Comemoração: 30 anos da Estação Liberdade
No último sábado (18/5), abrimos as portas da editora para receber os amigos e celebrar os 30 anos de história e atividades da Estação Liberdade. Além de confraternizar e jogar conversa dentro, o encontro também previa duas mesas de debate sobre o tema que unia todos: literatura. Recebemos as visitas a partir das 10h da chuvosa manhã de sábado. Depois do meio-dia, sob o calor do inesperado sol da tarde, chegou a hora da primeira das mesas de discussão literária, marcada para as 13h.
Nossa sala de reunião (transformada em auditório pocket) foi muitíssimo bem tratada. Três de nossas “ídolas” das letras estavam reunidas: Leila de Aguiar Costa, professora da Unifesp e intérprete de Balzac, Stendhal, Atiq Rahimi e outros; Lica Hashimoto, que ensina literatura japonesa na USP e já traduziu de Sei Shonagon a Banana Yoshimoto e Haruki Murakami; e Yun Jung Im, também professora na USP e precursora em traduções literárias do coreano no Brasil. 
A mesa, cujo tema era "Tradução literária e intercâmbio cultural", teve a mediação do nosso diretor editorial Angel Bojadsen, que sempre coloca o diálogo entre culturas – do Brasil ao Leste Asiático, passando por Cuba, África e Oriente Médio – como um dos princípios guiadores da editora.

Mesmo sem combinar (muito) cada convidada abordou um ponto diferente e complementar do tema da mesa. 



Mesa: Tradução literária e intercâmbio cultural. Da esquerda para a direita:  Yun Jung Im, Lica Hashimoto, Leila de Aguiar Costa e Angel Bojadsen

Yun começou jogando o público no olho de um furacão do intercâmbio cultural: como traduzir um conto de um autor coreano que tem no título o nome (em japonês) de um doce português? (A pergunta era retórica, o que não impediu uma boa discussão sobre o pão-de-ló, o pão de Castela, e outras proezas gastronômicas do império português). O ponto era relembrar o quanto as culturas, desde sempre, impregnam umas às outras, e sobre o quanto, a partir das trocas entre elas, podemos fazer com que noções, conceitos e até sentimentos desconhecidos tornem-se cada vez mais familiares, difundidos e reconhecíveis. Desta forma, movem-se e expandem-se as fronteiras de significado de cada palavra – sem isso, estaríamos frequentemente presos em intransponíveis armadilhas de tradução.

Lica contou sobre sua experiência como professora e o crescente interesse dos alunos da faculdade de letras por literatura e pela tradução. Também lembrou que a tradução, como estudo, campo de pesquisa e campo de atuação profissional, está, finalmente, ganhando cada vez mais o merecido reconhecimento. Para concluir, ela relacionou a literatura entre as culturas ao conceito japonês de mottainai. Mottainai é um termo antigo, ligado às tradições xintoístas e budistas, que denomina o respeito à essência das coisas e o pesar perante o desperdício. A ideia está totalmente presente no cotidiano no Japão e, portanto, também perpassa a literatura japonesa, que acaba carregando consigo esta noção de responsabilidade e sustentabilidade para as culturas onde ela é traduzida. Lendo trechos de Mil tsurus, de Yasunari Kawabata, Lica apresentou algumas das formas como o mottainai é intrínseco ao cotidiano e à convivência no Japão.

Leila focou mais nos aspectos práticos da tradução literária, alguns dos quais poderiam, sozinhos, ser objeto de discussões horas a fio. Primeiro, o caminho profissional do tradutor literário. No caso dela, pesquisar, traduzir e “dar a cara à tapa” com as editoras foi fundamental. Desta forma, ela trouxe seu projeto da tradução do Armance, de Stendhal, para a Estação Liberdade. Outro aspecto abordado foram as polêmicas, amadas ou odiadas, queridas ou desprezadas notas de rodapé. A balada do cálamo, de Atiq Rahimi, autor franco-afegão (e também um ótimo exemplo de ponte entre culturas) foi o livro analisado. Nesta obra poética e autobiográfica, trazer com fidelidade o texto era algo que pedia, muitas vezes, notas -- para dar a referência de citações que seriam obscuras para o leitor brasileiro, ou para oferecer contexto sobre figuras ou acontecimentos históricos. Os jogos de palavras, neologismos ou recursos metalinguísticos do autor também ofereceram fartos desafios à tradutora, que compartilhou facetas do processo com o público.

O que ficou salientado na conversa é que o tradutor, como intérprete entre culturas, precisa ser antes de tudo um leitor atento e generoso com o texto que encara.

À esquerda, quadros da artista Midori Hatanaka, usados nas capas das nossas edições de Yasunari Kawabata. Ao lado, mesa com nossos livros

Este era, de certa forma, o tema central da nossa segunda mesa: "Leituras, lugares, Borges e um pouco de Camus". Mediados e "entrevistados" por Angel, os responsáveis por manter o nível do debate lá no alto (depois de uma pausa para lanchinho e vinho) foram o professor e crítico literário Julio Pimentel Pinto, autor da Estação Liberdade, e o jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.

A mesa, um tanto ao arrepio de um mero bate-papo sabadeiro, deu uma volta ao mundo tratando das verdadeiras estrelas da nossa celebração: a leitura e os leitores. Entre as obras citadas por Julio estavam o conto "Pierre Menard, autor do Quixote", de Borges O escritor fictício Menard tenta, por meio de um exercício de lembrar e esquecer leituras e experiências, escrever novamente, linha por linha, o Dom Quixote, obra máxima de Cervantes. Uma ideia de Cervantes citada por Julio: “A História é a mãe da verdade”. E o que é a história se não um sempre novo cruzamento de leituras? O romance Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, narrado em segunda pessoa, protagonizado pelo Leitor e pela Leitora, também foi citado.

O professor Julio defendeu que nosso mundo e as sociedades que o compõe só são possíveis por conta da leitura e da imaginação ficcional, fundamentais também para o estudo da História. Julio também ensaiou um elogio ao anacronismo (na historiografia, a prática de interpretar o passado por vieses do presente), à medida que é algo intrínseco à atividade histórica, ideia também defendida pelo filósofo Georges Didi-Hubermann.

Manuel relembrou algumas leituras marcantes e outras obras que abordam e se deixam penetrar pela questão da leitura e dos leitores. Ele citou Alá e as crianças-soldados, de Ahmadou Kourouma, como um de seus livros preferidos. No livro, o autor marfinense trata da viagem de um garoto pelo continente africano, passando por guerras e desgraças. Apesar do tema duro, o livro tem um humor e uma sagacidade que não deixam o leitor pesaroso. Em momentos em que o horror é demasiado grande para se expressar, o garoto-narrador da obra recorre a dicionários franceses e cita textualmente verbetes do Robert e do Littré para tentar elucidar o que está sentindo ou vendo. Vidas minúsculas, de Pierre Michon, também foi lembrado como um livro essencial, desconhecido porém marcante. Manuel também comentou sobre o (bom) trauma de ter lido Crime e castigo, de Dostoiévski, aos 15 anos, e da importância que é, para um leitor em formação, ser atravessado por questões éticas como as que estão presentes no livro. A leitura, como experiência de mundos diferentes, ainda que apenas internos, é formadora de caráter, de ética e de imaginação. 


Mesa: Leituras, lugares, Borges e um pouco de Camus com Julio Pimentel Pinto e Manuel da Costa Pinto e mediação de Angel Bojadsen


Depois da conversa, todos de volta ao nosso lounge (previamente conhecido como sala do Douglas, nosso gerente comercial), para últimos drinques, petiscos e assuntos antes de encerrarmos o sábado. Agradecemos a todos que vieram ou acompanharam a distância e nos mandaram suas saudações. Pelo prazer que foi receber a todos, já estamos planejando as próximas tertúlias literárias.

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