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SADE CONTRA O SER
SUPREMO Tradução: Luciano Vieira Machado |
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A chama da filosofia se acenderá sempre na chama do esperma, e nos templos ela não será apagada, ainda que mil seres supremos se agitem para lhe sufocar a centelha. (Marquês de Sade)
Philippe Sollers nos revela e comenta uma inédita e misteriosa carta de Sade às vésperas de seu encarceramento pela justiça revolucionária. E, num ensaio crítico, rende homenagem ao autor libertino, a quem considera um dos maiores da história da literatura.
O livro
O erotismo, de um lado, e a pesquisa de formas literárias, do outro, são recorrentes na obra de Philippe Sollers. Aqui, ele faz um amálgama deste seu duplo interesse, ao escrever sobre Sade frente à Revolução Francesa, no ensaio-homenagem “Sade no tempo”, primeira parte do livro. Sobre este assunto, Sollers fez o seguinte depoimento a republique-des-lettres.com: “Desde que percebe que o cristianismo poderia ser substituído por outra religião, a do Ser Supremo, a da Deusa Razão, [Sade] polemiza imediatamente, seus insultos jorram. Hoje, após dois séculos de positivismo, de platitude racionalista, precisamos nos perguntar novamente o que é o erotismo. (...) As revoluções oriundas da Revolução Francesa cobriram o mundo de um manto de virtude, de pulsão de morte, ao passo que elas poderiam ter disseminado a liberdade a tudo quanto é lugar”.
Já na segunda parte do livro, constituída pela longa carta destinada ao cardeal de Bernis, exilado em Roma e em quem tinha plena confiança, Sade denuncia com uma veemência toda especial a ideologia neoreligiosa da Revolução Francesa (o culto de Ser Supremo). Ainda mais que Sade sente que será preso ou mesmo morto pela justiça revolucionária. A carta era inédita até a atual edição e esteve em poder de Apollinaire, depois do escritor Maurice Heine e do editor Gilbert Lely, este último proibindo que fosse editada antes do bicentenário da Revolução Francesa.
Philippe Sollers sobre o livro
Poucos espíritos são suficientemente livres para aceitar que uma nova religião, com ambições universais, foi fundada na França durante o Terror: a do Ser Supremo. Seu desejo de morte, seu mau gosto, sua mania do espetáculo, seu grotesco, seu moralismo desenfreado, suas práticas mascaradas, seu clérigo sonâmbulo dos dois sexos, seus rituais mercantilistas corrompedores, seus crimes maniqueístas tiveram, até hoje, um único crítico informado e lúcido: o Marquês de Sade. Eis a prova.
Trechos
1. Do ensaio “Sade no tempo”:
“Compreendo melhor por que os romances me parecem em geral acanhados e estúpidos: sobretudo por que a tirania complacente sob a qual vivemos quer essa estupidez. Jamais a arte do romance atingiu esse rigor de composição, essa ligeireza de contornos. Sade ou a arte da fuga, a oferenda musical da consciência de si. Paradoxo inesperado, a existência humana, vermezinho em sursis, ressurge dessa arte mais preciosa, insubstituível. O que resta de Sade é de uma delicadeza infinita. O corpo humano sempre esteve em perigo, agora mais do que nunca.”
2. Da carta de Sade:
“Lá fora, nas ruas, não havereis de se surpreender ao saber que as mulheres em geral são as mais enfurecidas, sobretudo quando as condenadas são belas. Aí ninguém as segura mais. As megeras das calçadas jogam pedras, lama e excrementos sobre as carroças, cheias, muitas vezes, de jovens encantadoras. Elas as insultam aos berros, a ponto de os homens freqüentemente se mostrarem incomodados. A firmeza que as prisioneiras demonstram durante o trajeto não enternece de forma alguma os cidadãos; tal firmeza os irrita, como o vermelho irrita os touros.”