A China dos riquixás (e de Lao She)
O lançamento do romance O garoto do riquixá, de Lao She (1899–1966), em tradução do chinês de Márcia Schmaltz, marca a primeira em vez que o autor, um dos mais populares e prestigiados escritores chineses do século XX, é traduzido no Brasil. Clique aqui para ler o primeiro capítulo do livro.

Publicado em 1937, o livro teve grande sucesso nos anos seguintes a seu lançamento, ganhando rapidamente traduções para o inglês, o japonês e o russo. O garoto do riquixá foi considerado um marco na literatura moderna chinesa pelo fato de o autor ter voltado suas atenções para o povo e para as ruas, tanto na temática (que conta a história de vidas entre as classes mais baixas), quanto no estilo (pois Lao She escreveu seu livro usando o chinês coloquial, incorporando a linguagem viva falada nas ruas de Beijing).


Cartão postal de 1921. 

O garoto do riquixá se tornou icônico pela capacidade do autor de capturar e eternizar um importante momento histórico da China. As décadas de 1920 e 1930, quando a ação do livro se desenrola, foram um momento marcado por conflitos sociais e políticos.

Depois de séculos como uma monarquia imperial sob a Dinastia Qing (1644–1911), um movimento revolucionário liderado por pelo médico Sun Yat-sen (fundador do primeiro partido político chinês, o Guomindang, Partido Nacionalista do Povo) proclamou a primeira república chinesa em 1912. A liderança desejava expulsar os dominadores estrangeiros, recuperar a nação e fazer com que todos tivessem direito à terra.

Sun Yat-sen, no entanto, não teve força política para realizar as reformas planejadas pelo Guomindang. Apesar da nova república, o país estava, na prática, sem governo central. Nas províncias, os senhores de terras tornaram-se “senhores de guerra”, usando exércitos particulares para impor seus domínios políticos, mantendo os camponeses sobre duros regimes de obrigações feudais. Sun Yat-sen foi afastado do poder e Yuan Shikai, um dos principais líderes militares, assumiu.


Manifestantes do movimento 4 de Maio 

Em 1919, a China foi sacudida por manifestações estudantis e populares, pedindo a volta de Sun Yat-sen. O movimento ficou conhecido como Quatro de Maio e ajudou a lançar novas ideias de patriotismo, democracia e anti-imperialismo no país.

Em 1921, um grupo de marxistas chineses fundou o Partido Comunista da China (PC), que chegou a se articular com o Guomindang para executar reformas no país. Após a morte de Sun Yat-sen, no entanto, a nova liderança do Partido Nacionalista do Povo entrou em uma sangrenta guerra civil com o PC. A China se via profundamente dilacerada internamente e cada vez mais assediada pelos vizinhos japoneses, que desejavam dominar o território chinês.

Ao mesmo tempo, na contramão da briga política, ares da modernidade ocidental chegavam à China, evocando a ‘belle époque’ europeia. É nesta época que se popularizam o jazz e os cafés, novas ideias começam a circular, e as mulheres começam a ter um pouco mais de liberdade – essas mudanças, no entanto, beneficiaram a poucos, e a grande maioria da população continuava vivendo uma dura vida na zona rural ou nas fábricas e subempregos nos centros urbanos.


Fotos de Heinz von Perckhammer 

No meio deste furacão, encontramos Xiangzi. É ele o protagonista da história, a personagem criada por Lao She – com inspiração em figuras reais – para dar vida a esta época. Xiangzi, que recebe na cidade o apelido de Camelo, é um rapaz que sai do campo e vai à Beijing para tentar a sorte trabalhando nas ruas como puxador de riquixá. Digno, batalhador, idealista, solidário, forte e admirável, estas são algumas das características que Lao She usa para descrever seu protagonista.

Ao nos mostrar os caminhos de Xiangzi, os obstáculos que se apresentam a ele e todo o universo de pessoas que o circundam – dos patrões, clientes e colegas até os interesses amorosos – Lao She cria um épico em miniatura, sintetizando todos os conflitos do país na luta de um homem pelo controle de seu próprio destino. 



Para isso, o autor mergulhou em pesquisas e coleta de materiais. Isso tudo para poder ir “às raízes”, mostrar o interior psicológico de Xiangzi, descrever com precisão a sociedade em que ele habitava e criar uma narrativa de grande dimensão social. Estes e outros detalhes do processo criativo do autor estão no posfácio desta edição, no texto “Como escrevi O garoto do riquixá”, escrito por Lao She em 1945. Neste posfácio, o autor também afirma que, ao acabar O garoto do riquixá, estava mais satisfeito do que com qualquer trabalho anterior: “Quando se pensa intensamente, a caneta ganha a propriedade de escrever com sangue e lágrimas”.


O AUTOR

Vindo de uma família pobre e de minoria manchu, Lao She conseguiu estudar em uma escola privada com uma bolsa de estudos e depois, em 1918, se formou na Escola Normal de Beijing. Na década de 1920, morou por alguns anos em Londres, onde trabalhou como professor de chinês, entrou em contato com a literatura ocidental e escreveu suas primeiras obras, sob influência de autores como Joseph Conrad, Thomas Hardy e Charles Dickens. Nos anos 1930, já de volta a seu país, pediu demissão de seu cargo na Universidade de Shandong para poder dedicar-se exclusivamente à escrita. Foi nessa época que escreveu O garoto do riquixá, serializado na revista Yuzhoufeng. Entre os intelectuais, tornou-se rapidamente um dos mais críticos à invasão japonesa à China ocorrida em 1937, e o principal organizador da frente nacional dos escritores e artistas em resistência contra o Japão.

Ao final da Segunda Guerra, a convite do governo dos EUA, viveu um período em Nova Iorque, realizando conferências e escrevendo, até retornar em definitivo ao seu país natal em 1949, após a fundação da República Popular da China. Neste período escreveu suas principais peças, entre elas A casa de chá, e atuou na Assembleia Nacional do Povo e na Associação de Escritores da China. Em 1951, recebeu o título de Artista do Povo da prefeitura de Beijing.

Apesar de sua carreira notoriamente patriótica e os serviços prestados a seu país, Lao She se tornou alvo da Revolução Cultural – sua aversão a ideologia e críticas modernistas despertaram a desconfiança do regime. Acusado, juntamente com mais de 30 outros escritores e artistas, de ser “capitalista” e “antirrevolucionário”, Lao She foi perseguido e torturado pelos guardas vermelhos em 23 de agosto de 1966. Na madrugada do dia 24 de agosto, Lao She, o Artista do Povo, que crescera pelas ruelas de Beijing, passou suas últimas horas no Lago Taiping, onde acabou por se jogar e acabar com a própria vida. As circunstâncias de sua morte ainda são uma ferida viva na história do país.


Busto de Lao She no memorial em sua homenagem em Beijing. 

Após sua morte, a obra de Lao She foi proibida, a ponto de sua família ter tido que esconder seus manuscritos para evitar que fossem destruídos. Só em 1978, com a queda de Mao Tsé-Tung, ele foi reabilitado e recolocado entre os principais escritores chineses do século.

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