Tratados da Vida Moderna

TRATADOS DA VIDA MODERNA
Honoré de Balzac

Tradução, notas e prefácio: Leila Aguiar
Costa
240 p., 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-152-4
R$ 37,00

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Nos textos reunidos sob o título Tratados da vida moderna foram escritos entre 1830 e 1839. Em 1830, em La Silhouette, vem a público a “Fisiologia do vestuário”. No ano seguinte, o mesmo jornal publica a “Fisiologia gastronômica”. No primeiro, a partir da análise do uso da gravata e dos paletós com ou sem forro, faz-se, em tom zombeteiro, uma crítica à falta de imaginação e leveza que ele via na sociedade parisiense. No divertidíssimo “Fisiologia gastronômica”, vê-se uma classificação dos comedores e bebedores em “o glutão, o comilão, o gourmand, o guloso, o gastrônomo, o ébrio, o bebedor, o sommelier, o degustador, o gourmet.” Ridicularizando as figuras do “comilão” e, sobretudo, do “glutão”, o autor, impiedoso, não economiza acidez em suas caracterizações.
Em 1833, nos jornais La Mode e L’Europe Littéraire, são publicados o “Tratado da vida elegante” e a “Teoria do mover-se”, respectivamente. No “Tratado da vida elegante”, a partir de uma divisão dos homens em três classes com modus vivendi diversos, Balzac, por meio de aforismos, sintetiza os preceitos obrigatórios ao comportamento elegante. Seu projeto inicial previa um estudo do corpo em movimento, que acabou sendo publicado separadamente sob o título “Teoria do mover-se”, texto que justapõe a graça no mover-se ou a falta dela aos tipos que deambulavam na sociedade francesa.
Escrito para servir de apêndice à obra Fisiologia do gosto, do gastrônomo Brillat-Savarin, em 1839 chega aos leitores o “Tratado dos excitantes modernos”, texto que versa sobre os excessos no consumo de aguardente, açúcar, chá, café e tabaco. “Todo excesso baseia-se em um prazer que o homem deseja repetir para além das leis comuns promulgadas pela natureza.”
Com seu estilo situado em zona limítrofe entre o didatismo analítico e a ironia, com um quê de bem humorada coluna social, este Tratados da vida moderna vem acompanhado de posfácio de Leila de Aguiar Costa, tradutora e especialista em literatura francesa do século XIX, além de biografia do autor.

Trechos

“O sujeito menos estimável da gastronomia é, sem dúvida nenhuma, o glutão: ele come..., come mais uma vez, come sempre..., mas sem método, sem inteligência, sem espírito; come porque tem fome, sempre porque tem fome. Trata-se de uma disposição física, independente de sua inteligência; trata-se de um apetite voraz, de uma necessidade imperiosa dos sentidos.” (p. 31)

“O glutão ignora o princípio elementar da gastronomia, a arte sublime de mastigar! Devora pedaços inteiros, que passam pela boca sem acariciar seu palato, sem despertar a menor ideia; eles vão diretamente se perder em um estômago de capacidade aterradora. O glutão é muito mais que um animal, é muito menos que um homem.” (p. 32)

“O alto funcionário, o prelado, o general, o grande proprietário, o ministro, o serviçal e os príncipes estão na categoria de desocupados e pertencem à vida elegante.” (p. 41-42)

“O artista é sempre grande. Ele possui elegância e vida próprias porque, nele, tudo reflete sua inteligência e sua glória. Tantos artistas, tantas vidas caracterizadas por ideias novas. Neles, a fashion deve ser sem esforço: esses seres indomados moldam tudo à sua maneira. Se por acaso se apoderam de uma figura grotesca é para transfigurá-la.” (p. 43)

“Mas, sem que possam ser acusadas de um vício tão vergonhoso, muitas pessoas, desejosas de obter dois resultados, tentam levar uma vida elegante com economia. Essas pessoas certamente atingem um objetivo: são ridículas.” (p. 62)

“Com efeito, o dandismo é uma afetação da moda. Ao se fazer dândi, um homem torna-se um móvel de alcova, um manequim extremamente engenhoso que pode montar um cavalo ou um canapé, que morde ou suga habitualmente a ponta de uma bengala, mas um ser pensante... jamais! O homem que vê apenas a moda na moda é um tolo. A vida elegante não exclui nem o pensamento nem a ciência: consagra-os.” (p. 73)