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REPÚBLICA MUNDIAL
DAS LETRAS Pascale Casanova Tradução: Marina Appenzeller |
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A Editora Estação Liberdade faz uma declaração de amor aos escritores do mundo inteiro anunciando A República Mundial das Letras
Apesar do que diz a lenda dourada da literatura, existe uma fábrica invisível e poderosa do universal literário. Essa República Mundial das Letras tem o seu próprio meridiano de Greenwich, ao qual se medem a novidade e a modernidade das obras. Este livro retraça a história e descreve a estrutura desse espaço literário.Mas o país da literatura não é a ilha encantada das formas puras. É um universo desigual, um território onde os literariamente desprovidos são submetidos a uma dura dominação. A história da literatura proposta aqui também é a dos revoltados e dos revolucionários que conseguiram subverter a lei literária e arrancar sua liberdade de escritores graças à invenção de novas formas. A leitura assim renovada dos textos de Kafka, Joyce, Faulkner ou Beckett, mas também de Arno Schmidt, Mário de Andrade, Ibsen, Michaux, Cioran, Naipaul, Juan Benet, Danilo Kiš e muitos outros “ex-cêntricos” poderia fornecer armas críticas a todos os que se rebelam contra as evidências e arrogâncias dos guardiães da lei literária.
Neste abrangente apanhado dos destinos de autores, obras, movimentos, línguas e capitais da literatura que compõe a República Mundial das Letras, Pascale Casanova aborda os complexos mecanismos e leis que regem o labor da escrita. Mas quem diz mecanismos e leis diz também dominação. E quem diz dominação diz revolta. Eis portanto a questão central do livro: a elaboração de uma gênese do espaço literário — “o processo pelo qual se inventa lenta, difícil e dolorosamente, em lutas e rivalidades incessantes, a liberdade literária contra todos os limites extrínsecos” —, o que nos leva naturalmente à análise da correlação de forças que lhe dá o tom. Autores tão diversos quanto Goethe, Roland Barthes e Carlos Fuentes já abordaram a geografia do espaço literário mundial (em contraposição, ou mesmo oposição, aos espaços históricos reais): a ficção arma-se de criatividade para fixar seu espaço além das contingências políticas e econômicas.
A autora oferece um novo método interpretativo baseando-se no jogo das desigualdades para analisar as relações entre dominados e dominantes e a quebra das hierarquias literárias. Demonstra que quem move mesmo a arte do escrever são os que vêm de baixo, os revoltosos, os “subversivos” das letras em luta contra o establishment gerador de imobilismos literários. São os excentrados e excêntricos da literatura os que têm algo a dizer, os Joyce, Kafka, Beckett, Juan Benet, Faulkner, António Lobo Antunes, Mário de Andrade (“Macunaíma poderia ser hoje considerado um emblema de todas as narrativas nacionais fundadoras: esse empreendimento literário múltiplo e complexo, ao mesmo tempo nacional, etnológico, modernista, irônico, desencantado, político e literário, lúcido e voluntarista, anticolonial e antiprovinciano, autocrítico e plenamente brasileiro, literário e antiliterário, leva ao auge da expressão o nacionalismo constitutivo das literaturas desprovidas e emergentes”), os representantes da periferia literária, das línguas minoritárias, dos países pequenos ou desprovidos literariamente — e que muitas vezes deverão abandonar língua e país para se verem reconhecidos e legitimados no altar das letras. Cosmopolitas por natureza, o são também por necessidade.
Este belo afresco dos destinos da miríade de autores analisados — em sua correlação com as leis enrijecedoras e os mecanismos do conservantismo literário — atinge na veia quem quer que esteja minimamente sensibilizado com os destinos da escrita e de seus artesãos. E nisso fazemos também nossa a causa de Pascale Casanova em seu embate contra “as várias formas de dominação que se exercem sobre os escritores”.
Trechos
“A única representação literária do universo literário legítimo é a de uma internacionalidade reconciliada, do acesso livre e igual de todos à literatura e ao reconhecimento, de um universo encantado, fora do tempo e do espaço, que escapa aos conflitos e à história. É nas regiões mais autônomas, liberadas de certa forma das coerções políticas, que se inventam a ficção de uma literatura emancipada de todas as amarras históricas e políticas, a crença em uma definição pura da literatura, separada até de qualquer relação com a história, o mundo, a nação, o combate político e nacional, a dependência econômica, o domínio lingüístico, e a idéia de uma literatura universal, não nacional, não particularista e independente dos recortes políticos ou lingüísticos.”
“A singularidade, a unicidade, a originalidade de cada criador é uma conquista somente possível ao termo de um longuíssimo processo de agrupamento e concentração de recursos literários. Esse processo, espécie de criação coletiva contínua, não é nada menos do que a história da literatura tal como será considerada aqui.”
“Cada ‘lugar capital’ tenta impor a evidência de sua centralidade e de sua autoridade sobre o território lingüístico que dele depende, mas sobretudo estabelecer nesses territórios sob controle escolar, lingüístico e literário seu monopólio da consagração literária. Assim as grandes capitais literárias estabelecem diversos sistemas de consagração, que lhes permitem conservar uma espécie de ‘protetorado’ literário: continuam a exercer, graças à ambigüidade do uso das línguas centrais, um poder político com base literária. Por isso, a perpetuação da dominação, mesmo sob a forma neocolonial ‘suave’ da língua e da literatura, é um fator poderoso de consolidação do pólo heteronômico (ao mesmo tempo político e econômico) do campo literário mundial.”
“Ainda hoje, a particularidade do caso latino-americano reside na constituição de um patrimônio literário não dentro de um espaço nacional, mas de um espaço continental. Graças a uma unidade lingüística e cultural — favorecida pelos exílios políticos que levavam os intelectuais a abandonar seu país e a deslocar-se por todo o continente — a estratégia do grupo dos escritores chamados do boom (e de seus editores), no início dos anos 70, consistiu em proclamar uma unidade estilística continental, produto de uma suposta “natureza” latino-americana."
“Em outras palavras, é ligando-se às soluções lingüísticas imaginadas pelos escritores desprovidos que se pode chegar a analisar suas criações literárias mais refinadas, suas escolhas estilísticas e suas invenções formais, ou seja, a recuperar a análise interna dos textos. Também se compreende por esse viés que os maiores revolucionários da literatura se encontrem entre os dominados lingüísticos, “conde-nados” a encontrar soluções para seu despojamento e sua dependência.”
“Antonio Candido, grande crítico literário brasileiro, observa assim que no final do século XIX a originalidade estilística e literária do romancista brasileiro Machado de Assis poderia ter-lhe permitido exercer influência internacional: “Entre as línguas do Ocidente, a nossa é a menos conhecida e, se os países em que é falada pouco representam hoje, em 1900 representavam ainda menos no cenário político. Por isso permaneceram ‘marginais’ dois romancistas que escreveram nessa língua, iguais dos maiores que escreveram então: Eça de Queirós, bem adaptado ao espírito do naturalismo; Machado de Assis: [...] escritor de estatura internacional, permaneceu quase totalmente desconhecido fora do Brasil [...]. À glória nacional quase hiper-trofiada correspondeu uma desencorajadora obscuridade internacional.”
“É sob esse aspecto que Macunaíma poderia ser hoje considerado um emblema de todas as narrativas nacionais fundadoras: esse empreendimento literário múltiplo e complexo, ao mesmo tempo nacional, etnológico, modernista, irônico, desencantado, político e literário, lúcido e voluntarista, anticolonial e antiprovinciano, autocrítico e plenamente brasileiro, literário e antiliterário, leva ao auge da expressão o nacionalismo constitutivo das literaturas desprovidas e emergentes.”
“ [...] essa vontade de se impor pela reivindicação de uma diferença lingüística no próprio âmago de uma língua literária principal é uma das grandes vias de subversão da ordem literária, isto é, e de maneira indissociável, de questio-namento da ordem estética, gramatical, política, social, colonial, etc.”
“Joyce e Faulkner operaram revoluções específicas tão grandes que a medida do tempo literário foi por elas profundamente modificada. Tornaram-se, e em grande parte são ainda, instrumentos de medida, referências que permitem avaliar todas as obras que pretendem entrar no universo.”
“Por isso a derradeira etapa da libertação da escrita e dos escritores, sua última proclamação de independência, passa provavelmente pela afirmação do uso autônomo de uma língua autônoma, ou seja, especificamente literária. Uma língua que não se submeteria a qualquer lei da correção gramatical ou até ortográfica (que se sabe impostas pelos Estados), que recusaria dobrar-se às exigências comuns da legibilidade mais imediata, da comunicação mais vulgar, para só obedecer às exigências ditadas pela própria criação literária.”
“Mas o tempo, único produtor do valor literário — e convertido em antigüidade, em crédito, em recursos, em literariedade —, fundamenta a desigualdade do mundo literário. Ora, só se pode pretender fazer uma verdadeira história literária da literatura levando em conta a desigualdade dos protagonistas do jogo literário e os mecanismos de dominação específicos que nele se manifestam. Os espaços literários mais antigos são também os mais dotados, ou seja, os que exercem sobre o conjunto do mundo literário um domínio inconteste. A idéia da literatura “pura”, liberada da história, é uma invenção histórica que, devido à distância que separa os espaços mais antigos dos mais recentes (ou seja, os que entraram mais recentemente no universo literário), se impôs como universal ao conjunto do mundo literário.”
“A dependência política, as traduções internas, as preocupações nacionais e lingüísticas, a necessidade de constituir um patrimônio para entrar no tempo literário, todas essas coerções específicas que comprometem o projeto e a forma das obras literárias provenientes das margens da República das Letras são ao mesmo tempo negadas e ignoradas pelos que legiferam literariamente. Por isso as obras excêntricas são ou totalmente rejeitadas como não literárias, ou seja, como não conformes aos critérios puros da literatura pura, ou (raramente) consagradas à custa de imensos mal-entendidos erigidos justamente em princípios de consagração [...]”