TERRA E CINZAS
Atiq Rahimi

Tradução: Flávia Nascimento
Ilustração da capa: Sérgio Fingermann
80 p., 14 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-053-3
ISBN-13: 978-85-7448-053-4
R$ 24,00

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Um dos mais belos panfletos anti-guerra de que se tem notícia.

Um ancião num vale esquecido à beira de um rio ressecado. Um menino que não ouve mais. Uma cabana de vigia à entrada de uma mina. E mais nada, além do ressecado do vale desértico.

Do escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi nos vem um dos mais belos panfletos anti-guerra de que se tem notícia. Pois o velho e seu neto estão aguardando, num passar do tempo raro na literatura mundial, uma carona para a mina onde está trabalhando o filho do primeiro e pai do segundo, com a incumbência de anunciar a ele que a família morreu num ato de guerra. Mas a sabedoria e a piedade somem com as palavras, emudecem o velho, que não sabe como abordar a questão. Não quer apunhalar o filho com um golpe de misericórdia.

O vilarejo destruído está para todos os vilarejos destruídos e todas as famílias aniquiladas de todas as guerras do mundo. No caso, o pano de fundo é o conflito gerado durante o regime pró-soviético no início dos anos 80. Mas os sinais e o opressor de plantão são intercambiáveis, e são o que permanece desta ardente e bela leitura que nos faz mergulhar no mundo de antigos contos persas (Atiq Rahimi: “às perguntas políticas dos jornalistas, respondo com contos persas”) é um lancinante, elegante e sutil grito para que parem bombardeios e matanças, que geram tanta dor e ódio. “Sabe, pai, a dor é assim, ela derrete ou escorre pelos olhos, ou ela se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também...”

 

Trechos

"E depois, um dia, você não ouve mais nada. Por quê? Seria idiota te dizer que você ficou surdo! Você não ouve, você não entende, você nem sequer imagina que é você que não ouve mais. Você acha que são os outros que ficaram mudos. Os homens não têm mais voz, a pedra não faz mais barulho. O mundo está silencioso... Mas, então, por que os homens movem os lábios?"

"Você sabe muito bem, meu amigo, que neste país, caso você queira perguntar por quê, é preciso começar fazendo os mortos falar em seus túmulos. Como é que eu vou saber por quê? Há algum tempo, um bando de traidores do governo veio convocar tropas. A metade dos jovens fugiu, a outra metade se escondeu. Sob o pretexto de vasculhar as casas, os milicianos pilharam e saquearam tudo."

"Ele é um homem! Você precisa contar. Ele tem que aceitar. Mais cedo ou mais tarde ficará sabendo. É melhor que seja por você. Você deve ficar perto dele, compartilhar com ele esta dor. Não o deixe sozinho! É preciso fazê-lo compreender que a vida é assim, que ele não está sozinho no mundo, que ele tem você e o filho dele. Vocês devem se apoiar mutuamente... Essas desgraças acontecem a todos, a guerra não tem coração..."

"Meu irmão, a guerra e o sacrifício obedecem à mesma lógica. Não tem explicação. O que importa não é a causa, nem o resultado, mas o ato propriamente dito."