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O CONVIDADO DESCONHECIDO Coleção
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Olivier Cadiot nos faz mergulhar no magistral delírio de um mordomo que, para desempenhar suas tarefas, ou por tentar desempenhá-las, apóia-se numa construção psíquica insensata cuspindo fogo para todos os lados. Cada uma das cenas de sua vida cotidiana (refeições onde os incidentes se sucedem numa velocidade estonteante, a formação "militar" dos criados sob sua responsabilidade, fantasiosas perseguições em jardins e florestas com toques de hiperrealismo, etc.) é para este personagem-narrador a ocasião de aperfeiçoar sua engenhosa e ameaçadora metralhadora giratória, calcada no imaginário das histórias de espionagem, com destaque para a organização metódica da sobrevivência num mundo hostil, sem esquecer a parafernália de praxe: microcâmeras, microfones ocultos, passagens secretas, armas brancas mortais, além das inevitáveis Aston Martins.
O livro em sua totalidade, cena pós cena, capítulo após capítulo, apresenta o monólogo interior no qual o mordomo (ganha um troféu quem descobrir se o narrador é mordomo ou espião) descreve e comenta seus atos e o ambiente no qual os comete. O que faz com que o leitor fique atônito, como que no gargarejo de uma alucinada platéia ou por detrás de uma câmera captando desvairadas imagens e sons vindos de todas as direções, um giroscópio trabalhando diuturnamente em 360º. Mais ainda do que no espírito do personagem-narrador, instalamo-nos no interior de seu discurso. Em seu abissal jorro de palavras estão contidas reflexões, crítica social, referências umbilicais: cinema, publicidade, música, literatura, grafismos, tudo está a serviço do ferino, por vezes cáustico, mas sempre obsessivo estilo narrativo deste multiartista das letras francesas.
Trechos
"A pessoa sempre sentada à cabeceira da mesa. Já tinha reparado
nela havia muito tempo.
A primeira vez, foi experimentando um novo tripé para lunetas.
Ela passeava diante de meu posto camuflado para vigilância do pessoal
de serviço. Ruiva, nariz grande e grandes pés. Sempre procurando
borboletas e olhando dentro dos formigueiros ou mergulhando as pernas em alguma
cisterna logo que a temperatura passa dos 31o à sombra."
"Enquanto isso (movo os soldados do fundo) quase ao mesmo tempo, ali (pronto)
tiros de fuzil retinem entre os arbustos.
E aí fffffffffff atençãããããão
ffff buum.
Mísseis-morteiros, senhores, uma arma que hoje transforma as próprias
concepções da estratégia.
Conversão 360°.
Apertar o botão camuflado no braço esquerdo da poltrona.
Desenrolar automático da tela.
Varinha.
Como podem ver aqui neste filme, senhores, em câmera tão lenta
que parece não haver movimento (ao contrário dos filmes em que
se vê uma flor se abrindo em câmera acelerada), pois bem, o míssil-morteiro
combina a segurança do clássico e a virtude do moderno.
Todas as coisas vivas são destruídas, mas não os bens materiais.
Tudo fica impecável. As flores nos vasos. O chá no bule. Os ovos
na caixinha."