Conhecendo as konbinis japonesas

Conhecendo as konbinis japonesas – por Rita Kohl

Sayaka Murata era funcionária em uma konbini quando este romance recebeu o Prêmio Akutagawa, um dos mais prestigiosos no Japão, em 2016, por Querida konbini. O emprego ajudava Murata a se sustentar no início de sua carreira literária, mas, mesmo depois de já razoavelmente estabelecida como escritora, ela continuou lá (e só recentemente deixou a posição). O trabalho dava ritmo ao seu cotidiano e lhe permitia observar as pessoas e tirar inspiração para suas histórias. Durante a coletiva de imprensa na entrega do prêmio, ela afirmou que seguiria no serviço caso o gerente não se importasse — fato que causou grande surpresa e foi muito noticiado.


As lojas de conveniência japonesas, cenário do livro, não se parecem muito com as brasileiras. Apelidadas de “konbini” (abreviação de convenience store, ou “konbiniensu sutoa”), elas são mais como minimercados: além de todo tipo de bebidas quentes e geladas, comidas prontas (como pães doces e salgados), fast-food, bentô (marmitas prontas que podem ser aquecidas na própria loja), bolachas, chocolates, sorvetes e salgadinhos, as konbinis têm também ingredientes frescos e congelados para refeições simples e, em alguns casos, frutas e hortaliças. Revistas, cosméticos, artigos de papelaria e de higiene pessoal e até peças de roupa básicas (para pequenas emergências, como no caso de uma meia-calça rasgada) também podem ser encontrados.

Os clientes também podem usar uma série de serviços, tipo caixas eletrônicos, impressão, cópias e digitalização, envio de fax, postagem e recebimento de encomendas expressas, recarga de celular, venda de ingressos para shows e eventos, e pagamento de contas e boletos. Por fim, boa parte destas lojas funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano. Com tudo isso, as konbinis se tornaram parte fundamental na vida dos japoneses nos centros urbanos. Existem hoje mais de 50 mil delas no país. Em alguns bairros é comum encontrar uma a cada esquina, e até mais de uma em um mesmo cruzamento.

Uma das características fundamentais entre as konbinis é a padronização: todas seguem a mesma configuração e funcionamento básicos. Os padrões se mantêm graças a manuais meticulosos que definem não apenas a dinâmica e organização de cada cadeia de lojas como também o comportamento dos funcionários, desde a maneira como devem prender os cabelos e cumprimentar os clientes até os gestos corretos para entregar o troco e o recibo.



Os funcionários das konbinis, com exceção do gerente, trabalham com contratos temporários e recebem por hora, uma forma de contratação muito comum no Japão chamada arubaito (do alemão arbeit). A remuneração é relativamente baixa, mas é possível escolher os dias e turnos com certa liberdade. Assim, é a forma mais comum de trabalho para estudantes do ensino médio ou universitários, donas de casa que trabalham para complementar a renda do marido, ou para quem precisa pagar as contas enquanto se dedica a outra atividade que ainda não rende o suficiente (como músicos, atores, ou escritores).

Em oposição ao shain, forma de trabalho efetiva e com contrato (mais ou menos equivalente a um emprego CLT no Brasil), o arubaito, por não oferecer garantias ou benefícios trabalhistas, não é visto como respeitável para uma pessoa formada e que não se dedique a outra atividade principal, como é o caso de nossa protagonista. Trabalhar em uma konbini, então, menos ainda: o valor pago por hora é baixo e as atribuições são consideradas triviais (apesar de podermos observar no romance que o trabalho não é tão trivial assim).

Sayaka Murata usa este contexto tão particularmente japonês para colocar, na voz de sua estranha protagonista, questões que ultrapassam esse universo e atingem pontos cruciais da vida em sociedade — o peso que as expectativas alheias e a ideia de “normalidade” têm na vida dos indivíduos; a forma como absorvemos a maneira de falar e agir das pessoas ao nosso redor; e nosso esforço, muitas vezes inconsciente, para identificar e seguir as normas sociais.





Rita Kohl
é tradutora literária, formada em letras pela USP e com mestrado na Universidade de Tóquio. Traduziu obras de autores como Yoko Ogawa, Haruki Murakami, Sayaka Murata e Hiro Arikawa. 

No dia 19 de setembro será realizada uma palestra e bate-papo sobre Querida konbini, de Sayaka Murata, traduzido por Rita Kohl. O evento contará com a presença da tradutora e é realizado em parceria com a Fundação Japão e com a colaboração da JAPAN HOUSE São Paulo.

EVENTO

Palestra e bate-papo: Querida konbini, de Sayaka Murata, e a literatura japonesa contemporânea 
Evento realizado em parceria com a Fundação Japão e com a colaboração da JAPAN HOUSE São Paulo

Com Donatella Natili (professora da UnB, especialista em literatura japonesa moderna e contemporânea, com pós-doutorado na Universidade de Waseda, em Tóquio, onde também foi professora), Rita Kohl (tradutora literária, formada em letras pela USP e com mestrado na Universidade de Tóquio. Traduziu obras de autores como Yoko Ogawa, Haruki Murakami, Sayaka Murata e Hiro Arikawa) e Victor Hugo Kebbe (especialista em antropologia social, com graduação, mestrado e doutorado pela Ufscar. Foi pesquisador associado da Shizuoka University e da Nazan University).

Data: 19 de setembro, quarta-feira, às 19h
Evento aberto ao público. Retirada de senha no local 1h antes do início.
Local: JAPAN HOUSE São Paulo — Av. Paulista, 52 — Bela Vista. São Paulo

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