As poucas coisas importantes

Resenha de “Canadá”, por Júlio Pimentel Pinto

As poucas coisas importantes
Júlio Pimentel Pinto

Quando Canadá, de Richard Ford, começa a se encaminhar para o final, o narrador Dell Parsons relembra os últimos momentos que passara com seu pai, décadas antes, e constata: “Ele precisava que eu fosse seu ‘filho especial’ — ainda que só por um tempo, pois sabia que coisas ruins logo lhe aconteceriam. Ele precisava que eu fizesse o que os filhos fazem pelos pais: testemunhar que eles são substanciais, que não são vazios, não são ausências ressonantes. Que eles são importantes, quando tão poucas coisas de fato o são.”

A óbvia amargura sintetiza sua vida, e outras mais: da irmã, da mãe e do próprio pai. Vidas dispersas a partir do episódio grotesco e definitivo que ocorreu quando Dell tinha quinze anos e que ele relata ao leitor de Canadá já na primeira frase do livro: seus pais cometeram um assalto. 

O tema do evento único que cifra uma vida inteira é recorrente na ficção. Borges observou que o assassinato de Cesar, na escadaria do Senado romano, explicava e justificava toda a trajetória do imperador. Gregor Samsa e Joseph K., em estranhas manhãs, também sucumbiram, atordoados, às ocorrências que os transformaram para sempre. E o Leitor de Se um viajante numa noite de inverno não podia imaginar que uma visita regular à livraria redesenhasse sua história.
É isso que se passa com Dell. Depois do assalto, o que restou foi errância: uma busca por novos lugares, onde fosse possível viver; outra busca — maior e mais complexa — pela compreensão do passado e das entranhas dos relacionamentos humanos.

Circulando pelo interior dos Estados Unidos, ele conhece gentes e terras, assiste a gestos terríveis daqueles com quem se encontra. Age meio à deriva, ignora o futuro; desvela-se então um mundo em que o passado aflige — e não só a ele. A vida aparentemente segura de seus primeiros quinze anos é trocada pelo aprendizado dos segredos alheios e das agruras do mundo, e Dell se forma na incerteza e na percepção de quão complexas são as relações humanas. 

A fronteira que ele ultrapassa para alcançar o Canadá e o semideserto em que vai morar são mais do que referências geográficas: são metáforas fortes, que Ford explora para — tal qual antes fez Faulkner — expor as fraturas de um mundo misterioso e agitado, que encobre crimes e contravenções, reúne pecados e choca, sobretudo, porque é terrivelmente comum e banal. É nele que Dell — assim como você, leitor — tenta encontrar alguma explicação: uma explicação que ajude a resistir e a sobreviver, que permita reconhecer as tão poucas coisas que não são vazias, não ressoam ausências e que de fato são importantes.
 
Júlio Pimentel Pinto é professor no Departamento de História da USP e autor, entre outros, de Uma memória do mundo. Ficção, memória e história em Jorge Luis Borges, de 1998, e A leitura e seus lugares, de 2004, ambos publicados pela Estação Liberdade. 

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