Sayaka Murata: do underground ao status de celebridade literária global
Texto de Gabriel Joppert


Com seu romance de 2016 sobre uma mulher um pouco estranha e sua saga para se encaixar na sociedade,
Sayaka Murata conseguiu atingir de uma só vez vários pontos sensíveis do mundo contemporâneo. Talvez por isso o livro tenha se tornado um inesperado fenômeno (já são mais de 1 milhão de exemplares vendidos no Japão, com números na casa das centenas de milhares também em vários países do Ocidente) e alavancado Murata do underground – suas obras anteriores flertavam mais com a ficção científica do que com o realismo de QUERIDA KONBINI – ao status de celebridade literária global.

A protagonista de Murata é uma pessoa que, cansada de ser olhada como estranha por todos, decide abrir mão da própria personalidade e se tornar uma só com o seu meio – no caso, a konbini. O título original da obra já chama atenção pela estranheza e sinaliza a condição de Keiko: KONBINI NINGEN, traduzido literalmente, seria algo como “pessoa-konbini”.





O primeiro e mais evidente ponto que Murata aborda diz respeito a relações afetivas. Keiko nunca teve um relacionamento amoroso e nem pretende ter um. Esse fato incomoda a todos que estão à sua volta, e ecoa uma questão muito alardeada (principalmente pela mídia internacional com seu olhar exotizante sobre o Japão), que é a ideia de um pânico demográfico: os jovens não estão se reproduzindo e o povo está envelhecendo e encolhendo (uma projeção coloca a população caindo de 124 milhões para 80 milhões nos próximos 50 anos).

Uma pesquisa noticiada pelo The Japan Times em 2016 indica que por volta de 40% dos japoneses e japoneses entre 18 e 34 anos seriam virgens, aparentemente um dado sem paralelos nos países desenvolvidos. Por outro lado, há pesquisas que indicam que, em todo o mundo, a geração nascida a partir de 1990 se relaciona menos sexualmente por vários fatores, desde a influência da tecnologia até o cenário global de insegurança econômica.

Outro ponto que aparece na obra de Murata é o aumento do número de imigrantes no Japão. Keiko tem colegas de konbini como o vietnamita Dat. Outra matéria do Japan Times, de 2018, mostra que o número de trabalhadores imigrantes nas konbinis é cada vez maior – e a reação da população local oscila entre tolerância e arroubos de xenofobia. Estaria o Japão se miscigenando, perdendo sua “cara” e personalidade? Esta é outra discussão sensível e constante em países acostumados a receber grandes fluxos de imigrantes como EUA, França e Alemanha.

Por fim, temos em Shiraha, o contraponto masculino de Keiko, uma visão de Murata sobre aqueles que realmente não podem – e nem querem – se encaixar na sociedade. Shiraha odeia seu emprego, odeia as pessoas que vê pela frente e culpa a natureza humana por sua incapacidade de gerar laços sociais – para ele, nada mudou desde a Pré-História, seguimos todos apenas as condicionantes biológicas de procurar as melhores condições para sobreviver e se reproduzir. Shiraha está cegado pelo seu próprio ódio? Ou seria ele o único capaz de enxergar através do verniz de cordialidade com que nos vestimos ao longo dos milênios?

Estas são só algumas das feridas cutucadas pelo humor realista (com os toques pós-humanos característicos da autora) de QUERIDA KONBINI, romance enganadoramente simples. O livro oferece uma leitura agradável e ágil, e fica bem claro que temos em mãos a obra de uma grande escritora que, não à toa, é cada vez mais reconhecida e admirada pelo público e pela crítica ao redor do mundo. Mas não se engane: a prosa de Murata passeia com o leitor pela loja de conveniência e coloca no carrinho de compras algumas das questões que mais assombram a globalizada sociedade contemporânea, embaladas em cores vivas e luzes de neon. 



Título: Querida konbini
Autora: Sayaka Murata
Tradução: Rita Kohl
Formato: 14 x 21 cm / 152 páginas
ISBN: 978-85-7448-295-8
Preço: R$ 39,00






COMPARTILHE


CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK

Comentários

Escreva um comentário