![]() |
AS UTOPIAS ROMÂNTICAS Orelha de Nicolau Sevcenko |
Compre aqui com nossos parceiros |
| Livraria Cultura | ||
| Submarino | ||
| Saraiva | ||
| Siciliano | ||
| Fnac | ||
A obra
“Heróis da história não escrita, criaturas da Mãe única e plenipotente, esperanças dela e uns dos outros; ergam-se como leões após o sono, atirem ao solo como orvalho essas correntes, pois vós sois muitos – e eles tão poucos!” Com versos inflamados como esses de Shelley, toda uma geração de poetas insuflou o ânimo público, no período turbulento que se seguiu à Revolução Francesa, clamando em tom profético a vitória do povo, da nação e da revolução que ensejariam a criação de um novo mundo de homens livres, destinados a viver na solidariedade, na paz e na abundância até o fim dos tempos.
Esse levante visionário e apaixonado dos inconformados e da sede de justiça se estendeu até o fatídico ano de 1848, assinalando um dos momentos mais frementes da história ocidental, chamado A Primavera dos Povos. Nele vicejaram as Utopias Românticas, secretando a seiva vital do impulso revolucionário pela liberdade, igualdade e fraternidade, tal qual se mantém pulsante nos corações mais generosos até hoje.
Elias Thomé Saliba, um dos historiadores mais eruditos e sensíveis de sua geração, recria num painel amplo e vigoroso, ponteado de observações refinadas, as glórias e as misérias dessa ousada aventura política e cultural. Um livro inspirador e, nesse mundo neoconservador e opaco, mais oportuno que nunca.
Trechos
“Movimento sociocultural, complexo e de múltiplas faces, [...] dificilmente se compreende a mentalidade romântica se não se analisa o enorme potencial de energia utópica por ela desencadeado.” (p.14)
“Todas as tentativas de definir o romantismo, identificando-o esquematicamente
com a revolução ou com a reação, redundaram em fracasso,
por ignorar a rota caprichosa deste imaginário.
A ambigüidade do pensamento romântico caracterizou-se exatamente
porcombinarora uma atitude, ora outra, numa busca desenfreada, talvez sem paralelo
em outras épocas, para encontrar uma explicação global
da realidade, uma explicação cósmica, combinando unidade
e diversidade, continuidade e transformação.” (p.16)
“Além de resíduos da hierarquia do passado, esta sociedade
abalada, sobretudo após a confiscada revolução de julho
de 1830, começa a mostrar sua verdadeira face: a tirania do dinheiro
que, às consciências mais sensíveis, afigurava-se como mais
terrível, muito mais bloqueadora e repressiva do que o antigo padrão
de nascimento. [...]
Surge talvez daí o impulso às utopias românticas. Este fracasso
invencível dos projetos mais conseqüentes de transformação
social, inerentes à Revolução Francesa, [...] foi propício
ao engendrar do ingrediente básico das utopias modernas: o desenraizamento
do tempo presente.” (p.27 e 29)
“Este é o ponto que nos interessa: no ato de criação intelectual, o artista não resistia a uma compulsão infrene de pensar sobre o que não existia, de acionar, ainda que com o risco da perda de energia, seu repositório bíblico de exílios e terras prometidas.” (p. 51-2)
“Do gesto espontâneo e livre dos poetas, do seu esforço ingente em escrever sobre o que não existia e, por contraste, do seu poético reino das sombras, os pensadores utópicos desentranharam suas auroras brilhantes e seus reinos redentores.” (p. 54)
“As formulações utópicas românticas confundiram-se com o próprio esforço de simplesmente entender e tornar inteligível o mundo real e a nascente sociedade industrial; daí a dificuldade de caracterizá-la ou defini-la.” (p.57)
“Mas temos aí então, ainda que em traços largos, um primeiro elemento diferenciador das utopias românticas: elas carregam consigo, quase invariavelmente, uma concepção peculiar de história e de temporalidade. Ao contrário das utopias anteriores, que almejavam um mundo estável, um universo ideal, não raro a-histórico, quase que fora do tempo, as utopias românticas manifestaram um visível caráter dinâmico ou, pelo menos, uma ansiosa e reiterada preocupação em ligar-se, de algum modo, a uma série histórica anterior.” (p. 57)
“Parece-nos, assim, que os historiadores também se sentiam absorvidos pelo mesmo clima e pelo mesmo afã dos poetas românticos, de escrever, quase compulsoriamente, sobre o que não existia.” (p. 59)
“O povo, afinal, acabava por se constituir na imagem central e verdadeiramente mítica da utopia romântica. O povo, entidade coletiva orgânica, além e acima dos antagonismos, escoimado de todos os seus conflitos.” (p. 66)
“Os acontecimentos de 1848 haviam ainda mostrado que os homens, em lugar de dominar o tempo, de instituí-lo, tornavam-se gradativamente meros joguetes de uma força superior e impessoal, aniquiladora dos projetos pessoas e dos sonhos coletivos, diante da qual só restava submeter-se [...]. Abria-se espaço, então, para a idéia de que a sociedade, em sua organização e evolução, dominava as ações individuais e os projetos subjetivos, e a história tornava-se, portanto, e no limite, suscetível de ser submetida a leis.” (p. 99)