saggio sula cultura mitteleuropea.
EUGENIO TRÍAS
Filósofo e escritor. Prêmio Friedrich Nietzsche. Entre suas obras
mais conhecidas: La filosofia y su sombra, Drama e identidad, El artista y la
cuidad, Pensar la religión.
GIANNI VATTIMO
Professor da Universidade de Turim, publicou extensa obra sobra a filosofia
moderna, incluindo: O fim da modernidade, Para além da interpretação,
Introdução a Heidegger, Estetica moderna, Tecnica e esistenza:
una mappa filosofica del Novecento.
VINCENZO VITIELLO
Autor de Dialettica ed ermeneutica: Hegel e Heidegger, La favola di Cadmo: la
storia tra scienza e mito da Blumenbert a Vico, Studi heideggeriani, Filosofia
teorica - le domande fondamentali: percorsi e interpretazioni.
Trechos
Com efeito, no entender de Kant (...) só existem duas famílias de religião e, em suma, duas fontes ou dois troncos da religião - e, portanto, duas genealogias a respeito das quais ainda se deve perguntar por que motivo compartilham o mesmo nome, próprio ou comum: a religião de mero culto procura os "favores de Deus", mas essencialmente, não age, limita-se a ensinar a oração e o desejo. O homem não tem de se tornar melhor, ainda que seja pela remissão dos pecados. Quanto à religião moral, visa à boa conduta da vida; comanda o fazer, dissociando-o do saber o qual lhe está subordinado, e prescreve o tornar-se melhor agindo para tal fim exatamente onde "o seguinte princípio conserva seu valor: 'Não é essencial nem, por conseguinte, necessário, que alguém saiba o que Deus faz ou fez para a sua salvação', mas antes o que ele mesmo deve fazer para se tornar digno dessa ajuda". (J. Derrida, p. 20)
Na definição da "fé que reflete" e do que vincula indisso-luvelmente a idéia da moralidade pura à revelação cristã, Kant recorre à lógica de um princípio simples, ou seja, aquele que citávamos há pouco literalmente: para nos comportarmos de forma moral, é necessário, em suma, proceder como se Deus não existisse ou já não estivesse interessado pela nossa salvação. Eis o que é moral e, portanto, cristão, se um cristão deve ser moral: deixar de se voltar para Deus no momento de agir segundo a boa vontade; em suma, proceder como se Deus nos tivesse abandonado. Permitindo pensar (mas também, suspender em teoria) a existência de Deus, a liberdade ou a imortalidade da alma, a união da virtude com a felicidade, o conceito de "postulado" da razão prática garante essa dissociação radical e assume, em suma, a responsa-bilidade racional e filosófica, a conseqüência neste mundo, na expe-riên-cia, desse abandono. Não será uma outra forma de afirmar que o cristianismo não pode corresponder à sua vocação moral e a moral à sua vocação cristã a não ser suportando, neste mundo, na história fenomenal, a morte de Deus, e muito para além das imagens da Paixão? Que o cristianismo é a morte de Deus anun-ciada e evocada dessa forma por Kant à modernidade das Luzes? O judaís-mo e o Islã seriam, talvez, então os dois últimos monoteís-mos a se insurgir ainda contra tudo o que, na cristianização de nosso mundo, significa a morte de Deus, a morte em Deus, dois mono-teís-mos não pagãos que não admitem a morte, tampouco a multipli-cidade em Deus (a Paixão, a Trindade, etc.) (...) (J. Derrida, p. 22)
Diz-se amiúde que a experiência religiosa é a experiência de um êxodo; mas se êxodo for, trata-se provavelmente da partida para uma viagem de retorno. Talvez não devido a uma natureza essencial qualquer; mas, de fato, em nossas condições de existência (Ocidente cristão, modernidade secularizada, estado de ânimo de final de século tenso devido aos prementes e inéditos riscos apocalípticos), a religião é experimentada como um retorno. (G. Vattimo, p. 91)
Depois que a doutrina marxista extinguiu o auto-engano ideo-lógico, como o ensina o ateísmo dogmático, as próprias religiões têm dificuldade em atingir as pessoas. As frentes de batalha evidentemente se modificaram. A realidade atual mudou, já que o ateísmo dogmático não mais constitui uma das frentes. No lugar do marxismo e de sua negação da religião em geral, surgiu, porém, o ateísmo da indiferença. Isto parece ser cada vez mais o comportamento predominante das gerações mais jovens nos países industrializados. (H.-G. Gadamer, p. 223)