HISTÓRIA DE UM PAÍS INEXISTENTE
O Pantanal entre os séculos XVI e XVIII

Maria de Fátima Costa

280 p. | 16 x 23 cm
ISBN-10: 85-7448-013-4
ISBN-13: 85-7448-013-8
R$ 48,00

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Que impressões o Pantanal causou sobre seus primeiros exploradores?
Por que foi de tão difícil e tardia exploração?

Esta é a história de como os primeiros exploradores da maior área alagada do mundo - que os espanhóis inicialmente chamavam de Laguna de los Xarayes - se empenharam, freqüentemente com relatos os mais fantasiosos, outras vezes sem o menor êxito, em entender e explicar uma região de geografia ímpar, ora paradisíaca ora inóspita ao extremo, zelosa de seus mistérios e em constante mutação.

A América fabulosa não é uma mera invenção de artistas e escritores de fantasia efervescente. As incríveis histórias de gigantes que habitavam o extremo sul ou a de um sujeito possuído pela idéia de montar uma ópera no coração da selva ou ainda a de uma menina que com seu pensamento atraía milhares de borboletas estão inspiradas em experiência mais ou menos reais.

História de um País Inexistente - O Pantanal entre os séculos XVI e XVIII nos confronta com a gestação, o apogeu e o desaparecimento de uma dessas histórias maravilhosas: o mito criado a respeito da maior região inundável do planeta, localizada no centro do continente americano, e hoje universalmente conhecida pelo nome de Pantanal. Esta paisagem evanescente, com rios, baías e ilhas que um dia existem, porém que alguns meses mais tarde desaparecem, foi descrita desde o século XVI pelos conquistadores espanhóis. Ora com perplexidade ora com desespero, os narradores tentam apreender uma natureza que lhes escapa e empenham-se em explicar uma geografia que eles mesmos não conseguiam compreender. Na Europa, as informações passadas por esses atribulados expedicionários são incorporadas nos compêndios do saber da época como dados fidedignos. A partir de algumas destas publicações, os laboriosos holandeses se dão a tarefa de cartografar meticulosamente o interior da América do Sul. Surge assim a história e a representação de um lugar inexistente: a imensa Laguna de los Xarayes, onde se encontra o paradisíaco reino dos índios Xarayes.

Maria de Fátima Costa recompõe aqui a fantástica crônica gestada terra adentro na América do Sul e persegue os passos da criação de um mito geográfico, desvelando um a um os elos desta invenção. No horizonte histórico, acompanha o devir de uma região que surge como espaço espanhol e é transformado em lusitano. Com erudição, confronta escritos, ilustrações e mapas oferecendo um riquíssimo leque de fontes e publicando, entre outras, as primeiras imagens naturalistas do interior do Pantanal, realizadas pelo italiano Miguel Ciera em meados do século XVIII.

Este livro acompanha o mito até a sua morte. Como demonstra a autora, em meados do século XVIII, a castelhana Laguna de los Xarayes é despida das suas maravilhas quinhentistas e dimensionada como espaço geograficamente determinado. A famosa lagoa passou então a ser nada mais que o rio Paraguai espraiado, que os luso-brasileiros chamarão finalmente de Pantanal.

 

Trechos

"No horizonte histórico, portanto, o Pantanal aparece como uma invenção luso-brasileira tendo sua origem em meados do século XVIII. Sua primeira definição foi encontrada num texto de 1727: "Pantanal chamam os Cuiabanos a umas vargens muito dilatadas, que começando no meio do Taquari, vão acabar quase junto ao mesmo rio Cuiabá". Trata-se, portanto, de uma denominação dada pelos mamelucos paulistas que durante o século XVIII percorriam a região com suas Monções. Estes, ao dominarem o espaço, dominaram também sua imagem constitutiva.

Durante alguns anos, a castelhana Laguna de los Xarayes convive com o luso- brasileiro Pantanal. Porém, pouco a pouco, essas imagens acoplam-se, e os campos alagados pantaneiros se sobrepõem à secular e fabulosa lagoa. Em seguida, o mistério é desfeito. Em meados do século XVIII, os demarcadores de limites, com seus saberes ilustrados, despiram-na das maravilhas quinhentistas e a dimensionaram como espaço geograficamente determinado. A famosa lagoa passou então a ser nada mais que o rio Paraguai espraiado. "Este rio, não podendo conter todas estas águas no seu leito, as estende de um lado a outro, porque o país é horizontal", resumiu o demarcador Félix de Azara." (p. 19-20)

"Neste estudo trato da invenção do Pantanal. Ao realizá-lo, tomei como base as narrativas de cronistas e viajantes que visitaram as terras molhadas da bacia alto- paraguaia. Procurei demonstrar que, por mais de dois séculos, a imensa planície inundável foi descrita e desenhada como a fabulosa Laguna de los Xarayes e que o Pantanal é uma invenção luso-brasileira realizada no transcorrer do século XVIII. Em textos e mapas acompanhei o ritmo de suas águas até o deságüe no rio Paraguai. Xarayes surge no imaginário ocidental do século XVI como região, configura-se numa grande lagoa e, no transcurso do século XVIII, é eclipsada pelo Pantanal. Isto demonstra o fato político fundamental da supremacia portuguesa sobre a área conquistada." (p. 22)

"Juan de Ayolas, juntamente com Domingo de Irala, subiu o rio Paraguai até o porto que batizou de Candelaria, na fronteira do país dos Payaguá; ali também, como Caboto, guerreou e venceu esta nação indígena; depois, repetindo a aventura de Aleixo Garcia, adentrou as terras dos Mbayá, deixando Irala com ordem de esperá-lo. Ayolas atravessa territórios indígenas, padece fadigas e misérias e perde quase metade dos cento e sessenta homens que levava consigo. Contudo, como Garcia, chegou até os índios Charcas, nos contrafortes andinos, conseguindo grande quantidade de valiosas peças: mais de sessenta cargas com placas, braceletes, coroas, vasilhas de todos os tamanhos em ouro e prata. Retornou às terras Payaguá, onde não encontrou Irala e seus companheiros e foi morto por aqueles indígenas." (p. 40)